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Na Grécia de Homero, heróis como Jasão, Perseu, Héracles, Aquiles ou Odisseu desfilavam no imaginário helênico em narrativas onde enfrentavam criaturas pavorosas, desafiavam a vontade dos deuses e sobrepujavam as mais diversas e insidiosas tentações.

Dotados de poderes especiais (invulnerabilidade, força além do comum, visão ampliada, intelecto superior, dentre uma miríade de poderes derivados de sua ligação com entes divinos), esses indivíduos únicos experimentavam aventuras nas quais constantemente punham à prova o que de melhor havia no espírito humano.

Capa da revista "The All Story", 1912

Capa da revista “The All Story”, 1912

Nos tempos modernos, um novo panteão de seres capazes de voar, dobrar barras de aço com as mãos nuas, correr mais rápido que a luz e outros feitos, tão incríveis quanto fantásticos, ganharam as páginas de obras voltadas ao público juvenil. A publicação de “Tarzan of the Apes” (“Tarzan dos macacos”, 1914) e “A Princess of Mars” (“Uma Princesa de Marte”, 1917) ambos de Edgar Rice Burroughs (Set/1875 – Mar/1950) inauguraram a era dos novos deuses da cultura pop na virada do século XX.

Claramente inspirados em seus antecessores gregos, os heróis que ganharam espaço em revistas e livros conhecidos como pulp (suas páginas eram confeccionadas à base da polpa da celulose, permitindo o barateamento dos custos de produção), se estabeleciam como os modelos informais das gerações futuras.

Poster da série "Buck Rogers", 1939

Poster da série “Buck Rogers”, 1939

É nesse “boom cultural” que surgem personagens com as mais diversas origens e motivações. “O Sombra” (cuja primeira aparição se deu em 1930, como o narrador misterioso do programa de rádio “Detective Story Hour”), um justiceiro impiedoso, cuja moral não permite a criminosos escaparem impunes de seus delitos; “O Fantasma” criado por Lee Falk (Apr/1911 – Mar/1999) em 1936, também conhecido pela alcunha “O Espírito-que-Anda”, descendente de uma antiga linhagem dedicada a lutar pelo bem e proteger a África de exploradores e bandidos.

Capa da revista "The Shadow Magazine", 1939

Capa da revista “The Shadow Magazine”, 1939

Havia, também, “Flash Gordon”, personagem trazido ao mundo por Alex Raymond (Out/1909 – Set/1956) em 1934, o viajante espacial que (a exemplo de “John Carter”), desembarca num planeta desconhecido (Mongo) e se engaja na luta contra o ditador supremo desse mundo. As histórias de Gordon foram criadas para competir com outro aventureiro espacial: “Buck Rogers”, criado por Philip Francis Nowlan (1888 – Fev/1940) em 1928.

Em 1938, os jovens artistas Jerry Siegel (Out/1914 – Jan/1996) e Joe Shuster (Jul/1914 – Jul/1992) dão à luz aquele cujos feitos “inspirariam” muitos outros, considerado por muitos o “maior de todos os super-heróis”. Sua estreia se deu na edição nº 1 de “Action Comics” (National Periodical Publications, 1938). O Super-homem de Siegel e Shuster não pertencia à nosso planeta. Tratava-se de um imigrante oriundo de uma esfera condenada nos confins do espaço. Enviado à Terra ainda na infância, ele cresce como o filho adotivo de duas pessoas bem comuns: Johnathan e Martha Kent.

Capa de "Action Comics" nº 1 (National Periodical Publications, 1938)

Capa de “Action Comics” nº 1 (National Periodical Publications, 1938)

Traçando um paralelo com os mitos de civilizações antigas, encontramos dezenas de heróis que têm suas origens em condições semelhantes. Podemos citar Moisés, deixado numa cesta nas margens do Nilo por sua irmã, no período conhecido como o “grande expurgo de primogênitos” promovido pelos egípcios. Encontrado dias depois por uma das filhas do faraó da época (a bíblia cristã não cita o nome do governante do Egito do período de Moisés. Contudo, historiadores creem ter sido durante a XIX Dinastia, quando Seth I e Ramsés II reinaram), ele é criado como um príncipe egípcio, ignorante quanto a suas origens.

Já adulto, ele descobre sua natureza “estrangeira” e, no episódio conhecido como a “revelação”, toma ciência do real objetivo de sua vida (comparável ao momento onde Clark Kent é apresentado à nave kryptoniana) na edição nº 6 da minissérie “The Man of Steel” (DC Comics, 1986) escrita e desenhada por John Byrne (Jul/1950).

"The Reign of the Superman" publicado no fanzine "Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization", 1933 por Jerry Siegel e Joe Shuster

“The Reign of the Superman” publicado no fanzine “Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization”, 1933 por Jerry Siegel e Joe Shuster

Capa da revista "The Man of Steel" nº 6 (DC Comics, 1986)

Capa de “The Man of Steel” nº 6 (DC Comics, 1986)

Siegel e Shuster conseguiram torná-lo um exemplo de todo o desenvolvimento (potencial para o bem) que a humanidade poderia alcançar. Lutando contra a injustiça, protegendo os fracos e abandonados pela sociedade, Kal-El de Krypton despontava como modelo de caráter a ser seguido, de forma semelhante aos heróis presentes nos mitos helênicos. Um fato interessante é que, quando seus criadores desenvolveram o conceito original da personagem, o alienígena seria o vilão (humano e natural da Terra) da história “The Reign of the Superman” (“O Reino do Super-Homem”, 1933), onde um tirano dotado de incríveis poderes escraviza a humanidade.

Capa de "Detective Comics" nº 27 (Detective Comics, Inc., 1939)

Capa de “Detective Comics” nº 27 (Detective Comics, Inc., 1939)

Acompanhando o sucesso do “homem de aço”, Bob Kane (Out/1915 – Nov/1998) e Bill Finger (Fev/1914 – Jan/1974) criam, em 1939, um herói cujas aventuras se dão na sombria Gotham City. Na edição nº 27 da revista “Detective Comics” (Detective Comics, Inc., 1939) um justiceiro vestindo capa, máscara (contrapondo-se ao guardião de Metrópolis) e contando apenas com as habilidades físicas de um ser humano bem treinado, um homem-morcego misterioso leva o horror aos criminosos de sua cidade. “Batman” é resultado das mais diversas influências. As mais evidentes são “Drácula” (1897), criado por Bram Stocker (Nov/1847 – Apr/1912) para o livro de mesmo título e “El Zorro” (1919), criado por Johnston McCulley (Fev/1883 – Nov/1958) com sua primeira aparição na história “The Curse of Capistrano” (“A Maldição de Capistrano”). Há toda uma atmosfera dramática e densa em torno do personagem.

Capa da revista "All-Story Weekly", 1919

Capa da revista “All-Story Weekly”, 1919

Mesmo tendo origem semelhante a do “homem do amanhã”, a carga emocional imposta por Kane é, de longe, maior. Durante um assalto mal sucedido, os pais de um jovem Bruce Wayne foram assassinados diante de seus olhos. Isso traumatizou o infante a ponto de torná-lo um justiceiro movido pelo ódio a todo e qualquer criminoso, beirando a psicopatia.

Se o Super-Homem pode ser claramente ligado à uma inspiração em Héracles ou mesmo Zeus, Batman constituía-se numa criatura da escuridão, podendo ser visível e conceitualmente relacionado a Hades (divindade da mitologia grega cuja atribuição era a de governar o Tártaro ou inferno). O “homem-morcego” sempre age à noite, incutindo medo e pavor nos corações dos criminosos (de forma semelhante ao “Sombra”).

Capa da primeira edição de "Drácula", ed. Archibald Constable and Company, 1897

Capa da primeira edição de “Drácula”, ed. Archibald Constable and Company, 1897

O horror sempre permeou as aventuras do guardião de Gotham, seja explícito ou não. Sua faceta de detetive (o cruzado encapuzado é usualmente comparado a outro grande investigador da literatura, Sherlock Holmes), o leva a enfrentar a mais diversa gama de inimigos. Assim como os heróis oriundos das narrativas da antiga Grécia lutaram contra Hidras, Cérberos, Ciclopes e monstros do porte do Kraken, Scilla e Caríbdis, Batman e Super-Homem também possuem um panteão igualmente mortífero de adversários.

Os mais célebres são o gênio maligno Lex Luthor, o Deus sombrio Darkseid, governante de Apokolips, Coringa, o palhaço do crime (relacionável a Loki, o deus nórdico da trapaça), Duas-Caras (que pode ser facilmente identificado à Janus, o deus grego de duas faces), Charada (representa a Esfinge egípcia e seu mote: ”Decifra-me ou te devoro”) dentre uma centena de outros igualmente perigosos e interessantes.

Capa da revista "Batman: Bloodstorm", ed. DC Comics, 1994

Capa de “Batman: Bloodstorm” (DC Comics, 1994)

Para o homem-morcego, “criminosos não passam de uma corja supersticiosa e covarde” a quem ele pode infligir pavor durante sua cruzada pela justiça. Nos padrões de hoje, ele pode ser considerado um adepto do vigilantismo, ferindo a lei a qual alega defender. A faceta vampírica de Batman foi explorada na “Trilogia do Sangue”, “Batman & Dracula: Red Rain” (“Chuva Rubra”, 1991), “Batman: Bloodstorm” (“Tempestade de Sangue”, 1994) e “Batman: Crimson Mist” (“Bruma Escarlate”, 1999), onde Bruce Wayne enfrenta o príncipe das trevas pela alma (e sangue) de Gotham.

Capa de "Action Comics Annual" nº 1, ed. DC Comics, 1987

Capa de “Action Comics Annual” nº 1 (DC Comics, 1987)

Ele também já foi confundido com o senhor dos mortos-vivos numa aventura com o homem de aço (que marca o segundo encontro pós Crise nas Infinitas Terras entre Batman e Super-Homem), pela vampira Luar (“Action Comics Annual” nº 1, 1987). Uma curiosidade acerca do início da carreira de Bruce Wayne como combatente da justiça é o fato dele portar armas de fogo, abandonadas após o primeiro ano de suas atividades.

Em 1940, o psicólogo (e inventor do polígrafoWilliam Moulton Marston (Mai/1893 – Mai/1947) apresenta sua visão da mulher nas décadas que virão: a Mulher-Maravilha. Seu surgimento ocorreu numa época de revolução sócioeconômica na América do Norte. A luta feminina pela igualdade de direitos crescia, pressionando a sociedade a reconhecer sua participação em todos os meios. Em pouco menos de um ano (quer seja coincidência ou não), as mulheres-maravilha da América iriam ocupar o lugar de seus pares do sexo masculino em fábricas e noutras atividades nas quais sua ausência foi forçada pelo “chamado do dever” para combater alemães, italianos e japoneses nos campos da Europa, Ásia e África.

Capa de "All Star Comics" nº 8 (All-American Publications, 1941)

Capa de “All Star Comics” nº 8 (All-American Publications, 1941)

Com habilidades oriundas aos poderes de divindades olimpianas como Ártemis (olhos de caçadora), Afrodite (beleza, empatia e o dom do amor), Atena (sabedoria), Deméter (força, comparável à do homem de aço) e Hermes (velocidade) Diana (nome latino para Ártemis) deixa a ilha de Themyscira, uma utopia idílica governada por amazonas para levar sua mensagem de igualdade ao mundo dos homens.

Suas maiores armas são um laço encantado, com o qual ela pode extrair confissões de qualquer indivíduo e os braceletes de Hefestus, virtualmente indestrutíveis, com os quais ela pode desviar projéteis, raios de energia e ataques da mais variada ordem infligidos por seus adversários. Sua estréia se deu na edição nº 8 da revista “All Star Comics” (All-American Publications, 1941), com a aventura ganhando uma sequência na primeira edição da revista “Sensation Comics” (All-American Publications, 1942).

Capa de "Sensation Comics" nº 1 (All-American Publications, 1942)

Capa de “Sensation Comics” nº 1 (All-American Publications, 1942)

Diana mudou ao longo das décadas desde sua criação, acompanhando os movimentos sociais de suas análogas fora do mundo dos quadrinhos. Uma das versões mais “duras” da princesa amazona foi na adaptação “DC: The New Frontier” (“DC: A Nova Fronteira”, 2005), escrita e desenhada por Darwyn Cooke (1962). A obra retrata a Era da Prata do UDC e, nela, Diana tem seu comportamento e ideais mais próximos de uma guerreira do que, propriamente, uma embaixatriz.

Capa de "DC: The New Frontier" vol. 1 (DC Comics, 2005)

Capa de “DC: The New Frontier” vol. 1 (DC Comics, 2005)

Numa das cenas, ela é localizada pelo homem do amanhã na selva asiática, comemorando a vitória das mulheres recém-libertas do jugo dos opressores daquele país. Todas estão armadas e, ao ver o Super-Homem se aproximar, apontam os artefatos diretamente a ele, numa atitude de hostilidade e desconfiança. Ao ser questionada acerca do significado daquilo, ela narra a situação das jovens: haviam sido capturadas, estupradas, abusadas e algumas foram mortas pelos indivíduos que chacinaram sua aldeia.

"Trindade DC", por Darwyn Cooke

“Trindade DC”, por Darwyn Cooke

Ao libertá-las, deixou as armas no centro de uma clareira e deu às moças uma escolha: perdoar ou ir à forra contra os assassinos de suas famílias. O resultado, óbvio, choca o representante do “the american way of life”. Após uma discussão, onde a amazona defende o ponto de vista de suas protegidas, ela o expulsa do acampamento.

O aspecto grego em suas origens foi profundamente abordado por George Pérez (Jun/1954) em sua reformulação pós-crise nas infinitas terras nos anos 80, quando sua raiz mitológica aflorou e diversos arcos (como “O Desafio dos Deuses”) ou na animação recente “Wonder Woman” (“Muher-Maraviha”, 2009). Guerreira, embaixatriz e mulher, Diana tem papel de destaque no UDC, bem como protagoniza muitas das aventuras do desenho “Justice League” (“Liga da Justiça”, 2001-2004) e “Justice League: Unlimited” (“Liga da Justiça Sem Limites”, 2004-2006).

Cena da animação "DC: The New Frontier"

Cena da animação “DC: The New Frontier”

Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman nas versões de "Justice League: Gods and Monters"

Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman nas versões de “Justice League: Gods and Monters”

Ela, ao lado de Super-Homem e Batman, forma a “Trindade”; núcleo a partir do qual dezenas de heróis se aglutinam. Podemos compará-los aos deuses Minerva, Zeus e Hades do panteão heleno. A mais recente mostra disso é a animação “Justice League: Gods and Monsters” (“Liga da Justiça: Deuses e Monstros”, 2015), onde nos é apresentada uma Liga da Justiça bem diferente daquela a qual estamos acostumados.

Liga da Justiça, por Bruce Timm

Liga da Justiça, por Bruce Timm

Os arquétipos estão lá. Há um homem de aço, um cavaleiro das trevas e uma princesa guerreira. Contudo, suas origens foram modificadas pela equipe criativa, gerando personagens com ideais e comportamentos “sombrios” se comparados a seus equivalentes do UDC “normal”.

A história começa com a clássica destruição de Krypton, quase idêntica à cena em “Superman Animated: The Last Son of Krypton” (“Super-Homem Animado: O Último Filho de Krypton”, 1996), episódio em três partes que abriu a série, posteriormente unido num longa metragem. Porém, um novo elemento é adicionado, aproximando a animação ao último filme do kryptoniano (“Man of Steel”, 2013).

Super-Homem, por Bruce Timm

Super-Homem, por Bruce Timm

Ao cair na terra, ele é adotado por uma família de fazendeiros. No entanto, não foi o casal Kent a recebe-lo. Kal-El cresce sabendo o que é, verdadeiramente, ser um imigrante indesejado no país onde “nasceu”. O indivíduo que, na cronologia “oficial” cresceria para tornar-se um defensor da moral, justiça e do “american way of life” assume um caráter voltado à tirania. Ele ainda é o campeão das massas, mas vê o mundo e o modo de torná-lo um lugar pacífico através de um prisma que sua contraparte criada pelos Kents em Pequenópolis jamais cogitaria.

A abordagem do roteiro nos leva a imaginar se tomaríamos o mesmo caminho ao darmo-nos conta de sermos um dos (ou talvez o) seres mais poderosos do planeta e, desse modo, capazes de impor nossa visão aos demais. Maquiavel e outros pensadores discorreram sobre o que ocorre quando um indivíduo detém poder e esse poder é (ou se torna) absoluto.

O monarca Luís XIV de França (Set/1638 – Set/1715), também conhecido como “Luís, o Grande” ou “O Rei Sol” proferiu a frase “L’état c’est moi” (“O estado sou eu”) numa perfeita definição de como o poder é capaz de afetar a mente do animal humano. Imaginem, portanto, como um ser dotado com habilidades para realizar feitos além dos de qualquer outro mortal se sentiria?

Cena de "Liga da Justiça: Deuses e Monstros"

Cena de “Liga da Justiça: Deuses e Monstros”

Nesse mundo, a Liga da Justiça é odiada e seus membros são vistos como monstros ou aberrações. Os governos desenvolvem, em segredo, armas e equipamentos capazes de combatê-los no momento em que uma ofensiva se julgar necessária.

Batman, por Bruce Timm

Batman, por Bruce Timm

O segundo membro formador da “trindade” desse universo é uma versão de Batman na qual o “homem-morcego” realmente assume a alcunha pela qual é conhecido. Ele se tornou um vampiro, num experimento décadas antes. Suas habilidades são usadas no combate ao crime e ele se alimenta apenas dos bandidos aos quais caça.

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Capa de “Superman: Red Son” (DC Comics, 2003)

Não há o voto de não matar. Tirar vidas tornou-se uma questão de sobrevivência e, portanto, a moralidade suprimida em detrimento do existir. Podemos estender essa análise ao Drácula de Stocker, ou a outros monstros da literatura, pois não estaríamos sendo mais criminosos que ambos ao nos fartarmos com um suculento bife ou de uma salada?

O Batman de “Deuses e Monstros” está mais próximo do escrito por Doug Moench (Fev/1948) e ilustrado por Kelley Jones (Jul/1962) em “Tempestade de Sangue”, da mesma forma que o Super-Homem foi bastante (mesmo não sendo um defensor do socialismo) influenciado por seu equivalente em “Superman: Red Son” (“Super-Homem: Entre a foice e o Martelo”, 2003), publicado pela DC Comics, com roteiro de Mark Millar (Dez/1969) e arte a cargo de Dave Johnson e Kilian Plunkett.

Cena de "Liga da Justiça: Deuses e Monstros"

Cena de “Liga da Justiça: Deuses e Monstros”

A Amazona da animação de Bruce Timm (Fev/1961) tem a identidade e história tão modificadas quanto as do cavaleiro das trevas. Ela não é mais natural de Themyscira ou filha de Hipólita, a rainha das amazonas. Essa Mulher-Maravilha faz parte da nobreza, no entanto, de uma corte bem diferente do que se poderia imaginar.

Mulher-Maravilha, por Bruce Timm

Mulher-Maravilha, por Bruce Timm

A personagem mantém as características evidenciadas nos últimos anos: é uma guerreira firme em suas decisões, habilidosa no combate corpo a corpo e ainda mais aguerrida que sua contraparte. Ela esconde uma grande tragédia pessoal, que a tornou uma alma infeliz e atormentada. Sua arma é uma espada forjada com aço divino (ainda mantém sua ligação com deuses), capaz de resistir à tudo que os braceletes da Mulher-Maravilha tradicional podem. Forçada a escolher entre o moralmente correto e a lealdade à família, a heroína decide exilar-se na Terra, onde aliou-se a ao último filho de Krypton e ao homem-morcego dessa realidade.

Mesmo sendo impopulares, uma das cenas mostra um homem vendendo réplicas da espada usada pela Mulher-Maravilha entre os manifestantes contrários à presença dos heróis em seu mundo, o que nos leva à seguinte discussão: “temos os heróis que queremos ou os monstros dos quais precisamos?”

Um dos pontos interessantes é o vilão da trama. Os acontecimentos giram em torno dos assassinatos de grandes inventores e cientistas que, no UDC “normal” seriam heróis, vilões ou dariam origem a eles. A motivação dele ao orquestrar uma série de crimes assemelha-se a dos antigos vilões da Era de Prata (1956 – 1970). Seu modus operandi recorda “Watchmen” (“Watchmen”, 1986) publicada pela editora DC Comics, com roteiro de Alan Moore (Nov/1953); ilustrações de Dave Gibbons (Abr/1949), e outras narrativas onde os protagonistas são acusados de haver cometido os crimes, através de provas convenientemente plantadas contra eles durante o andamento do enredo.

Cena de "Liga da Justiça: Deuses e Monstros"

Cena de “Liga da Justiça: Deuses e Monstros”

Capa da ed. nº 1 de "Justice League: Gods and Monsters" (DC Comics, 2015)

Capa da ed. nº 1 de “Justice League: Gods and Monsters” (DC Comics, 2015)

Outro marco digno de nota é o interesse do governo norte-americano em neutralizar a ameaça representada por essa “Liga da Justiça”. O desfecho das tensões entre Amanda Waller e os heróis recorda a cena final de “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (“Butch Cassidy”, 1969) dirigido por George Roy Hill (Dez/1921 – Dez/2002) e estrelado pelos atores Robert Redford (Ago/1936) e Paul Newman (Jan/1925 – Set/2008), onde os dois pistoleiros saem do abrigo no qual foram sitiados pelo exército boliviano para enfrentar dezenas de homens melhor armados.

Capa da ed. nº 1 de "Justice League: Gods and Monsters - Superman" (DC Comics, 2015)

Capa da ed. nº 1 de “Justice League: Gods and Monsters – Superman” (DC Comics, 2015)

O homem de a aço e a mulher guerreira se unem para lutar por suas vidas e defender a Torre da Liga (um edifício no centro de Metrópolis), enquanto Batman fica face a face com a verdadeira e terrível ameaça. O combate teve grande influência de “Man of Steel” (“O Homem de Aço”, 2013), dirigido por Zack Snyder (Mar/1966) e protagonizado por Henry Cavill (May/1983).

Capa da ed. nº 1 de "Justice League: Gods and Monsters - Wonder Woman" (DC Comics, 2015)

Capa da ed. nº 1 de “Justice League: Gods and Monsters – Wonder Woman” (DC Comics, 2015)

Alguns dos coadjuvantes e heróis do UDC original participam da animação. Dentre vários, estão: Jimmy Olsen, Lois Lane, Victor Stone (ainda criança), Ray Palmer, Steve Trevor e ele. Lex Luthor não poderia ser deixado de fora. A nêmese, o arqui-inimigo de Kal-El está presente, ainda que sua origem tenha sofrido alterações semelhantes às de seu antagonista.

Capa da ed. nº 1 de "Justice League: Gods and Monsters - Batman" (DC Comics, 2015)

Capa da ed. nº 1 de “Justice League: Gods and Monsters – Batman” (DC Comics, 2015)

Antes do lançamento do longa de animação, o canal Machinimia exibiu a webserie “Justice League: Gods and Monsters Chronicles” (DC Entertainment, Warner Bros. Animation e Blue Ribbon Content) em uma temporada de três partes e outra foi encomendada para 2016. A boa recepção dos fãs, bem como da crítica especializada, está tornando a visão original de Bruce Timm sobre a tradicional Liga da justiça num grande sucesso.

 Junto à animação, foram lançadas as publicações “Justice League: Gods and Monsters – Batman”, com arte de Matthew Dow Smith; “Justice League: Gods and Monsters – Superman”, com ilustrações de Moritat“Justice League: Gods and Monsters – Wonder Woman”, com desenhos de Dan Green e Rick Leonardi“Justice League: Gods and Monsters”, ilustrada pelo artista brasileiro Thony Silas (Set/1986), todas com roteiro de Bruce Timm e J.M. De Matteis (Dez/1963).

A editora DC Comics possui uma série intitulada “Elseworlds”, na qual são contadas histórias de personagens tradicionais em universos alternativos, bizarros e/ou impossíveis. “Deuses e Monstros” é a prova de que pode-se trabalhar uma personagem a partir de diferentes ângulos, sem perder a essência original.

Justice League Gods and Monsters – “Bomb”:

Justice League Gods and Monsters – “Twisted”:

Justice League Gods and Monsters – “Big”:

Recomendadíssimo aos fãs de quadrinhos e animações.

Créditos:

Vídeos: Curtas de animação de “Justice League: Gods and Monsters Chronicles”, 2015, propriedade da DC Comics.

Trilha sonora: “Justice League Theme” (parte integrante da série animada “Justice League”, 2001-2004).

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