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Poster de "The Fly", 1958

Poster de “The Fly”, 1958

George Langelaan

George Langelaan

Um dos sonhos acalentados pelo homem, em sua eterna busca pelo desenvolvimento, por conquistar as forças da natureza, o tempo e o espaço, foi o de conseguir locomover-se instantaneamente entre o aqui e o lá.

Na ficção, máquinas do tempo ou naves espaciais capazes de romper a barreira da luz, sempre exprimiram o desejo em cobrir distâncias impossíveis aos meios normais de locomoção tão facilmente quanto se sai do quarto e caminha-se por um corredor à copa de uma residência.

O teletransporte, conceito popularizado em séries como “Star Trek” (“Jornada nas Estrelas”, 1966), foi explorado no filme “A Mosca” (“The Fly”, 1986) onde um cientista visionário busca, de forma obsessiva, o sucesso em seu campo de pesquisa.

 A adaptação, dirigida por David Cronemberg (Mar/1943), e estrelada por Jeff Goldblum (Out/1952) é um remake do clássico “The Fly” (“A mosca da Cabeça Branca”, 1958), dirigido por Kurt Neumann (Abr/1908 – Ago/1958) e protagonizado por Vincent Price (Mai/1911 – Out/1993). Ambas são baseadas no conto “The Fly”, de George Langelaan (Jan/1908 – Fev/1972), publicado originalmente na edição Jun/1957 da revista norte-americana Playboy Magazine.

Capa da edição de Jun/1957 da revista "Playboy Magazine"

Capa da edição de Jun/1957 da revista “Playboy Magazine”

No texto de Langelaan, Andre Delambre, um cientista brilhante, cujo intelecto beira a genialidade, desenvolve um revolucionário sistema onde a matéria pode ser transmitida instantaneamente de um ponto a outro, através de cabines nas quais o indivíduo (ou objeto), tem sua estrutura atômica “desfeita” e enviada a um receptor que pode estar fixado em qualquer local do planeta.

Após uma série de experimentos bem sucedidos, o pesquisador decide submeter-se ao teletransporte, para homologar seu trabalho e apresentá-lo ao meio acadêmico como a solução para questões urgentes na época, bem como sua contribuição para um futuro onde a necessidade por veículos movidos à combustíveis fósseis seria totalmente eliminada.

Ocorre, no entanto, algo inesperado: um inseto (uma mosca, título do conto) entra na câmara de transmissão e tem seus átomos misturados aos do cientista durante o processo de reintegração na cabine adjacente. Como resultado, o corpo do físico teve cabeça e um braço substituídos pelos órgãos equivalentes aos do inseto e a criatura possui, agora, o crânio e um dos membros de Delambre.

Capa de "A Metamorfose"

Capa de “A Metamorfose”

Esse momento remete à obra “A Metamorfose”, (“Die Verwandlung”, 1915) do autor tcheco Franz Kafka (Jul/1883 – Jul/1924), no qual acompanhamos um indivíduo comum que, da noite para o dia, vê-se transformado num ser abjeto, um inseto de dimensões humanas bem semelhante a uma barata. No tomo, Kafka discorre acerca de como a família e Gregor Samsa reagem à mudança. Alguns afirmam que o texto é uma alegoria às agruras da velhice ou deformidade, pois Gregor perde o emprego (sua única fonte de renda), devido à sua aparência horrenda e acaba tornando-se um estorvo aos parentes.

Sua família o teme, passa a aceitá-lo (mesmo escondendo-o das outras pessoas) e, por fim, passa a odiá-lo, rogando para que Gregor saia de suas vidas e eles sejam capazes de existir como pessoas “normais” outra vez.

Uma das cenas mais grotescas da adaptação filmada em 1958 é quando a mosca-Delambre se encontra presa numa teia e pede socorro, sem que ninguém possa ouvi-lo. George Langelaan, em sua narrativa, versa sobre as reações da esposa de Delambre apresentadas ao leitor por meio de um diário em posse do irmão de Andre, François. Essa é, de longe, a representação mais fiel ao texto original de Langelaan.

Cena do filme "The Fly", 1958

Cena do filme “The Fly”, 1958

Cartaz de “The Fly”, 1986

Cartaz de “The Fly”, 1986

Jeff Goldblum, por sua vez, encarna o físico Seth Brundle, um cientista conhecido por suas ideias pouco ortodoxas em seu campo de atuação. A essência original foi mantida pois, assim como em “The Fly” (1958) o protagonista também se submete à transferência de matéria para provar, desse modo, que o teletransporte de seres orgânicos complexos é possível – da mesma forma que Andre Delambre, Brundle tem seu DNA misturado ao de um inseto que invadira a câmara sem ser detectado.

A partir desse momento, a trama de Cronemberg se distancia do conto e película originais, pois a transformação de Seth não é imediata. Nos primeiros dias após o experimento, ele percebe mudanças em sua fisiologia, tais como aumento de força, resistência e velocidade. Convencido de que tais “melhoramentos” foram resultado direto da recombinação de átomos no transportador, o físico prepara-se para expor sua descoberta ao mundo.

É, então, que a terrível verdade vem à tona. Os primeiros sinas de sua metamorfose começam a surgir: pelos em suas costas, uma necessidade obsessiva por açúcar e reações animalescas a determinados eventos. A mudança é gradual e acompanhamos o horror do indivíduo ao perceber que estava se tornando uma imensa e abjeta mosca-humana.

Cartaz de “The Fly”, 1958

Cartaz de “The Fly”, 1958

Assim como Delambre, ele deduz que somente a recombinação de DNA, através de um novo teleporte pode reverter o processo. No entanto, se no conto original seria preciso capturar o inseto com quem havia atravessado a máquina, na versão de 1986, era necessário passar pelas cabines com um ser humano saudável, de quem as partes não afetadas seriam utilizadas para remover a sequência genética indesejada.

Os estágios de Brundle, desde a descoberta até a conscientização acerca de sua nova e extraordinária condição, nos lembram as fases pelas quais um paciente acometido por uma doença terminal atravessa: negação (quando ele percebe ter havido algo errado no experimento, mas se “encanta” com os efeitos colaterais imediatos), raiva (ao notar que estava em processo de mutação, tornando-se um organismo único, porém, monstruoso), negociação (mergulhando em pesquisas para descobrir como poderia reverter sua condição), depressão (ao se isolar do mundo, sem esperança de poder voltar a ser humano novamente).

No roteiro de Cronemberg, não há a aceitação. Brundle enlouquece e tenta, de todas as formas, purgar o genoma alienígena de seu corpo, mesmo que seja obrigado a recorrer à mais terrível solução. Um dos momentos marcantes na adaptação de 1986 é quando o interesse romântico do protagonista (representado por Geena Davis), tem um pesadelo no qual dá à luz à uma larva do tamanho de um bebê humano.

Cena do filme “The Fly”, 1986

Cena do filme “The Fly”, 1986

“The Fly” foi redigido numa época na qual o imaginário fervilhava quanto às consequências da má utilização da tecnologia (a exemplo do clássico “Eu Sou a Lenda” de Richard Matheson), bem como especulações acerca de mutações e criaturas fantásticas como resultado da manipulação displicente do “poder do átomo”.

Capa de "Amazing Fantasy" nº 15 (Marvel Comics, 1962)

Capa de “Amazing Fantasy” nº 15 (Marvel Comics, 1962)

George Langelaan, em seu conto, acabou por ratificar uma vertente bem diversa à sua ideia original: a criação de entidades super poderosas em acidentes de laboratório ou pesquisa científica. Um exemplo disso foi o Homem-Aranha (Marvel Comics, 1962), com Stan Lee (Dez/1922) no roteiro e Steve Ditko (Nov/1927) responsável pela arte, no qual o jovem Peter Parker é picado por uma aranha irradiada por isótopos experimentais e desenvolve poderes similares ao de um aracnídeo ou o Quarteto Fantástico (Marvel Comics, 1961), escrita por Stan Lee e desenhada pela lenda dos quadrinhos Jack Kirby (Ago/1917 – Fev/1994), onde um grupo de exploradores é atingido no espaço por um feixe de raios cósmicos e, ao retornar, manifesta extraordinários (e fantásticos) poderes. Ambas tem as capas assinadas por Kirby.

Capa de “Fantastic Four” nº 1 (Marvel Comics, 1961)

Capa de “Fantastic Four” nº 1 (Marvel Comics, 1961)

O caráter psicológico da obra pode ser observado ao vermos exposta a “real” natureza das personagens, pois Langelaan descreve as reações de cada indivíduo afetado pelo evento, onde vão desde a hipocrisia ao asco irrefreável, bem como o terrível destino da mosca-Delambre e de sua esposa.

Cartaz de “Re-Animator”, 1985

Cartaz de “Re-Animator”, 1985

A Ficção Científica e o Horror são dois gêneros que, quando bem coordenados, se tornam um celeiro para excelentes (e aterradoras) histórias. O autor norte-americano Howard Philips Lovecraft (Ago/1890 – Mar/1937) publicou o conto “Herbert West – Reanimator” (1922), marco inicial aos “zumbis científicos” modernos.

Antes dele, tais criaturas eram produto exclusivo do sobrenatural. A obra ganhou a adaptação cinematográfica “Re-Animator” (“Re-Animator: A Hora dos mortos vivos”, 1985), dirigida por Stuart Gordon (Ago/1947) e protagonizada por Jeffrey Combs (Set/1954).

Trailer – “The Fly” (“A Mosca”, 1986):

Trailer – “The Fly” (“A Mosca da Cabeça Branca”, 1958):


A obra de Langelaan foi, ao longo das décadas, adaptada em outros meios (televisão, teatro) e recebeu o Playboy Magazine’s Best Fiction Award. Leitura (bem como os filmes citados nesse artigo) recomendada aos fãs de horror e ficção científica.

Capa variante (alternativa) de "Amazing Fantasy" nº 15 (Marvel Comics, 1962)

Capa variante (alternativa) de “Amazing Fantasy” nº 15 (Marvel Comics, 1962)

Créditos:

Vídeos: Trailers de “The Fly”, 1958  (propriedade da Twentieth Century Fox Film Corporation) e “The Fly”, 1986  (propriedade da SLM Production Group e Brooksfilms).

Trilha sonora: “The Finale” (parte integrante do filme “The Fly”, 1986, por Howard Shore).

O título do artigo é um trocadilho/homengem à música “Mosca na Sopa” (Raul Seixas, parte integrante do álbum “Krig-ha, Bandolo!”, 1973).

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