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A partir do Manuscrito descoberto em 1877 pelos Srs. Tonnison e Berregnog nas Ruínas que existem ao Sul da Vila de Kraighten, no Oeste da Irlanda. Aqui transcrito, com Notas.

– A Casa sobre o Abismo, William Hope Hodgson

Para alguns, um refúgio; para outros, um lar. Desde tempos remotos, o animal humano buscou proteção em ambientes capazes de isolá-lo do mundo exterior pelos mais variados motivos. No entanto, ainda que represente um local onde predadores, inimigos ou os elementos não podem alcançá-lo, as casas (em suas mais variadas formas) sempre exerceram um fascínio instigante sobre o imaginário do homem.

William Hope Hodgson

William Hope Hodgson

Essa é a motivação primária de William Hope Hodgson (Nov/1877 – Abr/1918) em seu “A Casa sobre o Abismo”, (“The House on the Borderland”, também traduzido como “A Casa no Limiar” ou “A Casa do Fim do Mundo”), ao narrar a história de um indivíduo que, junto de sua irmã e um fiel cão de estimação, passa a ocupar uma residência cercada por lendas.

O autor imprime ritmos diferentes durante a passagem dos eventos (ora acelerando, ora tornando a leitura pausada, à semelhança de um náufrago recobrando o fôlego após ser lançado ao oceano), desde a chegada dos novos ocupantes até o momento no qual ocorrem descobertas estarrecedoras acerca do que realmente se esconde sob as paredes do lugar.

As personagens vão, pouco a pouco, testemunhando fenômenos cada vez mais intrigantes; sentem-se acuadas, observadas, prisioneiras do abrigo e de uma força que está lá, nas sombras, à espreita. Hodgson trabalha os aspectos mais primitivos das mentes dos protagonistas, explorando o medo, a paranoia, a insegurança. Há uma tensão quase palpável no ambiente, como se cada um dos ocupantes da casa fosse obrigado a abrir caminho através de uma viscosa e nauseante membrana.

“De repente eu tomei consciência de que não estava mais na poltrona. Em vez disso eu parecia estar pairando acima dela, e olhando para baixo e vendo uma coisa difusa, amontoada e quieta. Logo depois um golpe frio me atingiu e eu estava lá fora na noite, flutuando, como uma bolha, pela escuridão acima. À medida que eu me movia, um frio enregelante parecia me envolver, e eu tremia.”

solar (como muitas vezes é chamado) constitui-se numa ambientação fantástica. Localizado em algum ponto no oeste da Irlanda, é construído em pedra, ornado com estátuas, símbolos e outros itens incomuns distribuídos em cômodos cuja disposição e tamanho são alterados no transcorrer da narrativa, trazendo-nos uma incômoda sensação de incerteza, pois nada permanece como é ou aparenta ser por muito tempo em seu interior.

A trama é narrada a partir das experiências do novo proprietário da casa, contadas por meio de um manuscrito encontrado por dois amigos em viagem de passeio pela região. Ao adquirir o local, ele (o “exilado”) desejava torná-lo um recanto onde poderia viver seus dias imerso em contemplação, paz e tranquilidade. Ao longo do relato, sua personalidade altera-se de forma drástica, pois o mesmo vai mergulhando numa espiral descendente rumo à loucura.

“Por um momento não soube de nada. Estava inconsciente. Gradualmente comecei a ter noção de um suave e distante lamento. Ele se tornou mais audível. Um sentimento desesperado de agonia me atingiu. Lutei loucamente para respirar e tentei gritar. Um momento depois eu tinha a respiração mais fácil e a consciência de que havia alguma coisa lambendo a minha mão. Alguma coisa úmida varria a minha face. Ouvi um manquitolar e então outra vez o lamento. Ele parecia chegar aos meus ouvidos, então, com uma sensação de familiaridade, e eu abri os meus olhos. Tudo estava escuro, mas o sentimento de opressão tinha me deixado. Eu estava sentado e alguma coisa chorava lamentosamente e me lambia. Senti-me estranhamente confuso e instintivamente tentei afastar a coisa que me lambia. Minha cabeça estava curiosamente vazia e por um momento eu pareci incapaz de agir ou pensar.”

Um dos pontos mais interessantes na obra é fugir totalmente ao “horror de monstros”, comum na época de sua publicação (1908), uma vez que as sensações, desespero e aflição tornam-se o fio condutor da história. Hodgson faz nossas as percepções do “exilado” e sua irmã acerca do meio a rodeá-los. Boa parte da narrativa é conduzida sem a aparição das entidades, assombrando o recinto. O que observamos e somos levados a sentir são as impressões dos residentes quanto àquilo fustigando-lhes desde sua chegada. Como num delírio febril, o “exilado” vivência eventos cada vez mais aterradores, convencido, em vários momentos, de que tudo se trata apenas de um sonho louco e perturbador até ser confrontado com a terrível e irrefutável verdade sobre o local.

No Brasil, “A casa sobre o Abismo” foi publicado em 1996 na coleção “Fantásticos Econômicos Newton” pela editora Newton Compton Brasil num volume de 98 páginas. O livro foi adaptado para os quadrinhos no ano 2000, para o selo “Vertigo” da editora norte-americana DC Comics, por Simon Revelstroke com as ilustrações a cargo de Richard Corben. A história, no entanto, foi “atualizada” para os anos 50 do último século, e seu fim alterado em relação ao enredo original de Hodgson. O álbum recebeu indicação na categoria Melhor Narrativa Ilustrada para o International Horror Guild Award.

“Um segundo depois um guincho alto, meio humano e meio suíno soou por entre as árvores, aparentemente pela metade do rochedo sul. Ele foi respondido por uma nota similar vinda do fundo do Abismo. Com isso Pepper deu um latido curto e, saltando por cima do rio, desapareceu entre os arbustos. Logo em seguida eu ouvi seus latidos aumentarem em intensidade e em frequência, e entremeados pelo que parecia ser o ruído de uma confusa discussão. Isso parou e no silêncio a seguir ouviu-se um grito semi-humano de agonia. Quase imediatamente, Pepper deu um longo ganido de dor e então os arbustos se agitaram violentamente e ele veio correndo com o rabo entre as pernas e olhando para trás enquanto corria. Ao me alcançar eu vi que ele estava sangrando do que parecia ser o ferimento de uma grande garra que havia quase exposto suas costelas.”

HQ - A Casa Do Fim Do Mundo -  Opera Graphica

HQ – A Casa Do Fim Do Mundo – Opera Graphica

Alguns afirmam que a trama de “The House on the Borderland” serviu de base para o roteiro de “Evil Dead” (“A morte do demônio”, 1981), além de inspirar centenas de outras produções como “House” (“A casa do Espanto”, 1986) e “House on Haunted Hill” (“A casa dos maus espíritos”, 1959).

W.H. Hodgson foi um dos precursores do gênero horror fantástico (ou cósmico). Os universos retratados em seus textos são extremamente surreais, onde a razão é questionada e (em não raras ocasiões) deteriora-se rumo à mais completa insanidade. Suas obras influenciaram autores como Clark Ashton Smith e Howard Phillips Lovecraft, bem como a dezenas de escritores modernos nos gêneros horror e weird fiction.

“A Casa sobre o Abismo” é um livro no qual tomamos contato com uma narrativa densa,  bem diferente do comum. Somos levados a discutir nossa própria realidade quando travamos contato com as experiências vividas pelo “exilado” no desenlace do relato contido nas páginas de seu legado (ou aviso?) para o mundo. Leitura obrigatória a todo fã do gênero.

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