LOADING

Type to search

A Importância Literária e Social de H.G. Wells

sergio 1 de julho de 2015
Share

HGW-2

Em uma miríade literária onde orbitam diferentes gêneros, compostos por estilos e maneirismos bem pessoais e adequados à seu tempo e conhecimento de mundo, são poucos os autores que podem se orgulhar por não apenas contribuir de maneira satisfatória para a história da literatura, mas também introduzir temas que ficariam universalmente conhecidos tanto em sua obra, quanto na produção de diversos outros escritores de grande renome. Neste segundo quesito, talvez sejam necessários menos que os dedos de uma mão para contar quantos representantes poderiam se encaixar nesse aspecto. Porém, neste grupo tão reduzido, e fundamental, para nossa cronologia literária, certamente estaria incluso Herbert George Wells (1866 – 1946). Isso pois, embora tenha sido um escritor brilhante dentro de seus próprios termos – como veremos melhor ao longo do texto -, foi ele, acima de tudo, um homem de seu tempo, e mais, sua atuação fora do universo literário tornou-o conhecido e relevante para o debate de diversos temas que seriam cruciais para a história da humanidade em um tempo subsequente.

Embora o numeroso cânone do autor trate de inúmeras questões de uma maneira mais efusiva, ou alegórica, sem dúvida o ser humano sempre foi elemento central de sua produção, mesmo que ligado de forma recorrente à aspectos intrínsecos do ambiente que o cerca. Ora, aluno da Escola Normal de Ciências de Londres, tendo sido pupilo de Thomas Henry Huxley (Pai de Aldous Huxley, autor do clássico Admirável Mundo Novo), um dos mais ferrenhos defensores da teórica de Darwin, seria inegável a presença dos conceitos de A Origem das Espécies em suas obras, além de vários outros conceitos biológicos, muito embora tratados de uma forma bastante superficial, cientificamente falando. Expoente nato da Ficção Científica do final do século XIX, tinha como maior pretensão a abordagem diferenciada de temas inseridos no gênero, e inventar coisas nunca antes pensadas – em essência, um pensamento comum aos autores do estilo, mas executado como ninguém em sua obra. Exemplo claro disso, está em A Máquina do Tempo (1895), seu livro de estréia. Na obra, é trabalhada a viagem no tempo de um viés diferente das manifestações anteriores. Ora, pela primeira vez o descolamento temporal foi direcionado à uma máquina, e não para elementos fantásticos ou oníricos. Nesse ponto, é reforçado o papel de Wells como “homem de seu tempo”, por tratar logo em seu primeiro livro do pensamento pré-vitoriano industrial em voga na época, onde a máquina representava não apenas o avanço do ser humano perante as dificuldades, mas também simbolizava a liberdade deste em relação as amarras das convenções políticas e sociais. Descolar-se na estrutura linear do tempo e espaço, simbolizava a possibilidade superior do ser humano frente ao meio, como ser dominante, e senhor dos recursos à sua volta.

Em A Guerra dos Mundos é trabalhada a arrogância da humanidade perante uma invasão alienígena.

Em A Guerra dos Mundos é trabalhada a arrogância da humanidade perante uma invasão alienígena.

Verdade que dentre sua centena de obras publicadas, a maioria ensaios e textos educacionais, poucos foram de relevância fundamental para o gênero, como: A Ilha do Doutor Moreau (1946), O Homem Invisível (1947), e A Guerra dos Mundos (1949), além do já citado acima. Porém, estas quatro obras foram tão importantes não apenas para a Ficção Científica, como para a própria literatura, que até hoje influenciam novas produções e conceitos ligados as letras. Todavia, é relevante a recorrência com que tratou de temas como a evolução, superpopulação, educação e aperfeiçoamento da humanidade. Muito embora, na grande maioria das vezes de um viés pessimista e voltado ao utópico. Fato esse, comprovado na recorrente tentativa de mudar a humanidade, ou subjugá-la, para logo depois haver um melhoramento de suas perspectivas. Não à toa, uma imensa gama de autores foram influenciados por sua produção e estilo de escrita e composição. Porém, não faltaram críticas à sua obra, em especial, direcionada ao não aprofundamento de seus conceitos, sendo sua atenção mais voltada ao desenvolvimento do conflito que nos aspectos científicos inclusos nos cenários criados. Júlio Verne, por exemplo, foi um ferrenho crítico de A Máquina do Tempo, pela superficialidade na descrição do aparato, em detrimento do avanço da trama. Ocorre que, dentro do embasamento teórico do autor, mantém-se um estilo que seria, justamente, a fonte de admiração de nomes de muita relevância para a literatura de aventura, e ficção científica nos anos posteriores. Sobre este caráter superficial do teor científico em suas obras, discorre muito bem o crítico Patrick Parrinder em prefácio à edição da Penguim do livro citado, quando diz “ele era fascinado pelos postulados teóricos e pelos horizontes imaginativos das ciências naturais, mas não tinha paciência com os detalhes práticos e das tarefas repetitivas e rotineiras do trabalho de laboratório”. Ou seja, na narração de Wells os fins da ciência são mais relevantes que os meios, de interesse apenas à quem observa com mais atenção a disciplina. Ainda sobre isso, exemplifica bem o autor Bráulio Tavares, em edição da Alfaguara, quando afirma “ A descrição também se aplica a Wells como escritor; o que o seduz na literatura não é o trabalho meticuloso da produção de uma frase perfeita, é o arrebatamento traduzido por uma ideia vivida e original”. Assim, não podemos enxergar e julgar seu estilo literário, sem perceber a prioridade conteudística ali pretendida, e de que forma ela se manifesta em sua retórica.

A humanidade sempre envolta em problemas e caos...

A humanidade sempre envolta em problemas e caos…

O fato de ser um escritor imbuído de um profundo senso social e politico apenas enriqueceu a hermenêutica de suas obras, embora tenha-o tornado também um dos autores de Ficção Científica mais próximos de políticos e Chefes de Estado de seu tempo. Defensor de conceitos socialistas, do progresso da ciência, e do direito igualitário entre homens e mulheres, foi Wells que revelou para o debate questões fundamentais para a humanidade, como a ameaça nuclear, o Estado Mundial, e a ética na manipulação de animais; isso, mantendo seu estilo narrativo, e sem perder tempo com profundidades supérfluas. Além disso, foi com Wells que vários temas antes vistos com desdém, ou tratados com veia puramente humorística, conquistaram nome e respeito no gênero, como a Invasão Alienígena, por exemplo. A verdade é que desde cedo o autor adotou uma postura voltada à mudança da humanidade, e procurou isso em suas obras, e em sua vida, como político, jornalista, professor e historiador. Tanto que, soube tornar pertinentes às discussões da época, e avançar em termos nem pensados no período, constituindo assim uma mente de pura fruição científica em termos de gênero literário.

O que se pode concluir sobre esta breve visita acerca de tão importante autor é o fato da revisita à suas obras mais clássicas constituir não apenas um mero entretenimento, mas sim, um registro vivo de como a literatura conquistou o direito de explorar temas novos, e com uma abordagem mais critica, sem recorrer para isso à excentricidade retórica. Em H.G. Wells, vislumbra-se o começo de muitas coisas que seriam demais discutidas posteriormente, mesmo dentro de um estilo e gênero diferente.

Tags:
Previous Article
Next Article