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Grandes Editoras Publicam Apenas os Melhores Livros?!

sergio 27 de julho de 2015
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Many old books combined by a heap. Russian saying 'Knowledge - light, ignorance - darkness'Para quem conhece pelo menos a superfície do mercado editorial – seja no Brasil ou em outros que nos servem de modelo, como o americano ou o europeu -, sabe muito bem que resposta dar ao questionamento que serve de título à esse texto. Porém, para a grande maioria dos leitores, perguntar algo desse tipo seria óbvio, em especial, se pensarmos nessa estrutura dentro de uma meritocracia artística, relacionada ao livro como sendo fruto de uma composição não apenas pessoal, temática ou estética, mas cultural. Ora, para quem ainda tem dúvidas sobre isso, respondo de imediato, não, nem de longe são os melhores livros os publicados pelas editoras de maior renome e abrangência. Embora, existam livros bons envolvidos, em geral não é isso que se percebe. Claro, não quero com isso estabelecer uma relação negativa em termos editoriais dessas instituições, pelo contrário, o objetivo aqui é expor as causas e consequências influenciadoras do mercado, tendo em vista os meandros que o envolvem. É complicado, verdade, mas continue acompanhado que ficará mais simples, prometo.

Todavia, antes de adentrar no viés deste questionamento maior – que norteia o desenvolvimento deste texto -, é preciso esclarecer algo ligado de maneira intrínseca ao fato, ou seja, o que faz de um livro bom? Existem livros melhores que outros, falando em termos literários? Sem maiores interrupções, digo que sim, existem livros melhores que outros; e o que faz deles melhores em comparação à outras obras de igual gênero e/ou estilo é a competência do autor em desenvolver elementos essenciais à atividade da escrita lírica, como desenvolvimento de enredo, personagens, descrição, elaboração do conflito, aplicação do conhecimento de mundo e dos sentimentos inseridos na trama, intertextualidade, referenciação, semiótica, dentre uma série de outros aspectos que, vistos como parte de um todo à primeira vista, tornam-se imprescindíveis para a criação de um clássico da literatura universal, ou pelo menos de um livro relevante em seu próprio tempo.

A maior vantagem de uma biblioteca é sua diversidade literária, com boas obras e outras nem tanto.

A maior vantagem de uma biblioteca é sua diversidade literária, com boas obras e outras nem tanto.

Esclarecido isso, há de se pensar “bom, então se o livro cumpre com eficiência estes requisitos em sua escrita, ele facilmente fará sucesso?”, sinto informar que não, muito pelo contrário, isso pode até dificultar sua entrada no mercado. Confuso? Explico melhor. Em todo o mundo existe uma maior aceitação por enredos simples, rasos, de fácil leitura, e que não exijam um diálogo muito complexo com quem lê. Sim, é paradoxal se pensarmos a literatura como uma arte capaz de instigar a crítica e lógica do cerne humano, mas é fato que obras com pouca elaboração em termos da teoria literária, adentram com maior facilidade ao mercado, justamente, por sua simplicidade em termos retóricos e estéticos. Existem estudos que acreditam ser isso fruto de uma baixa capacidade de degustação cultural do povo em geral, sendo eles direcionados sempre ao mais raso, onde encontraram prazer mais fácil e sem a necessidade de um raciocínio mais elaborado em termos de interpretação e crítica. Lógico, estamos apresentando aqui um panorama geral, existindo sim um mercado relevante voltado especialmente ao oposto desta situação.

Agora pense, se  existe uma aceitação muito maior do público leitor – que já é bastante reduzido em mercados como o brasileiro -, por obras mais simples em termos líricos, você acha que as editoras irão apostar mais em livros opostos à isso, com elementos mais complexos em sua composição? Não, evidentemente. No entanto, é preciso ressaltar que elas investem sim nesse tipo de produção, porém, de uma forma bem menos intensa, visto a necessidade de lucros para manter a estrutura necessária à produção envolvida. Fora isso, existem diversos nuances que devem ser levados em consideração quando se pensa nesta possibilidade de publicação por grandes selos. Por exemplo, atualmente, existe uma chance bem maior de aceitação editorial à um autor, caso ele já possua uma gama de fãs considerável, que sejam além de consumidores, divulgadores do futuro livro. Estando, nesse caso, em último plano a qualidade literária da obra envolvida. Desta forma, o reconhecimento trazido de outra mídia, constitui elemento agregador à esse pretenso autor, em detrimento daquele devotado unicamente à produção literária. Óbvio que isso não desfavorece plenamente esta produção, mas aumenta consideravelmente a chance de termos livros medianos, ou ruins, publicados e muito distribuídos, unicamente pelo apelo do autor junto ao público.

A obra vai bem além de seu projeto gráfico, lembre disso.

A obra vai bem além de seu projeto gráfico, lembre disso.

Evidente que o fato varia muito dependendo da proposta editorial da instituição. Assim, algumas editoras podem se especializar apenas em publicar clássicos estrangeiros – ignorando de maneira solene a produção nacional -, enquanto outras podem demonstrar uma preocupação maior em lançar novos autores, enriquecendo o mercado. Todavia, o que se percebe por aqui é uma maior concentração de novos autores – independente da qualidade de suas obras -, em pequenas editoras, ou publicando de maneira independente. Constituindo fator estranho, por vermos no catálogo das grandes, ou médias, editoras livros de caráter duvidoso, ou incluídos ali somente pela tendência do mercado por temas ou arquétipos pré-estabelecidos por uma obra maior, condutora do gosto leitor em geral. Bom, chegamos à outro aspecto importante nessa relação, a tendência editorial. Independente de qualidade, existe uma chance maior de se chegar à uma grande editora, caso a obra esteja dentro do tema da moda, vigente em maior escala no mercado literário, ou em outra mídia. Desta forma, se um grande filme de vampiros explode na mídia, será publicada um cânone imenso de livros relacionados ao tipo, tendenciando a produção artística e leitora, em parte.

Como citei no começo desse texto, o objetivo aqui não é denegrir as editoras, mas explicar porque algumas delas seguem determinadas propostas editoriais que podem parecer confusas ao leitor mais informado sobre o mercado. Vendo a questão por uma ótica mais superficial, o lucro é um dos aspectos mais importantes para estas instituições – quando não o mais -, claro, e elas não estão erradas em buscar isso. A controvérsia pode ser estabelecida por vezes quando a ânsia pelo ganho financeiro excluí a preocupação com a qualidade, diversidade, e relevância do produto oferecido ao cliente, no caso, o leitor. Felizmente, algumas das grandes instituições ligadas ao livro no país tem procurado balancear esse nível das obras publicadas, buscando lançar uma com alguma relevância literária em paralelo à outras de maior apelo comercial. Muito embora, quando os grandes destaques das famigeradas listas de mais vendidos são compostas por obras ralas em termos de qualidade literária, percebe-se a verdade de nossa afirmação acima, relacionada ao maior apelo junto ao público de livros mais fáceis em termos de retórica.

Fato é que existem sim obras de grande qualidade nas grandes editoras, sem dúvida. Porém, classificar os livros que chegam ao ápice de serem publicados neste grandes selos como os melhores em determinado mercado, no caso o brasileiro, seria no mínimo um engano ingênuo. Como citamos, existem diversos fatores que influenciam a adoção de um autor pelos maiores nomes, e nem sempre a qualidade é o preponderante para isso.

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