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Eu Sou A Lenda – Richard Matheson

rochett 26 de junho de 2015
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“O que você faria se fosse o último homem na Terra?”

Richard Matheson

Richard Matheson

Essa premissa é o mote do enredo desenvolvido pelo escritor norte-americano Richard Matheson (Fev/1926 – Jun/2013) na obra “Eu sou a Lenda” (“I am Legend”, no original). Na trama, Matheson nos apresenta um indivíduo aparentemente comum, o derradeiro representante da espécie humana e sua vida (sobrevivência), em um mundo no qual o restante da população foi transformada em vampiros como efeito da pandemia causada por uma nova guerra. A infecção foi espalhada através do globo por meio de tempestades de areia unidas a uma superpopulação de mosquitos hematófagos.

Robert Neville, o protagonista da trama, mostra-se imune à contaminação. Ele assiste a seus amigos, vizinhos e família definharem e sofrerem ante um agente patológico cuja ciência da época (o livro, ambientado por volta de 1976, foi escrito na primeira metade dos anos 50 do último século), não possuía recursos para combater.

O autor descreve os acontecimentos na nova e terrível existência de Neville, focando no caráter psicológico da personagem: sua interação com o meio, suas reações no concernente a imaginar se realmente é o último ser humano vivo; se há sobreviventes, assim como ele e se existe algum esforço para reconstruir a civilização. A solidão e a paranoia constantes, pois seus “vizinhos” tornaram-se criaturas que se alimentam de sangue, bem como sua saída repentina do topo da cadeia alimentar para tornar-se uma rara e disputada iguaria.

O protagonista transforma sua casa em um “abrigo seguro” (cercado por alho, crucifixos e espelhos) durante as semanas nas quais a doença se espalha entre as populações, enquanto cuida de sua esposa. Após sua inevitável morte, Robert mergulha numa crise de depressão regada ao consumo abusivo de álcool por longos e infindáveis meses, até decidir impor seu (obsoleto) modo de vida a essa bizarra e perigosa realidade.

Descrevendo a rotina do protagonista, Matheson imprime um ritmo claustrofóbico ao quotidiano de um indivíduo que tem o mundo (ou o que restou dele), à sua disposição até o pôr do sol. A dúvida, o isolamento, a dor, consomem seu espírito à medida que os dias se arrastam. Se a luz lhe concede autonomia, a escuridão o obriga a encerrar-se em um refúgio repleto das memórias de um tempo que não mais retornará. Todas as noites, seus antigos vizinhos o atormentam, recordando-lhe de sua condição. De seu exílio numa sociedade onde ele passou a representar uma lembrança incômoda, um item ultrapassado cuja (única) finalidade é servir como alimento.

A cada página, a personalidade fragilizada de Robert Neville é exposta. Seu humor varia constantemente, oscilando entre a negação, a impotência, a esperança e mesmo a aceitação de que a catástrofe fora um efeito “natural” dos atos inconsequentes de uma raça autointitulada “senhora incontestável” de um mundo a quem explorou sem restrições. O protagonista luta, a todo custo, para manter uma sanidade que, aos poucos, vai desaparecendo. Enquanto trabalha pela subsistência (procura incessante nas horas de luz por víveres ainda consumíveis em prédios abandonados), ele tenta ocupar a mente nos mais variados afazeres, na busca de estabelecer uma rotina (incluindo a “caça” de vampiros em seus refúgios, durante o dia).

Há três grandes reviravoltas na história. E, após cada uma delas, Neville mergulha ainda mais na depressão, na revolta, na dor pelo que sua espécie causou ao mundo e, por vezes, julga-se amaldiçoado por não haver perecido ou se juntado aos que sobreviveram à praga para “renascer” como vampiros. Em diversos momentos da trama, Neville sente-se encurralado num labirinto de onde ele não enxerga saída. Robert percebe que o “tempo dos homens” chegou ao fim e se questiona acerca do quanto sua existência e a inversão de papéis seriam justas nessa realidade.

“Eu sou a Lenda” foi escrito numa época delicada para a humanidade. Os horrores da Segunda Guerra Mundial ainda estavam frescos na memória do mundo. A “divisão” do planeta em dois blocos (capitalistas à oeste do “muro da vergonha” e socialistas à leste), a demonstração do poderio nuclear no ataque às cidades de Hiroshima e Nagazaki trouxeram à sociedade uma sensação de constante ameaça onde, a qualquer momento, um conflito de proporções e força muito mais destrutivas que o último poderiam representar o fim da civilização.

Alguns podem afirmar que a transformação de bilhares em criaturas sugadoras de sangue, o caos e a ruína social seriam uma alegoria do autor à expansão socialista no pós-guerra. O “avanço vermelho” representava o fim de todas as conquistas pelas quais se havia lutado nos últimos milênios; trazia uma “tensão invisível”, caracterizada num termo cunhado para definir o embate entre os dois eixos governando o mundo da época: “a guerra fria”.

Outros, atribuir o enredo ao medo das consequências desconhecidas (e especuladas) acerca de um conflito nuclear total sobre as espécies do planeta. Teorizava-se muito quanto a mutações, involução e outros eventos que poderiam ser desencadeados com a liberação massiva de nuvens radioativas sobre a fauna e flora da Terra.

com Vicent Price

com Vicent Price

Foram realizadas três adaptações cinematográficas da obra ao longo dos 61 anos, desde sua publicação inicial: “The Last Man on Earth” com Vincent Price no papel de Robert Neville, “The Omega Man” estrelado por Charlton Heston“I am Legend”, protagonizado por Will Smith. Os que mais se aproximaram do enredo original foram os trabalhos de Price e Heston. O último, com o ator Will Smith, guarda somente algumas semelhanças com a trama escrita por Matheson.

com Charlton Heston

com Charlton Heston

“I am Legend” foi publicado no Brasil em 1981, como primeiro volume da coleção “Mestres do Horror e da Fantasia” pela editora Francisco Alves. Possuía 135 páginas, com tradução de Paula Castro e Fausto Cunha. Em 1984, é republicado (pela mesma editora) num tomo intitulado “A última esperança sobre a terra”. Foi eleito em 2012, pela Horror Writers Association, em celebração ao centenário da morte de Bram Stocker (Drácula) como o melhor livro sobre vampiros do século XX.

Primeira Edição Brasileira  (Editora Francisco Alves, Coleção Mestres do Horror e da Fantasia)

Edição  brasileira de 1981  (Editora Francisco Alves, Coleção Mestres do Horror e da Fantasia

A obra é um dos clássicos do horror, um trabalho com merecido lugar de destaque na literatura contemporânea. No entanto, deixo este aviso aos que procuram uma história romântica ou de sanguessugas “vegetarianos”: a trama de “Eu sou a Lenda” é dura. Cáustica, sem floreios. Trata de um homem amargurado, depressivo, sem esperança. Um indivíduo que, de um momento para outro vê-se travando uma luta desigual pela sobrevivência num mundo que não mais lhe pertence.

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