LOADING

Type to search

Share
wilson_fpaul

Francis Paul Wilson

A crença popular na qual os nazistas enveredaram-se ao culto de forças sombrias durante o último conflito mundial persiste até os dias de hoje, eternizada em filmes como “Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida” (eles tentam dominar o poder encerrado na Arca da Aliança), “Constantine” (a ponteira da Lança do Destino, artefato que supostamente foi usado para ferir Cristo durante seu martírio no Calvário, está enrolada numa bandeira ostentando a famigerada suástica nos minutos iniciais do filme) ou “Hellboy” (o anti-herói é acidentalmente trazido à Terra durante um ritual de invocação frustrado por tropas aliadas).

Centenas de teorias foram desenvolvidas, especulando como e quais seriam as entidades contatadas pelos líderes do eixo Roma-Berlim-Tóquio com o auxílio dos mais variados artefatos. No entanto, nada poderia ser tão aterrador quanto os eventos descritos por Francis Paul Wilson (Mai/1946) em seu romance “The Keep” (“O Fortim”, 1981).

O enredo acompanha a missão de um destacamento misto, composto por soldados da Wehrmacht (exército regular) e Einsatzkommandos (tropa da SS) enviados para investigar o misterioso desaparecimento do pelotão guarnecendo uma posição nos Montes Cárpatos romenos durante a primavera europeia de 1941. O que seria, a princípio, uma ação rotineira, mostra-se um encontro com o sobrenatural no interior da misteriosa fortaleza (o fortim, que dá título à história).

Edição  brasileira de 1981  (Editora Record)

Edição brasileira de 1981 (Editora Record)

Pouco depois de sua chegada, o grupo (auxiliado por um linguista e sua filha), é vítima de terríveis e inexplicáveis assassinatos. Não há violência nas mortes. Os cadáveres dos soldados não exibem marcas e/ou sinais de luta. Nada. Simplesmente é como se a força vital houvesse-lhes abandonado.

Um dos pontos interessantes na trama é o fato de que a entidade responsável pelos assassinatos não é revelada de pronto. Muitas páginas transcorrem, enquanto a “sombra” no antigo castelo vai eliminando, um a um, os invasores em seus domínios até descobrir-se sua real natureza e intenções.

Wilson conduz o leitor através de um complexo labirinto de teorias, onde somos levados a crer nas mais variadas origens para a criatura deslizando nas trevas, enquanto põe em andamento seus nefastos (e misteriosos) objetivos. Sentimos o medo, a incerteza e o horror dos ocupantes da fortaleza à medida que novos corpos sem vida são encontrados. Há a troca de acusações entre os remanescentes (Wehrmacht e SS jamais tiveram uma convivência harmoniosa) e paira uma desconfiança sobre o linguista e sua (bela) ajudante.

Após a tradução de uma mensagem escrita em sangue, num antigo dialeto romeno, parte da origem do misterioso inimigo, é revelada. O clima de paranoia é palpável. Ninguém está seguro. Mesmo soldados armados e testados em combate não são páreo para a abominação à espreita. O medo torna-se o condutor de suas reações. A qualquer instante, outro pode cair, vítima do horror oculto na fortaleza.

Edição norte-americana de 1981 (Editora Wiliam Morrow)

Edição norte-americana de 1981 (Editora Wiliam Morrow)

O autor define com clareza o caráter de seus protagonistas: há o beligerante e obstinado comandante da tropa alemã, cujos esforços estão voltados à destruição da “coisa” matando seus soldados. O linguista, que oscila entre a lealdade à filha e o dilema moral a partir do conhecimento obtido e subsequente encontro com a entidade, o amor da jovem por seu pai e como os eventos da narrativa afetam essa relação. Paul Wilson é primoroso nas descrições do estado emocional e reações das personagens ante o insólito.

Uma das melhores passagens do livro dá-se quando os sobreviventes descobrem o que a entidade faz com os cadáveres de suas vítimas. É um momento de horror puro, visceral. “O monstro” manipula todos à sua volta, sempre guiando-os à execução de sua vontade e sem realizar uma aparição completa em boa parte da história. Nota-se a influência de Robert Howard (pai do gênero Sword & Sorcery, criador de Conan, Kull, Salomão Kane, dentre outros), no desenvolvimento do enredo e na representação das cenas.

Os pontos baixos no romance ocorrem próximo ao final da história. Após a revelação da real natureza da criatura assombrando o forte (surpreendente e interessante), o autor (infelizmente) se perde, diluindo e quase abandonando o conceito original que havia norteado o volume até então.

É nítida, na obra, a dicotomia entre “luz” e “trevas”, estabelecida mesmo no grupo ocupando a fortaleza assombrada pela “coisa” desconhecida. Durante a leitura, chegamos a esquecer as atrocidades cometidas pelos nazistas nos campos de extermínio e passamos a enxergar os soldados como seres humanos lutando por suas vidas (e almas) frente ao desconhecido. Não há propaganda ideológica e/ou étnica no texto. Wilson narra eventos que poderiam ter ocorrido a qualquer grupo em momentos distintos da história humana. Assim como nas obras de Robert Howard (de quem o autor declara ser-lhe fonte de inspiração), há momentos onde a bravura e o heroísmo sobrepõem-se ao medo, bem como existem intrigas e subtramas.

Cena da adaptação cinematográfica de 1983, The Keep ("A fortaleza infernal")

Cena da adaptação cinematográfica de 1983, “The Keep” (“A fortaleza infernal”)

“O Fortim” é o primeiro volume de uma série intitulada “O Ciclo do Inimigo” (também traduzida como “O Ciclo do Adversário”) onde constam as obras: “O Fortim”, “O Sepulcro”, “O Toque Mágico”, “Renascido”, “Represália” e “Nightworld”. Foi publicada no Brasil em 1981, num volume de 355 páginas, pela editora Record. Ganhou uma reedição de 406 páginas e nova capa em 2009 pela editora Best Bolso.

HQ – The Keep – IDW Publishing

HQ – The Keep – IDW Publishing

A obra foi transposta aos quadrinhos pela editora norte-americana IDW Publishing e reunida em 2006 num álbum com 120 páginas. A revista conta com roteiro do próprio Wilson, com artes a cargo de Matthew Dow Smith. Foi produzida uma adaptação cinematográfica para o romance em 1983, sob o mesmo título. No Brasil, a película ganhou a tradução “A fortaleza infernal”.

“The Keep” é um representante do horror moderno, um volume cujas páginas vão além da fórmula “soldados versus monstros”. Esse, e os demais livros do autor, alçaram F. Paul Wilson ao status de mestre da literatura de horror contemporânea, ao lado de Stephen King, Anne Rice e muitos outros. Leitura recomendada aos apreciadores do gênero.

Tags: