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“Saiba, ó príncipe, que entre os anos nos quais os mares engoliram a Atlântida e as cidades resplandecentes, e o tempo no qual se levantaram os Filhos de Aryas, houve uma era inimaginada, quando reinos esplendorosos se espalharam pelo mundo como um manto azul sob as estrelas – Nemédia, Ophir, Britúnia, Hiperbórea; Zamora, com suas mulheres de cabelos negros e torres misteriosas assombradas por aranhas; Zingara e sua nobreza; Koth, que fazia fronteira com as terras pastoris de Shem; Stygia, com suas tumbas guardadas por sombras; Hirkânia, cujos cavaleiros vestiam aço, seda e ouro. Porém, o reino mais orgulhoso desse mundo era a Aquilônia, reinando suprema no oeste sonhador. Para cá veio Conan, o cimério de cabelos negros, olhar sombrio e espada na mão, um ladrão, saqueador e assassino, com gigantescas crises de melancolia e não menores rompantes de alegria, esmagar os tronos cravejados de jóias da Terra, sob as sandálias em seus pés”.

(Crônicas da Nemédia)

Robert E. Howard

Robert E. Howard

Com esse prelúdio, Robert Ervin Howard (Jan/1906 – Jun/1936) deu início a um universo de intrigas, mistérios e horrores inomináveis, onde guerreiros de bravura lendária cruzavam espadas com magos sombrios e exércitos cujas armaduras resplandeciam o aço de uma era, até então, desconhecida.

Howard é considerado o precursor do gênero Sword & Sorcery (Espada e Feitiçaria), no qual narrava aventuras sobre um período obscuro da história humana, a “Era Hiboriana”. De sua mente prolífica, surgiram contos sobre Kull (o rei tigre, monarca da esplendorosa Valúsia), Salomão Kane (um puritano dos sécs. XVI/XVII, caçador do mal em todas as suas formas), e o personagem através do qual seu nome persiste há décadas no imaginário de milhares de leitores ao redor do globo: Conan, o cimério.

Dono de um temperamento forte e bravura incomparável, o bárbaro enfrentou centenas de inimigos da mais variada ordem desde sua primeira aparição na novela “The Phoenix on the Sword” (“A Fênix na Espada”, 1932), onde o autor nos apresenta um Conan maduro, rei da maior nação civilizada de seu mundo, a poderosa Aquilônia. Tal foi o sucesso do novo personagem, que Robert Howard decidiu narrar eventos ocorridos em momentos esparsos da vida desse guerreiro indomável em novas e emocionantes histórias.

Mapa da era Hiboriana de Conan

Mapa da era Hiboriana de Conan

Conan, por Joe Jusko

Conan, por Joe Jusko

Pirata, mercenário, ladrão, assassino, soldado. O gigante de bronze da inóspita Ciméria encontrou desde feiticeiros malignos a déspotas ensandecidos ao longo de sua existência. Ao deixar sua terra natal ainda na adolescência (o filme “Conan, o Bárbaro”, 1982, adaptou a história original e fê-lo escravo ainda na infância) para explorar o mundo civilizado e experimentar tudo aquilo que tais lugares tinham a oferecer-lhe, Conan vislumbrou coisas com as quais a maioria dos homens poderiam, apenas, sonhar.

Uma de suas aventuras se dá na movimentada Zamora, conhecida em todo o ocidente de sua época por ser a “cidade dos ladrões”. Ao saber de uma torre cravejada de joias (cujo proprietário era um feiticeiro cercado pelas mais fantásticas lendas), onde estava encerrado um tesouro maior do que qualquer ladrão (na época, o cimério agia sob as graças de Bel, o deus-patrono dos que ganham a vida “aliviando” as bolsas dos mais abastados), um jovem Conan resolve ser o primeiro a por os pés na torre inexpugnável de Yara e sair de lá vivo, com o equivalente ao resgate de um rei.

– O segredo da Torre do Elefante? – exclamou – Ora, qualquer idiota sabe que Yara, o sumo sacerdote, mora lá com uma grande pedra preciosa chamada Coração do Elefante, que é o segredo de sua feitiçaria.
O bárbaro ficou digerindo a informação por algum tempo.
– Eu vi essa torre – disse ele – Ela fica no meio de um grande jardim a um nível acima da cidade, cercada por muros altos. Não vi nenhum guarda. Seria fácil pular o muro. Por que ninguém ainda roubou essa jóia?
O kothiano arregalou os olhos e abriu a boca, pasmo com a simplicidade do outro; em seguida caiu numa gargalhada, e os outros o acompanharam.
– Ouçam este pagão! – vociferou ele – Ele quer roubar a jóias de Yara! Ouçam, camaradas. – disse ele, voltando-se solenemente para o jovem – Suponho que você seja alguma espécie de bárbaro do Norte…
– Sou da Ciméria – respondeu o estrangeiro, num tom nada amistoso. A resposta e a maneira como ela foi dita pouco significavam para o kothiano; de um reino que ficava bem ao sul, nas fronteiras de Shem, ele só ouvia falar vagamente nas raças do norte.

Arte original de Earl Norem utilizada na capa da edição nº 11 de "A Espada Selvagem de Conan"

Arte original de Earl Norem utilizada na capa da edição nº 11 de “A Espada Selvagem de Conan”

Após breve contenda na taverna onde recebeu tal informação (o cimério, tomado pela impetuosidade de seus poucos anos, ofende os demais malfeitores no recinto), o bárbaro decide executar um plano ousado: escalar os muros cercando a torre de Yara (também conhecida como a Torre do Elefante) e invadir o local mesmo à força se preciso fosse.

Uma das muitas histórias que circulavam sobre o lugar era a de haver sido erigida numa só noite com os prodígios da mais negra magia pelo terrível feiticeiro, cuja vontade curvava o governante da metrópole a seus mais hediondos caprichos.

Ao transpor o primeiro obstáculo com relativa facilidade, ele encontra outro ladrão que havia planejado golpe semelhante: Taurus, o nemédio. Nesse ponto da narrativa, Howard descreve um Conan inconsequente, pois não havia traçado um plano ou se preparado da forma necessária para enfrentar os perigos à espreita no interior da torre. Confiando somente em sua habilidade no manejo do aço temperado, ele imaginou que Yara possuía apenas guardas humanos vigiando seus domínios.

A torre erguia-se como gelo ao encontro das estrelas. À luz do sol, reluzia de maneira tão estonteante que poucos agüentavam olhar para ela, e os homens diziam que era feita de prata. Era redonda, um cilindro delgado e perfeito, com quarenta e cinco metros de altura, e sua borda incrustada com enormes pedras preciosas brilhava à luz das estrelas. A Torre se erguia entre as exóticas árvores ondulantes de um jardim cultivado bem acima do nível geral da cidade. Um muro alto circundava esse jardim, e fora dos muros havia um nível inferior, também cercado por um muro. Nenhuma luz ardia na Torre; parecia que ela não tinha janelas, ao menos não acima da altura no muro interno. Bem mais acima, somente as pedras preciosas reluziam geladas à luz das estrelas.

O experiente ladrão da nemédia salva o protagonista de uma morte prematura e, então, ambos selam um pacto: dividiriam em partes iguais os tesouros encerrados na mítica Torre do Elefante. A partir desse momento, a aventura ganha os contornos pelos quais REH (outra alcunha do autor) é largamente conhecido. O insólito se manifesta das mais variadas formas, como a sentinela vigiando o nível superior da incrível estrutura.

Arte original de Earl Norem utilizada na capa da da edição nº 24 de "The Savage Sword of Conan"

Arte original de Earl Norem utilizada na capa da da edição nº 24 de “The Savage Sword of Conan”

Toda a narrativa é envolta num clima de mistério e apreensão, pois não conseguimos imaginar quais serão os próximos obstáculos aguardando pelo cimério em sua exploração até postar-se frente à cruenta verdade acerca dos poderes de Yara e a torre maldita no centro de Zamora.

Nesse momento, Howard mostra clara a influência do contemporâneo (e amigo) H.P. Lovecraft na construção do ente com o qual Conan se depara. O cimério dá-se conta da pequenez humana ante o cosmo e quão o “homem civilizado” é tolo, ao assoberbar-se quanto a seus feitos materiais sobre um mundo que julga de sua exclusiva propriedade.

O bárbaro do norte, então, vê-se ante um dilema complexo: caso decidisse por um dos cursos de ação apresentados, sua missão ganharia um rumo totalmente diverso ao empreendimento original. Contudo, uma das caraterísticas marcantes no personagem de Robert Howard é seu código de honra peculiar. Mesmo sendo (naquele momento) um saqueador, o gigante de bronze acaba por fazer a escolha moralmente correta.

Capa do primeiro volume da coleção "Conan, o Cimério" - ed. Conrad do Brasil (2006)

Capa do primeiro volume da coleção “Conan, o Cimério” – ed. Conrad do Brasil (2006)

“A Torre do Elefante” (“The Tower of the Elephant”, publicado originalmente na revista pulp Weird Tales, edição de março de 1933) é, sem sombra de dúvida, uma das mais perturbadoras histórias de Conan, o cimério escritas por seu criador. Alguns afirmam que a conhecida ojeriza do bárbaro por feiticeiros, magia e o sobrenatural ganhou forma definitiva após essa aventura em Zamora.

Em 1995, foi publicado no volume 1 da coleção “Conan, Espada & Magia” pelo Selo Unicórnio Azul da editora Mercuryo Ltda. O tomo possui 196 páginas e conta com as artes de Maria Amélia de Azevedo (capa) e Ed Imparato (ilustrações internas).

O conto está incluído no primeiro volume da coletânea “Conan, o Cimério”, publicado em 2006 pela editora Conrad do Brasil, com 292 páginas. A capa e ilustrações internas ficaram a cargo do artista Mark Schultz.

Além de “A Torre do Elefante”, os seguintes contos de REH figuram nesse volume: “Ciméria” (“Cimmeria”, poema); “A Fênix na Espada” (“The Phoenix on the Sword”); “A Filha do Gigante de Gelo” (“The Frost-Giant’s Daughter”); “O Deus na Urna” (“The God in the Bowl”); “A Rainha da Costa Negra” (“Queen of the Black Coast”); “Colosso Negro” (“Black Colossus”); “A Fênix na Espada” (“The Phoenix on the Sword”, primeiro esboço apresentado por Howard a seus editores na Weird Tales).

Capa da edição nº 01 de "Conan, the Barbarian Annual" (Marvel Comics, 1973)

Capa da edição nº 01 de “Conan, the Barbarian Annual” (Marvel Comics, 1973)

Foram realizadas três adaptações em quadrinhos da narrativa de Robert Howard. A primeira, em 1973, na extinta revista “Conan, the Barbarian Annual” (publicada pela editora Marvel Comics) edição nº 01, com roteiro de Roy Thomas, artes de Barry Windsor-Smith e arte-finalizada por Sal Buscema.

A segunda, em 1977, na extinta revista “The Savage Sword of Conan” (publicada pela editora Marvel Comics) edição nº 24, também com roteiro de Roy Thomas e artes dos mestres John Buscema (Dez/1927 – Fev/2002) responsável pelos desenhos e Alfredo Alcala (Ago/1925 – Abr/2000) com a arte-final.

Capa da edição nº 24 de "The Savage Sword of Conan" (Marvel Comics, 1977)

Capa da edição nº 24 de “The Savage Sword of Conan” (Marvel Comics, 1977)

A terceira, publicada pela editora Dark Horse Comics em três partes (2005), na revista “Conan”, edições nºs 20 a 22, com roteiro de Kurt Busiek (edições 20 a 22) e arte ao encargo de Cary Nord (edições 20 a 22) e Michael Kaluta (edição 22). Essa versão foi trazida a nós pela Mythos Editora (2005/2006). Também fez parte do mix de aventuras da edição nº 11 da extinta “A Espada Selvagem de Conan” (editora Abril, 1985). Uma curiosidade interessante é a de que a capa utilizada na ed. 11 da ESC, no Brasil, foi a da ed. 38 de SSC (1979).

Capa da edição nº 11 de “A Espada Selvagem de Conan” (ed. Abril, 1985)

Capa da edição nº 11 de “A Espada Selvagem de Conan” (ed. Abril, 1985)

Robert Howard nos trouxe um universo rico, onde fantásticas aventuras são narradas acerca de magos, guerreiros e mistérios ocultos, onde criaturas abissais e deuses esquecidos podem surgir a qualquer momento; uma época na qual a mais bela cortesã de Ophir pode ser uma entidade sedenta pelo sangue (e alma) dos incautos o bastante para atirarem-se em seus braços numa noite de luxúria.

Esse é o universo onde “A Torre do Elefante” é ambientado. Um mundo onde intrigas, guerras e o insólito aguardam todo aquele que se aventurar por suas páginas repletas de perigos. REH influencia, até os dias de hoje, muitos escritores desse e de outros gêneros (inclusive a Rochett Tavares, o autor desse artigo).

E, após redigir essa homenagem a Robert Howard e sua obra, posso dizer que, pelas barbas de Crom, fiquei com vontade de tomar umas boas canecas de vinho kothiano numa taverna próxima ao mercado, em Shadizar.

Capas das edições 20 a 22 da revista Conan, publicada pela editora Dark Horse Comics

Capas das edições 20 a 22 da revista Conan, publicada pela editora Dark Horse Comics

Capa da edição nº 38 de “The Savage Sword of Conan” (Marvel Comics, 1979)

Capa da edição nº 38 de “The Savage Sword of Conan” (Marvel Comics, 1979)

Créditos:

A tradução completa de “The Tower of the Elephant” (“A Torre do Elefante”) pode ser encontrada no link: Crônicas da Ciméria – A Torre do Elefante

Os trechos inseridos nesse artigo foram extraídos da tradução citada acima e são de responsabilidade de seus autores.

Trilha sonora: Prologue/Anvil of Crom (faixa integrante da trilha sonora do filme “Conan, the barbarian”, 1982, por Basil Poledouris).

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