LOADING

Type to search

Share

Ghost Rider

An old cowboy went ridin’ out one dark and windy day
Upon a ridge he rested as he went along his way
When all at once a mighty herd of red eyed cows he saw
A-plowin’ through the ragged skies, and up a cloudy draw
Their brands were still on fire and their hooves were made of steel
Their horns were black and shiny and their hot breath he could feel

Stan Jones

Com esses versos, Stan Jones (Jun/1914 – Dez/1963) dá início a uma das mais perturbadoras composições no cenário musical de seu tempo. A letra narra o encontro de um cowboy com aparições fantasmagóricas após um extenuante dia de trabalho.

Mesmo sendo derivada de uma cultura bastante diversa à nossa, a história contada por Jones assemelha-se, em muito, às lendas e “causos” que sempre ouvimos quando viajamos pelo interior do Brasil.

Cartaz promocional de "Riders in the Sky", 1949

Cartaz promocional de “Riders in the Sky”, 1949

Quem, por exemplo, jamais ouviu falar da “noiva da porteira”, uma jovem abandonada no altar que, após o suicídio aparecia no antigo local de encontro entre ela e o noivo ou da famosa “virgem do cemitério”, uma moça bonita, educada e dotada de um encanto irresistível que surge em festas, dança a noite inteira e, quando é procurada por algum interesse romântico no dia seguinte, seu par descobre tratar-se de uma jovem falecida há muito?

“Riders in the Sky” (“Cavaleiros no Céu”, 1948, título original da música de Stan Jones) gravada por Burl Ives (Jun/1909 – Abr/1995) em 1949, versa sobre uma dessas lendas. O homem, após o trabalho, decide descansar numa colina e, das nuvens escuras que encobriram o sol por todo aquele dia, surge nos céus uma boiada fantasmagórica, na qual o gado soltava um rastro de chamas com seus cascos de ferro faiscando no céu do anoitecer.

Petrificado por essa visão, o cowboy assiste a passagem dos espectros, seguidos por um grupo de aparições cavalgando montarias esqueléticas, cujas narinas soltavam fogo e riscavam o ar como relâmpagos. Por mais que elas corressem, jamais conseguiam alcançar a manada.

A bolt of fear went through him as they thundered through the sky
For he saw the riders commin’ hard, and he heard their mournful cry

Yippie-yi-ohhh, yippie-ya-yaaay
Ghost riders in the sky

Their faces gaunt, their eyes were blurred, their shirts all soaked with sweat
He’s ridin’ hard to catch that herd, but he ain’t caught’em yet
‘Cause they’ve got to ride forever on that range up in the sky,
On horses snorting fire, as they ride on hear their cry.

Burl Ives

Burl Ives

Um dos momentos mais interessantes na composição, é quando o aterrorizado vaqueiro ouve alguém chamar seu nome em meio àquele cenário. Um dos cavaleiros deixa-lhe um ultimato: caso ele não melhorasse seu jeito de ser, acabaria condenado a vagar com eles pela eternidade, caçando (sem jamais poder cumprir a missão e, com isso, conseguir a paz eterna), o rebanho do diabo através do céu infinito.

Essa seria a moral da história, uma espécie de lição dada pelo autor aos ouvintes de sua música, tornando-a, de certa forma, semelhante à narrativa “Um conto de natal” (“A Christmas Carol”, 1843) de Charles Dickens (Fev/1812 – Jun/1870), onde um idoso abastado, conhecido por sua avareza e por explorar seus empregados é visitado por três espíritos a fim de reavaliar sua vida e atitudes. Em contraponto à história desenvolvida por Dickens, o desfecho não fala se o cowboy decide ou não aceitar o conselho da aparição.

Johnny Cash

Johnny Cash

A música original de Jones foi regravada inúmeras vezes e, além do estilo country (o equivalente ao nosso sertanejo), também ganhou adaptações para o rock´n roll. Bandas como The Outlaws e Spider Bait cantaram suas versões de “(Ghost) Riders in the Sky”. Uma das mais conhecidas é a do cantor norte-americano Johnny Cash (Fev/1932 – Set/2013), gravada no álbum “Silver” (1979). No filme “Blue Brothers 2000” (“Os Irmãos Cara-de-Pau 2000”, 1998), dirigido por John Landis (Ago/1950) John Goodman (Jun/1952) e Dan Aykroyd (Jul/1952) interpretam a canção de improviso numa feira rural. Essa é, sem sombra de dúvida, uma das mais interessantes adaptações já produzidas para essa música. Um detalhe interessante é o compasso da melodia original ser muito semelhante ao da canção militar “When Johnny comes marching home” (1863).

“Riders in the Sky” também foi gravada por artistas brasileiros. A versão em português (uma adaptação com muitas diferenças em relação à letra original), por Carlos Gonzaga (Fev/1924) e Milton Nascimento (Out/1942), com o título de “Cavaleiros do Céu” fez parte do álbum “Caçador de Mim” (1981).

Yippie-yi-ohhh (yippie-yi-ohhh), yippie-ya-yaaay (yippie-ya-yaaay)
Ghost riders in the sky

As the riders loped on by him, he heard one call his name
If you want to save your soul from hell a-ridin’ on our range,
Then cowboy change your ways today or with us you will ride,
Tryin’ to catch the devil’s herd, across these endless skies

Yippie-ya-ohhh (yippie-ya-ohhh), yippie-ya-yaaay (yippie-ya-yaaay)
Ghost riders in the sky

Capa da edição nº 11 da revista "Tim Holt" (Maganize Enterprises, 1949)

Capa da edição nº 11 da revista “Tim Holt” (Maganize Enterprises, 1949)

A lenda que inspirou a música, também ganhou representação nos quadrinhos. A primeira aparição de “Ghost Rider” ocorreu na edição nº 11 da revista “Tim Holt” (Magazine Enterprises , 1949), criado pelo roteirista Ray Krank, com desenhos de Dick Ayers (Abr/1924 – Mai/2014). Em 1950, o personagem ganha publicação em título próprio pela mesma editora. O sucesso de revistas do gênero Western foi o ponto crucial à produção das aventuras de Rex Fury em sua luta pela justiça no oeste bravio.

No Brasil, a editora La Selva lançou, em 1953, o título “Cavaleiro Fantasma”, narrando as aventuras de um herói mascarado (claramente inspirado em seus equivalentes da época) para impor a lei e ordem numa época onde os homens de bem eram constantemente assediados por bandoleiros e malfeitores.

Capa da edição nº 1 da revista "The Ghost Rider" (Magazine Enterprises, 1950)

Capa da edição nº 1 da revista “The Ghost Rider” (Magazine Enterprises, 1950)

Após os direitos sobre o nome “Ghost Rider” deixarem de pertencer à Magazine Enterprises, a editora norte-americana Marvel Comics estreou, em 1967, um título onde “O Cavaleiro Fantasma” retornava para combater a injustiça mais uma vez. A identidade civil dessa encarnação do justiceiro era, agora, Carter Slade, acompanhado pelo fiel cavalo Banshee. O roteiro estava à cargo de Gary Friedrich (Ago/1943) e arte do próprio Dick Ayers. Uma curiosidade: apenas depois da morte de Slade, em “Ghost Rider” nº 07 (Marvel Comics, 1967) essa versão passa a ser chamada “Phantom Rider”.

Capa da edição nº 19 da revista "O Cavaleiro Fantasma" (ed. La Selva, 1954)

Capa da edição nº 19 da revista “O Cavaleiro Fantasma” (ed. La Selva, 1954)

Nos anos 70, uma nova adaptação do personagem estréia nas páginas da edição nº 5 de “Marvel Spotlight” (Marvel Comics, 1972) ganhando, pouco tempo depois, o título próprio “Ghost Rider” (Marvel Comics, 1973), conhecido no Brasil como “Motoqueiro Fantasma”, com roteiro de Gary Friedrich e arte de Gil Kane (Abr/1926 – Jan/2000), na qual Johnny Blaze era acometido por uma terrível maldição e forçado a carregar, dentro de si, o demônio Zarathos, o Espírito da Vingança. O cavalo Espectro (versão de 1950) foi substituído por uma possante moto customizada que também sofria transformação semelhante à de seu proprietário. Essa é, provavelmente, a versão mais popular do “Cavaleiro Fantasma”. Além de Blaze, Danny Ketch e Alejandra Jones carregaram o fardo de ser o Cavaleiro. Na versão mais atual, Robbie Reyes dirige um carro clássico no estilo da época na qual o “novo” “Cavaleiro Fantasma” ganhou vida, substituindo a motocicleta habitual aos Riders.

Capa da edição nº 1 da revista "The Ghost Rider" (Marvel Comics, 1967)

Capa da edição nº 1 da revista “The Ghost Rider” (Marvel Comics, 1967)

Um detalhe interessante é o de que, até Johnny Blaze, o sobrenatural não era parte crucial na origem do Cavaleiro. Rex Fury e Carter Slade eram homens comuns, que enfrentavam o mal com o auxílio de suas habilidades e um senso de justiça além do comum. “Ghost Rider” é atualmente publicado no Brasil pela editora Panini.

Capa da edição nº 1 da revista “Ghost Rider” (Marvel Comics, 1973)

Capa da edição nº 1 da revista “Ghost Rider” (Marvel Comics, 1973)

No cinema, a adaptação da letra de Stan Jones (arranjos realizados pelo grupo Spider Bait) fez parte da trilha sonora do filme “Ghost Rider” (2007), dirigido por Mark Steven Johnson (Out/1964), estrelado por Nicolas Cage (Jan/1964) no papel de Johnny Blaze e Sam Pack Elliot (Ago/1944) interpretando o antigo “Cavaleiro Fantasma”. A produção do longa imprimiu um tom western ao enredo, o que gerou uma cena dramática próximo ao final da aventura no estilo dos antigos filmes de cowboy dos anos 50 (Carter Slade despede-se de Johnny Blaze ao chegarem em seu destino final).

Uma continuação intitulada “Ghost Rider: Spirit of Vengeance” foi realizada em 2011, mantendo apenas Nicolas Cage como remanescente do elenco da película anterior. Houve muitas reclamações dos fãs, como o fato do Motoqueiro Fantasma aparecer durante o dia e quanto ao enredo apresentado. A crítica especializada (assim como ao de 2007) condenou o filme, cujo desempenho nas bilheterias esteve longe de minimamente satisfatório.

Tradução/adaptação da letra de “Ghost Riders in the Sky” (versão de Johnny Cash, 1979):

Um velho cowboy cavalgando num dia escuro e de muito vento
Sobre uma colina resolveu descansar antes de seguir seu caminho
Quando de repente, um imponente rebanho de bois com olhos vermelhos ele viu
Vindo rápido através dos céus como desenhos nas nuvens

Suas marcas estavam em chamas e seus cascos eram feitos de aço
Seus chifres eram negros e brilhantes e sua respiração quente você poderia sentir
O medo o atingiu como um raio enquanto eles trovejavam através do céu
Ele viu os cavaleiros vindo rápido… e ouviu seu lúgubre lamento

Yippie-ya-ohhh (yippie-ya-ohhh), yippie-ya-yaaay (yippie-ya-yaaay)
Cavaleiros Fantasma no céu

Seus rostos eram esqueléticos e seus olhos embotados, suas camisas encharcadas
De suor
Eles cavalgavam rápido tentando capturar aquela manada sem jamais conseguir alcançá-la
por que eles tem de correr para sempre nas alturas
Em cavalos bufando fogo e enquanto correm velozmente pode-se ouvir seus lamentos

Os cavaleiros inclinaram-se sobre ele e alguém chamou seu nome
Se você quiser salvar sua alma do inferno que é trilhar nossa sina
então, cowboy, deve mudar seu jeito de ser hoje ou conosco irá cavalgar
Tentando pegar o rebanho do diabo através dos céus sem fim

Yippie-ya-ohhh (yippie-ya-ohhh), yippie-ya-yaaay (yippie-ya-yaaay)
Cavaleiros Fantasma no céu
Cavaleiros Fantasma no céu
Cavaleiros Fantasma no céu

Cena da interpretação de Goodman e Aykroyd em “Blue Brothers 2000” (1998):

Cartaz do filme "Ghost Rider: Spirit of Vengeance", 2011

Cartaz do filme “Ghost Rider: Spirit of Vengeance”, 2011

 “(Ghost) Riders in the Sky” é uma composição com o poder de nos fazer refletir acerca de nossas ações e do destino que nos aguarda caso não trilhemos o “bom caminho”. É prova de que histórias de horror podem ser contadas não apenas em livros, filmes ou revistas.

Créditos:

Vídeo: Cena extraída do longa “Blue Brothers 2000” (“Os Irmãos Cara-de-Pau 2000”, 1998), propriedade da Universal Pictures.

Trilha sonora e letra: “Ghost Riders in the Sky” (parte integrante do álbum “Silver”, versão de Johnny Cash, 1979).

Tags:
Next Article

Next Up