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A Máquina do Tempo

sergio 8 de julho de 2015
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A máquina do tempoPublicado em 1895 sob um efervescente cenário literário de fins de século XIX, A Máquina do Tempo, obra de estréia do jornalista H.G. Wells surgiu no meio, orbitando entre a Ficção Científica e os famosos romances de aventura, estabelecendo novos conceitos, ideais e formas de abrangência no modo do fazer artístico das letras na época. Sucesso imediato no Reino Unido, o livro despertou paixões, e opositores, justamente por se atrever a inovar tanto em linguagem quanto em forma de composição em seus temas. No entanto, não restam dúvidas quanto a importância do livro na criação de um sub-gênero dentro de seu próprio estilo, no caso, o dos enredos baseados em viagens no tempo. Até então retratado por um viés essencialmente fantasioso – ocasionado por sonhos, loucura, porção mágica, hibernação, dentre outros aspectos da fantasia clássica -, agora seria por meio de uma máquina que o ser humano poderia romper a barreira do tempo, e rememorar seu passado, e descobrir as evoluções do futuro. Vale dizer que a inclusão deste recurso na trama não foi gratuita. Wells foi um autor fruto de seu tempo e espaço, transmitindo muitos dos sentimentos e mudanças da época em seus livros. Desta forma, nada mais óbvio que a inclusão de um recurso mecânico para transpor uma dificuldade imaginária do ser humano; pelo menos, supostamente. Isso pois, o fim do século XIX viveu um período de avanços científicos e tecnológicos relevantes, as invenções aplicadas ao favorecimento do homem sobre o meio concediam à ele uma forte sensação de liberdade, domínio do ambiente, predomínio definitivo sobre a própria vida, e os caminhos que poderia tomar nela. E é justamente esse conceito o mais trabalhado pelo autor neste seu primeiro livro.

Em suma, o enredo trata da história de um cientista inglês que, ao formular uma teoria responsável por denominar a passagem temporal como uma quarta dimensão da estrutura física de nosso mundo – sendo a altura, largura e profundidade as outras – ele poderia por meio de uma máquina que rompesse essa linha temporal linear, viajar no tempo, e vislumbrar as maravilhas do futuro. De posse desse conhecimento, ele constrói o artefato e, para embasar suas descobertas convida alguns importantes visitantes à sua casa, afim de fazer uma pequena demonstração de um protótipo da máquina. Tendo despertado o interesse do personagem narrador, este volta com outras pessoas no dia seguinte à casa do cientista, onde presencia uma suposta vinda dele do futuro. Intrigados com o estranho comportamento e aparência de seu anfitrião, o grupo pode, finalmente, ouvir o relato surpreendente das aventuras vividas por ele em um futuro distante, e bem diferente do presente, e daquele imaginado pelos mais entusiastas de sua época.

Viajante no tempo em adaptação para o cinema de 1960

Viajante no tempo em adaptação para o cinema de 1960

Analisando a forma como se desenvolve a narrativa de Wells no livro, não restam duvidas quanto a real importância de seu desenvolvimento narrativo. Pois, embora a descrição do ambiente onde o cientista chegou no futuro, no ano de 802.701 d.c. seja de uma inventividade surpreendente, e reveladora mesmo para a expectativa mais inventiva do leitor, é em sua análise sócio-cultural que está a maior riqueza de sua trama lírica. Ao contemplar um mundo em ruínas, resquícios de uma civilização grandiosa, que deixou como legado apenas escombros arquitetônicos, e a presença neste mundo de apenas dois povos deformados cognitiva e socialmente, o autor – por meio de seu personagem – promove uma análise direta dos modos vigentes na sociedade inglesa da época (baseado em um eurocentrismo evidente), compondo, assim, uma visão bastante negativista do desenvolvimento humano, mesmo dentro das melhores perspectivas. Entenda, no futuro o viajante no tempo se depara com um ambiente habitado por duas raças, supostamente, originadas do ser humano: o Elois, que vivem na superfície isentos de pragas ou sofrimento, mas que apresentam um desenvolvimento mental e físico bastante limitado; e os Morlocks, seres do subterrâneo que regrediram à um estado quase bestial. Tendo nestas duas antagônicas especies conceitos distintos de comportamento e desenvolvimento social, o autor divaga em sua análise sobre como elas seriam um fruto direto da própria sociedade vigente em sua época, distinta entre burguesia (Elois) e proletariado (Morlocks), embasando sua teorias sobre levantamentos acerca de um futuro onde a ausência de perigos pudesse regredir as capacidades do ser humano, no caso dos primeiros, ou torná-los mais primitivos, no segundo.  Nisso, o autor manteve uma coerência negativista quanto ao futuro da raça humana, que viria à ser apresentado em suas obras posteriores de maneira mais trabalhada.

Morlocks da primeira adaptação para o cinema da obra, de George Pal

Morlocks da primeira adaptação para o cinema da obra, de George Pal

Desde a publicação do livro houve críticas relacionadas à ele, inclusive de nomes famosos como Júlio Verne, sobre a natureza superficial do enredo de Wells. Para alguns, sua literatura não era nem tão embasada para ser enquadrada no gênero Ficção Científica, nem fluente à ponto da classificação como romance de aventura. Porém, vista hoje de um viés mais distante e teórico, esse desajustamento se deu em suma por estar ela entre estes dois estilos sem, no entanto, se aprofundar demais em nenhum deles. Porém, não entenda nisso um favorecimento à uma suposta pobreza artística da obra, pelo contrário, sua riqueza reside justamente na forma de sua estrutura literária. A visão do leitor sobre aquele mundo decadente, e inocente em suas formas e sentimentos, estabelece uma relação empática tão forte que é capaz de causar uma imersão irremediável no leitor, fazendo-o crer no ambiente, e em sua tecnologia de viagem no tempo, em precisão pela valorização não da ciência aplicada, mas da relação humana do viajante com o meio, no presente e futuro. E mais, a posterior viagem dele à um tempo ainda mais distante, chegando aos confins da existência da Terra, revela a aceitação de teorias bastante vigentes na época que afirmavam ser a aproximação do Sol o fim iminente de nosso planeta. Por outro lado, as aventuras do viajando naquele local distante, nas proximidades do Tâmisa, na Inglaterra, revelam uma aceitação clara aos conceitos de Darwin sobre a adequação ao ambiente do ser predominante, e o domínio do forte sobre o fraco, no caso, direcionado a relação entre Elois e Morlocks.

Viajante no tempo em adaptação baseada no livro de 2002

Viajante no tempo em adaptação baseada no livro de 2002

A Máquina do Tempo constitui um marco não apenas para a Ficção Científica, mas para a própria literatura universal. Embora visto com um olhar ingênuo até mesmo pelo autor – como denuncia prefácio de uma edição comemorativa publicada ainda em 1935 -, seu enredo mergulha em uma série de conceitos sobre o ser humano que, se não promovem um debate profundo sobre eles, desperta a curiosidade crítica de quem lê, e por isso tornou-se base para uma série de outras obras posteriormente, inclusive de Isaac Asimov, que soube como ninguém embasar cientificamente seus escritos. Desta forma, é como se Wells concedesse ao leitor apenas a base de um novo mundo, permitindo à este o complemento indistinto e material das lacunas existentes em sua trama, aceitando voluntariamente um parceiro de escrita, trazendo para dentro da própria descrição quem apenas deveria vislumbrar aquele enredo. Certo, isso pode ter sido involuntário, como provavelmente foi, baseado em palavras do próprio autor sobre o desenvolvimento de sua história. Mas, como visto em suas obras seguintes, Wells era bastante confiante em seu estilo, e sabia não apenas envolver quem lê por meio de uma narração fluente e imersiva, mas criar ambientes encantadores, e ao mesmo tempo, capazes de intrigar a leitura crítica de seus conceitos apresentados.

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