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Como pode o verme ser o herdeiro das maravilhas de um olho ou de um cérebro? Era o que eu pensava enquanto me debruçava, com um misto de nojo e fascínio, sobre os corpos em decomposição no laboratório. Nenhum prazer da juventude me deixaria tão realizado quanto a tarefa a que eu me entregara.

Mary Wollstonecraft Shelley

Mary Wollstonecraft Shelley

Um dos maiores questionamentos que assombram a mente do animal humano desde sua aurora enquanto ser racional é, sem dúvida, a morte. Desde clãs nômades vagando de um lado a outro (e além) de continentes, à civilização capaz de desvendar os segredos do átomo e perscrutar as estrelas, sempre houve uma preocupação do homem acerca dos mistérios envolvendo o “além-túmulo” e a possibilidade para encontrar-se um meio de sobrepujar o fim da existência ou mesmo criar a vida.

Mary Wollstonecraft Shelley (Ago/1797 – Fev/1851) nos leva a essas (e muitas outras) indagações no romance publicado em 1818, em cujas páginas era narrado o suplício de um jovem estudante de medicina suíço como resultado por levar a cabo experimentos sobre reanimação de cadáveres e vida artificial.

A autora descreve as etapas da pesquisa de Victor Frankenstein com detalhes aterrorizantes. As dissecações, o estudo das articulações e nervos e de sua obsessão febril em dobrar a única força contra a qual o ser humano não tinha (e ainda não possui) domínio. No período onde a obra foi redigida, a ciência começava a avançar além dos limites impostos pelos dogmas e tradicionalismo ainda presentes na sociedade ocidental.

Sabia que esta era uma pergunta ousada — e que os grandes cientistas talvez tivessem preferido conservar como um mistério. Mas quantas perguntas não estaríamos a ponto de responder se a covardia ou a preguiça não restringisse nossas investigações?
Concluí que, para descobrir as causas da vida, temos de recorrer à morte. Eu precisaria entender por que o corpo humano envelhece, decai e finalmente se degrada com a morte.

Victor acaba por elaborar um plano ousado a partir de suas teorias nada ortodoxas, seguindo com seu trabalho em segredo. Isolando-se cada vez mais da família e do lar amoroso onde crescera, o jovem dá continuidade a seus esforços para dobrar os segredos da existência.

Violando túmulos para furtar órgãos, tecidos e membros, Frankenstein abandona a humanidade em sua busca para criar algo a partir dela. Seus pares não significam nada além de “peças” com as quais ele poderia finalizar seu ambicioso (e nefasto) projeto.

Volume I da primeira edição de Frankenstein (não creditado à autora)

Volume I da primeira edição de Frankenstein (não creditado à autora)

Mary aborda o uso de partes de corpos para o enxerto em organismos vivos. Tal conceito, dois séculos atrás, era totalmente absurdo. Hoje, são realizados transplantes de órgãos retirados de indivíduos com morte cerebral declarada (ou conscientes, como no caso de rim, fígado, medula), em pessoas que dependem deles para seguir com suas vidas.

Após obter êxito em criar um ser autônomo, a partir da aplicação dos princípios do galvanismo, bioquímica (uma ciência ainda em sua infância nesse momento) e medicina, Victor é tomado por uma sensação de desespero e culpa terríveis pois, ao vislumbrar o produto de sua pesquisa; passa a considerar-se um herege, pai de um ser monstruoso, um arremedo desagradável de vida que não deveria existir nem nos piores pesadelos de um homem ensandecido.

Tomado por uma culpa avassaladora, o protagonista abandona sua pavorosa criação, deixando-o à própria sorte no laboratório. O ser consegue escapar e se perde nas ruas da metrópole na qual houvera “nascido”.

Capa de "Frankenstein, Drácula, o Médico e o Monstro” (ed. Ediouro, 2002)

Capa de “Frankenstein, Drácula, o Médico e o Monstro” (ed. Ediouro, 2002)

Victor, por sua vez, retoma o curso de sua vida, imaginando que a aberração (no livro, o indivíduo engendrado por Frankenstein não possui um nome. As referências a ele sempre o tratam como “monstro”, “coisa”, “ser”, “criatura”, “maldito”, “infeliz”, “miserável” e outras alcunhas pejorativas) inexoravelmente viria a falecer, pois sua mente estava tão vazia quanto a de um recém-nascido e incapaz de defendê-lo dos rigores de um mundo inóspito e desconhecido.

Um aspecto interessante da narrativa é que Victor Frankenstein desumaniza o ser produzido por sua obsessão, como numa tentativa de torna-lo um objeto, um experimento fracassado e, assim, eximir-se da responsabilidade por haver trazido uma “cria” ao mundo. No momento onde “desiste” de seu “filho”, o estudante comete um “aborto” intelectual pois, assim, a massa de carne e sangue animada, viva, diante de si era-lhe, apenas, um amontoado de matéria revivida por meio da ciência e não um indivíduo.

No entanto, algo no espírito de Frankenstein havia mudado. Ele tentava, ao máximo, sufocar a culpa, o horror, a apreensão por haver trazido ao mundo um ente (em sua opinião) tão terrível quanto o ser gestado no útero de ferro em seu laboratório.

Frankenstein, por Bernie Wrightson

Frankenstein, por Bernie Wrightson

Outro questionamento interessante na obra é o de se o “monstro” possuiria ou não, uma alma. Enquanto um indivíduo capaz de pensar, sentir e entender o meio a cercá-lo, poderia a abominação de Victor ser considerada um ser humano e, portanto, dotada de um espírito? O indivíduo criado pelo jovem estudante seria, de certa forma, um ancestral da clonagem. Pois o que é um clone se não a tentativa de se replicar um ser vivo a partir das células (partes) de outro? Essa duplicata possuiria ou não uma alma, já que seria dotado de intelecto, emoções e tudo aquilo que nos torna humanos?

Frontispício de Theodor von Holst para uma edição inglesa de "Frankenstein", publicada pela editora Colburn and Bentley em 1831

Frontispício de Theodor von Holst para uma edição inglesa de “Frankenstein”, publicada pela editora Colburn and Bentley em 1831

Até determinado momento da trama, a criatura é apenas um ser tentando compreender o mundo e as sensações trazidas à sua mente por sentidos e emoções que não conhece por completo. É um elemento único, um prodígio da ciência perdido num oceano de indagações que seu intelecto infantil (no começo de sua vida, o monstro era como qualquer recém-nascido e foi amadurecendo ao longo da trama) não era capaz de responder.

Desde o princípio, a criatura é rechaçada por toda e qualquer pessoa que tenha visto sua real (e monstruosa) aparência. Shelley trabalha com o preconceito e a hipocrisia humana em relação ao que lhe é diferente e/ou desconhecido questionando os limites da ética e moral de nossa sociedade no enredo quando a personagem é julgada por suas deformações e não por seus atos.

homem artificial de Victor Frankenstein sentiu medo, fome e todas as demais emoções primitivas comuns à humanidade nos meses iniciais de sua existência. As reações dele são apenas efeito da causalidade. Ele é como uma força da natureza. Não faz algo bom ou mal de forma arbitrária. Apenas executa o necessário para garantir a sobrevivência.

Embora eu possuísse a capacidade de dar vida à matéria morta, o trabalho de preparar uma estrutura para recebê-la, com seu intrincado complexo de fibras, músculos e veias, parecia de uma magnitude e dificuldade inconcebíveis.
Duvidei, a princípio, se deveria atrever-me a criar um ser à minha semelhança ou se deveria limitar-me a algo mais simples, como um gato ou um cão. Mas estava excitado demais para me permitir dar vida a um animal menos complexo e maravilhoso do que o homem.

Pode-se comparar esse curto período de sua vida à ignorância bíblica de Adão e Eva, pois a criatura era um ser inocente de sua condição (pseudo)humana e, desse modo, sem responsabilidade por seus atos. Quando finalmente toma consciência de sua terrível natureza, ele vai de uma pureza quase animal à mais do que humana perversidade.

A partir desse ponto, o outrora puro indivíduo passa a manifestar as mais terríveis paixões da espécie a partir da qual fora engendrado. Victor e seu filho passam a um jogo complexo, onde o ser o fere das mais terríveis e variadas formas, numa tentativa de vingar-se do abandono, da dor e de estar condenado a vagar como o único de sua raça em todo o mundo.

Um fato interessante sobre a obra “Frankenstein: or the Modern Prometheus” (“Frankenstein ou o Prometeu Moderno”, também conhecida apenas por “Frankenstein”) foi o de ter a publicação original (1818) em três volumes, sem o crédito à autora. Somente a partir da segunda edição (1823) passou a ser incluído o nome de Mary Shelley. Uma terceira edição (1831), tornou-se a base para as publicações futuras desse clássico da literatura de FC e horror.

Página da graphic novel "Frankenstein", por Bernie Wrightson

Página da graphic novel “Frankenstein”, por Bernie Wrightson

Anúncio para o filme "Frankenstein", 1910

Anúncio para o filme “Frankenstein”, 1910

Segundo a própria Mary, o enredo surgiu durante uma viagem no verão de 1816. Ela, o futuro esposo – Percy Bysshe Shelley (Ago/1792 – Jul/1822), Lorde Byron (Jan/1788 – Abr/1824) e outros convidados desafiaram-se numa competição intelectual para decidir qual deles criaria a mais terrível e assustadora narrativa de horror. Mary foi a única que não conseguiu produzir durante o concurso. No entanto, dias depois, foi acometida de um pesadelo, onde um jovem médico violava túmulos com o objetivo de utilizar partes dos cadáveres em suas experiências na busca por desvendar os segredos da vida (e morte).

Percy encorajou-a a desenvolver a história e torná-la um romance, dado o potencial observado nas ideias de sua, então, noiva. Mary Wollstonecraft pôs-se a trabalhar o enredo (com o auxílio de Bysshe) e trouxe ao mundo aquela considerada por muitos a primeira narrativa de ficção científica da literatura. Dentre as várias influências da autora, destacam-se a obra “Paradise Lost” (“Paraíso Perdido”, 1667) de John Milton e “The Rime of the Ancient Mariner” (“A Balada do Velho Marinheiro”, 1797) de Samuel Taylor Coleridge.

Peça promocional do filme "Frankenstein", 1931

Peça promocional do filme “Frankenstein”, 1931

Foram realizadas diversas adaptações cinematográficas do texto de Shelley. Dentre as mais notáveis, estão: “Frankenstein” (“Frankenstein”, 1910), produzida por Thomas Edison. A versão da criatura representada nesse filme cunhou a imagem do homem artificial de Victor Frankenstein na cultura pop durante as décadas seguintes. Em 1931, Boris Karloff (Nov/1887 – Fev/1969, eternizado pelo papel) encarna o monstro criado no século XIX por Mary Shelley num filme dirigido por James Whale (Jul/1889 – Mai/1957), com o mesmo título do original.

Poster do filme "Frankenstein meets the Wolf Man, 1943

Poster do filme “Frankenstein meets the Wolf Man, 1943

Bela Lugosi (Out/1882 – Ago/1956) interpretou a personagem de Shelley na película “Frankenstein meets the Wolf Man” (“Frankenstein encontra o Lobisomem”, 1943), dirigido por Roy William Neill (Set/1887 – Dez/1946).

“Frankenstein must be Destroyed” (“Frankenstein deve ser Destruído”, 1969), dirigido por Terence Fisher (Fev/1904 – Jun/1980), foi estrelado por Peter Cushing (Mai/1913 – Ago/1994) no papel de Victor Frankenstein.

Kenneth Branagh dirigiu, nos anos 90, a adaptação “Mary Shelley’s Frankenstein” (“Frankenstein de Mary Shelley”, 1994) com Robert De Niro no papel do monstro criado pela autora. A crítica especializada aponta essa como a representação cinematográfica mais próxima da obra original já realizada.

Poster do filme Van Helsing, 2004

Poster do filme Van Helsing, 2004

A Criatura também aparece no filme “Van Helsing” (“Van Helsing”, 2004), interpretado por Shuler Hensley (Mar/1967) e dirigido por Stephen Sommers (Mar/1962). Seu papel nessa adaptação rendeu fama internacional ao ator e traz um indivíduo com visual bem diferente do livro de Shelley e das adaptações anteriores.

Capa da edição nº 7 de "The Silver Surfer" (Marvel Comics, 1969)

Capa da edição nº 7 de “The Silver Surfer” (Marvel Comics, 1969)

No Brasil, foi publicado por diversas editoras, destacando-se os volumes: “FRANKENSTEIN – Contado por Ruy Castro” (136 páginas, Selo Seguinte da editora Cia. Das Letras, 1994), com Ilustrações internas a cargo de Odilon Moraes, capa de Silvia Massaro e tradução de Ruy Castro.   “Frankenstein” (122 páginas, “Coleção Clássicos de Bolso”, editora Ediouro, 1988), com tradução de Éverton Ralph e “Frankenstein, Drácula, o Médico e o Monstro”, prefaciado por Stephen King (700 páginas, editora Ediouro, 2002), traduzido por Adriana Lisboa.

Capa da edição nº 93 de "Weird War Tales" (DC Comics, 1980)

Capa da edição nº 93 de “Weird War Tales” (DC Comics, 1980)

A criação de Mary Shelley também foi transposta para os quadrinhos.  Sua primeira aparição na editora norte-americana Marvel Comics ocorreu na edição nº 7 da revista “The Silver Surfer” (“O Surfista Prateado”, 1969). Nos anos 70, ganhou um título próprio nomeado “The Monster of Frankenstein” (“O Monstro de Frankenstein”, 1973/75), onde o monstro possui visual largamente inspirado nas películas de 1910/1931.

Na editora DC Comics, sua representação mais célebre foi na extinta publicação “Weird War Tales” (“Contos Bizarros de Guerra”, 1980), onde atuava ao lado do “Creature Commandos” (“Comando Criatura”), uma unidade formada por monstros clássicos da literatura reunidos para combater os nazistas durante a segunda guerra mundial.

Peça promocional do filme “Frankenstein must be Destroyed”, 1969

Peça promocional do filme “Frankenstein must be Destroyed”, 1969

Também foi adaptada na graphic novel “Frankenstein” pelo artista norte-americano Bernie Wrightson (Marvel Comics, 1983). Ganhou republicação em 2008 (comemorando o 25º aniversário do lançamento original) pela editora Dark Horse Comics. O trabalho foi publicado no Brasil pela Mythos Editora (2004).

“Frankenstein ou o Prometeu Moderno” é um clássico atemporal. A autora mescla ficção científica e horror numa obra que nos leva a questionamentos filosóficos acerca do existir, da ética e moralidade. É uma trama onde a culpa e o peso de seus atos assombram as personagens até o desfecho. Obra que não pode faltar na biblioteca dos fãs de horror (e de FC).

Quadro extraído da graphic novel “Frankenstein”, por Bernie Wrightson

Quadro extraído da graphic novel “Frankenstein”, por Bernie Wrightson

Capa da edição nº 01 de “The Monster of Frankenstein” (editora Marvel Comics, 1973)

Capa da edição nº 01 de “The Monster of Frankenstein” (editora Marvel Comics, 1973)

Créditos:

Os trechos do livro “Frankenstein: or the Modern Prometheus” (“Frankenstein ou o Prometeu Moderno”) inseridos nesse artigo foram extraídos da tradução de Ruy Castro publicada na obra “FRANKENSTEIN – Contado por Ruy Castro” (editora Cia. Das Letras, 1994) e são de inteira responsabilidade de seus autores.

Trilha sonora: “To Think of a Story” (faixa integrante da trilha sonora do filme “Mary Shelley’s Frankenstein”, 1994, por Patrick Doyle).

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