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Chamada para o programa de rádio da emissora WPAD (1939)

Chamada para o programa de rádio da emissora WPAD (1939)

George C. Jenks

George C. Jenks

As primeiras décadas do século XX testemunharam o florescer de um gênero literário famoso por gerar histórias de horror, nas quais entidades ávidas por nosso mundo arrebanhavam cultistas em seitas tão antigas quanto malignas; ficção científica, onde intrépidos exploradores nos levavam a novos mundos, enfrentando toda a sorte de inimigos ou narrativas policiais, onde combatentes do crime (dentro e/ou à margem da lei) lutavam contra espiões, conspiradores e bandidos comuns: o pulp.

Numa época onde não havia, como hoje, facilidades de difusão para a cultura de massa, televisão e internet, jornais, revistas e o rádio constituíam-se no meio usual para o entretenimento. Vozes como as de James LaCurto ou Frank Readick, Jr (Nov/1897 – 1965) encantavam multidões com aventuras fantásticas, onde indivíduos extraordinários enfrentavam ameaças da mais diversa natureza.

Capa da revista "Fame and Fortune" ed. Street and Smith Publications Inc (Fev/1929)

Capa da revista “Fame and Fortune” ed. Street and Smith Publications Inc (Fev/1929)

“The Shadow” (“O Sombra”) tem sua primeira aparição registrada na revista “Fame and Fortune Maganize” (“Fama e Fortuna Magazine”, Fev/1929), publicada pela editora Street and Smith Publications Inc. Nessa encarnação, escrito por Frank S. Lawton, pseudônimo adotado por George C. Jenks (Abr/1850 – Set/1929) para aquela edição, “The Shadow” era um herói misterioso, que protegia os investidores norte-americanos (a “Fame and Fortune” tratava exclusivamente de assuntos relacionados ao mundo financeiro) de especuladores e criminosos mal-intencionados. Sua furtividade habitual e a inconfundível gargalhada foram introduzidas nesse conto. O personagem gozou de relativo sucesso até o crack do sistema econômico estadunidense (ainda em 1929).

Chamada para o programa de rádio da emissora WSLS (1943)

Chamada para o programa de rádio da emissora WSLS (1943)

Meses depois, “O Sombra” retorna como o sinistro narrador/apresentador do programa de rádio “Detective Story Hour”, de propriedade da editora responsável por sua publicação original. O foco da atração eram narrativas de histórias policias, mistério e suspense. No auge do programa, Orson Welles (Mai/1915 – Out/1985) emprestou sua voz ao vingador das trevas. Agnes Moorehead (Dez/1900 – Abr/1974), a futura Endora de “Bewitched” (“A Feiticeira”, 1964) interpretou Margo Lane (noiva do “O Sombra” e única a conhecer sua identidade real) durante alguns episódios. Cativando ainda mais a audiência, o personagem de George Jenks ganha sua própria série de livros, escrita por Walter B. Gibson (Set/1897 – Dez/1985), sob o pseudônimo Maxwell Grant.

Capa de "The Shadow Magazine" nº 1 (Street and Smith Publications, 1931)

Capa de “The Shadow Magazine” nº 1 (Street and Smith Publications, Abr/1931)

“The Living Shadow” (“A Sombra viva”, 1931) marca a estreia dessa versão (definitiva) na literatura. Auxiliado por uma rede de colaboradores e informantes (nem sempre voluntários), também chamados “The Shadow Agents” (“Os Agentes da Sombra”) Kent Allard (Lamont Cranston é uma das identidades utilizadas pelo personagem, surgida no programa de rádio e aproveitada no filme de 1994) enfrenta Wang Foo, o chefe de um cartel criminoso baseado em Chinatown.

Um fato interessante é o de que, no roteiro original para “The Living Shadow” de Walter Gibson, não havia conexão com vilões chineses. Por uma exigência dos proprietários do programa de rádio, deveria ser feita uma interligação capaz de unir os dois universos e, assim, capitalizar a audiência às vendas dos livros.

Gibson foi responsável por definir as características pelas quais “The Shadow” é atualmente conhecido (por esse motivo, ele é creditado como criador do personagem): um homem sombrio, com um nariz aquilino e feições duras, que se utiliza do medo para incutir pavor nos corações dos criminosos. Mestre dos disfarces e do hipnotismo, o anti-herói taciturno, de poucas palavras, não poupava os malfeitores. Sua justiça era definitiva e aplicada com o auxílio de duas pistolas calibre .45.

The Shadow, por Alex Ross

The Shadow, por Alex Ross

The Shadow, por Jim Steranko

The Shadow, por Jim Steranko

O que hoje é um tema largamente discutido pela sociedade, constituía-se na solução viável aos problemas de sua época. Talvez Kent Allard não repercutisse nos dias atuais (onde o “politicamente correto” tenta, a todo custo, instaurar-se como norma), como o foi há quase um século.

Há uma atmosfera teatral em “The Shadow”, que nos recorda imediatamente do “Fantasma da Ópera” (Gaston Leroux, 1909) e “Drácula” (Bram Socker, 1897). Seus métodos pouco ortodoxos de combate aos transgressores caíram no gosto de uma população constantemente ameaçada por gangues, batedores de carteira e crime organizado. “O Sombra” era, em sua essência, um justiceiro, um vigilante capaz de ir às últimas consequências para proteger a sociedade de elementos interessados em destruí-la ou subverter suas normas em proveito pessoal.

Capa de "The Shadow Magazine" nº 15 (Street and Smith Publications, 1933)

Capa de “The Shadow Magazine” (Street and Smith Publications, Abr/1933)

Ele, ao lado de outros famosos heróis da “Era Pulp” foram citados no primeiro arco de histórias da revista Planetary, como os defensores secretos da Terra nas primeiras décadas do século XX. A equipe trazia versões de “O Sombra”, “O Aranha”, “Doc Savage”, “Tarzan”, “G-8”, “O Detetive Fantasma” e “Fu Manchu”, dos quais apenas o análogo ao homem de bronze sobrevive à derradeira luta do grupo e alcança os dias atuais.

As aventuras de Kent Allard inspiraram a criação de outro (bem mais) famoso combatente do crime: Batman, o homem-morcego por Bob Kane (Out/1915 – Nov/1998) e Bill Finger (Fev/1914 – Jan/1974), em 1939. As semelhanças entre os personagens eram tantas que o cruzado encapuzado chegou a portar armas de fogo em suas primeiras aparições (duas pistolas, como “O Sombra”).

Capa de Batman nº 253 (DC Comics, 1973)

Capa de Batman nº 253 (DC Comics, 1973)

O primeiro crossover entre ambos ocorreu em “Who Knows What Evil?” (“Quem conhece o mal?”, Batman, vol 1, ed. Nº 253, DC Comics, 1973). O enredo narra uma investigação que leva Batman a confrontar um grupo de falsificadores cujo disfarce é pertencerem a uma comunidade hippie isolacionista. Durante a história, ele encontra vários sinais da presença do “Sombra”, sem revelar ao leitor sobre a quem ele se refere. O encontro se dá no final da aventura, quando Batman confidencia ao vingador negro ser ele uma de suas maiores inspirações quando criou sua identidade de combatente ao crime. O homem-morcego cumprimenta o ídolo e, quando “O Sombra” caminha para a escuridão, Wayne pergunta se o herói deixará a aposentadoria para combater o mal mais uma vez. A resposta é “Apenas O Sombra sabe!”, seguida por uma gargalhada sinistra.

Capa de Batman nº 259 (DC Comics, 1974)

Capa de Batman nº 259 (DC Comics, 1974)

O segundo, se deu na aventura “The Night of the Shadow!” (“A Noite do Sombra!”, Batman, vol 1, ed. Nº 259, DC Comics, 1974). Na trama, que começa com um flashback apontando para vinte e cinco anos antes (1949), Bruce Wayne encontra o justiceiro ainda criança, numa visita com seu pai ao Banco de Gotham. Ele avista o vingador das trevas quando este frustra, de modo rápido e violento, as intenções dos criminosos. Já como o guardião de Gotham, Batman enfrenta a vingança do único sobrevivente do assalto frustrado por seu herói de infância. Após desvendar o plano de Willy Hank Stamper e enfrentar um trauma antigo (inserido pelo roteiro), reencontra a sombra viva no topo de um edifício e ouve do águia negra que sua fé nele não havia sido em vão.

Batman e O Sombra, por Rafael Gallur

Batman e O Sombra, por Rafael Gallur

Em seguida, ele oferece a Bruce uma pistola semiautomática calibre .45 como prova de seu apreço. No entanto, Batman não aceita o presente, alegando que jamais precisou ou precisará daquilo. Como sempre, “O Sombra” desaparece na escuridão, deixando Batman sozinho.

Capa de Shadow Comics nº 1 (Street and Smith, 1941)

Capa de Shadow Comics nº 1 (Street and Smith, 1941)

O personagem estrelou sua própria série de quadrinhos em 1940, com a publicação do nº 1 de “Shadow Comics”, pela editora Street and Smith Publications Inc. A editora Archie Comics também publicou uma série do personagem a partir de 1964. Em 1973, a também norte-americana editora DC Comics trouxe uma nova série do águia negra, escrita por Dennis O´Neil (Mai/1939) e desenhada por Michael Kaluta (Ago/1947). Vale ressaltar que as aventuras do “O Sombra” nessa publicação não estão dentro da cronologia do UDC, constituindo-se num universo à parte dos demais personagens da editora na época.

 

The Shadow, por Jae Lee

The Shadow, por Jae Lee

Capa de The Shadow nº 25 (Dynamite Entertainment, 2014)

Capa de The Shadow nº 25 (Dynamite Entertainment, 2014)

Sua última aparição numa série própria de quadrinhos foi em “The Shadow” (“O Sombra”, 2002), publicada pela editora Dymanite Entertainment, com duração de vinte e cinco edições. Ele, assim como outros heróis pulp, vêm sendo resgatados à nova geração de leitores por essa casa editorial.

 “The Shadow” ganhou diversas adaptações cinematográficas, dentre as quais destacam-se: a primeira, produzida pela Universal Pictures em 1931, foi uma série de seis curtas-metragens baseados no popular Detective Story Hour. O primeiro curta, “A Burglar to the Rescue” (“Um malfeitor ao resgate”), filmado na cidade de Nova Iorque, teve participação da voz do personagem no programa de rádio, Frank Readick.

Cartaz do filme "International Crime"(1938)

Cartaz do filme “International Crime”(1938)

A segunda, “The Shadow Strikes” (“O Sombra Ataca”, 1937), estrelado por Rod La Rocque (Nov/1898 – Out/1969) no papel título. No enredo da adaptação, Lamont Cranston assume a identidade do “O Sombra” a fim de impedir um assalto em um escritório de advocacia. “The Shadow Strikes” (1937), bem como sua sequência, “International Crime” (“Crime Internacional”, 1938), foram produzidas pela Grand National Pictures.

Em 1994, “O Sombra” retorna numa película homônima, dirigida por Russell Mulcahy (Jun/1953), com Alec Baldwin (Abr/1958) interpretando Lamont Cranston/The Shadow e Penelope Ann Miller (Jan/1964) como Margo Lane, a eterna noiva do personagem. Muito do roteiro foi baseado nos anos iniciais do “O Sombra”, ainda como o narrador sinistro do programa de rádio da Street and Smith.

Poster do filme "The Shadow Strikes", 1937

Poster do filme “The Shadow Strikes”, 1937

Cartaz do filme “The Shadow” (1994)

Cartaz do filme “The Shadow” (1994)

“The Shadow” é um personagem atemporal, cujas motivações estão arraigadas no âmago do animal humano. Ainda que lance mão de métodos pouco ortodoxos, capazes de deixá-lo à margem da lei, o vingador das trevas sempre terá espaço no coração de leitores veteranos ou dos recém-chegados ao mundo no qual a justiça é feita e o mal, derrotado.

A aura de mistério, frieza e distanciamento do vigilante contrastam ao senso de justiça que nos é passado em seus atos. Kent Allard, Lamont Cranston ou Ying Ko sempre estará lá, na escuridão, velando pelo cidadão comum enquanto caça, sem misericórdia, indivíduos dedicados a ruir a sociedade, desprezando os valores que nos diferenciam de bestas irracionais.

E, a partir de agora, quando em momentos de incerteza você se perguntar acerca de quem conhece o mal a se esconder nos corações dos homens e se as pessoas de bem triunfarão sobre a injustiça, esteja certo de que… “O Sombra sabe! Hahahahahaahahahahahahaha!”

Episódio “The Hospital Murders” (“Os Assassinos do Hospital”, 14/08/1938, com Orson Welles na voz de “O Sombra”) – The Shadow Radio Show:

Trailer – “The Shadow” (“O Sombra”, 1994):

Capa da reedição de "The Shadow Magazine" (publicada originalmente pela ed. Street and Smith Publications, Jan/1942)

Capa da reedição de “The Shadow Magazine” Jan/1942 (publicada originalmente pela Street and Smith Publications)

Créditos:

Vídeo: Trailers de “The Shadow”, 1994  (propriedade da Universal Pictures).

Áudio: “The Hospital Murders” (Propriedade da Street and Smith Publications Inc, “The Shadow Radio Show”, 1938).

Trilha sonora: “Who are you?” (parte integrante do filme “The Shadow”, 1994, por Jerry Goldsmith).

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