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A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão esses fatos e a sua verdade admitida deve firmar para sempre a autenticidade e dignidade das narrações fantásticas de horror como forma literária.

  – Howard Phillips Lovecraft, O Horror sobrenatural na literatura

Poster de "The Mist" ("O Nevoeiro", 2007)

Poster de “The Mist” (“O Nevoeiro”, 2007)

Howard Philips Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft

Com esse argumento, H.P. Lovecraft (Ago/1890 – Mar/1937) define o significado do medo para o animal humano. Segundo o autor, quaisquer outras emoções estariam diretamente relacionadas àquela por ele considerada a sensação primordial.

Desde a aurora do homem, o medo tem caminhado lado a lado com nossa (e muitas outras) espécie. Nossos ancestrais temiam arriscar-se à noite (nos mesmos locais onde cainhavam livremente durante o dia), oravam para relâmpagos e trovões, para ventos fortes e tremores de terra conferindo-lhes características divinas por um único motivo: o medo.

Essa emoção primal, tão arraigada no espírito humano, é o motor de algo chamado “instinto de autopreservação”, definido com a capacidade de qualquer ser vivo em fazer o possível para garantir a própria sobrevivência. No entanto, a preservação de si mesmo pode significar o sacrifício de outrem em situações-limite.

Capa de "Weird Tales", Out/1927

Capa de “Weird Tales”, Out/1927

Se o homem decidiu agrupar-se em clãs, para depois dar origem à famílias, foi exclusivamente pela necessidade de sobrevir a seus predadores e à fome. É difícil imaginar, hoje, quando nos tornamos os senhores incontestáveis da esfera na qual habitamos, que em algum momento nossos ancestrais eram obrigados a deslocar-se em bandos, por temer o ataque de feras ou amontoavam-se em cavernas úmidas para fugir da escuridão. Atualmente, somos obrigados a andar em bandos, espremidos no interior de transportes coletivos (trens, ônibus, navios), bem como nos encastelar atrás de muros e grades para escapar de outra estirpe de criaturas perigosas. Isso, certamente, causaria o mesmo espanto a esses indivíduos.

Nos alimentamos por termos medo. Reproduzimos por termos medo. Buscamos companhia por termos medo. Nos voltamos a crenças da mais variada sorte por termos medo. Dessa forma, Lovecraft explora, em sua obra, aquele considerado por ele um dos (senão o) maior de todos os temores do animal humano: o desconhecido.

Capa de "Weird Tales", Jan/1937

Capa de “Weird Tales”, Jan/1937

Criador de uma mitologia vasta (“Cthulhu Mythos”; “Os Mitos de Cthulhu”), onde deuses chamados “The Old Ones” (“Os Grandes Antigos”), que habitaram a Terra em épocas remotas da história de nosso planeta, são adorados por seitas nas quais cultistas tentam (a todo custo) trazê-los novamente a este mundo. Os personagens lovecraftianas jamais saem ilesos ao contato (ainda que mínimo) com os “Grandes Antigos”. Em suas narrativas, o homem comum, tanto quanto você e eu, é constantemente deparado ao insólito, o obscuro ou o fantástico. A insanidade é algo presente e a atmosfera dos textos, sufocante. Lovecraft é o precursor do horror cósmico, no qual as entidades são criaturas extra-planares, seres de além do nosso universo e entendimento, dispõe-se numa mitologia única até hoje.

Ele, Robert E. Howard (Jan/1906 – Jun/1936), bem como uma centena de outros (boa parte deles foi esquecida com o passar da décadas) publicaram seus primeiros textos em revistas pulp (Weird Tales, dentre outras), trazendo ao leitor conhecimento acerca de coisas que o ser humano jamais deveria confrontar. Uma das características de Lovecraft é tratar do psicológico humano em suas histórias. O autor mergulha nos preâmbulos mais negros da psique das pobres almas que tiveram seus caminhos cruzados com os planos dos “Grandes Antigos”.

Capa de "Weird Tales", Dez/1936

Capa de “Weird Tales”, Dez/1936

Na obra de Lovecraft, o desconhecido é tema recorrente. Sempre temos algo a descobrir sobre Cthulhu (aquele que não está morto, apenas dorme e sonha) e os demais antigos. A atmosfera onírica, onde nada é, de fato, o que parece ser numa primeira leitura, é outro ponto marcante em seu trabalho. Um detalhe importante é o de que o zumbi moderno (cadáveres famintos reanimados a partir de compostos químicos), é criação sua.

Descrevendo os terríveis experimentos do médico Herbert West (“Herbert West – Reanimator”, 1922), o autor dissocia a magia negra da figura do morto-vivo, rompendo com os padrões tradicionais até sua época e formando a base para escritores e cineastas como George Romero (Fev/1940), criarem seus próprios universos.

Cthulhu, por Michael Kormack

Cthulhu, por Michael Komarck

Stephen King

Stephen King

Em 1980, o autor de horror norte-americano Stephen King (Set/1947) escreve uma noveleta definida por ele como uma homenagem ao mestre do horror H.P. Lovecraft e sua mitologia. Intitulado “The Mist” (“O Nevoeiro”), narra as agruras e o pavor de uma comunidade ao ser exposta a seres muito semelhantes aos Grandes Antigos da mitologia lovecraftiana.

A adaptação para o cinema “The Mist” (“O Nevoeiro”, 2007), dirigida por Frank Darabont (Jan/1959) e protagonizada por Thomas Jane (Feb/1969) no papel de David Drayton guarda muitas semelhanças com o original. As diferenças notáveis são algumas das criaturas (que existem somente na película) e na drástica alteração do final, seguindo um rumo bem diferente (e tão impactante quanto), da obra na qual foi inspirada.

Republicado, anos depois, como parte da coletânea “Skeleton Crew” (“Tripulação de Esqueletos”, ed. Putnam, 1985), “The Mist” acompanha David Drayton na manhã seguinte a uma noite na qual a comunidade de Bridgton (uma pequena cidade localizada no estado norte-americano do Maine) foi atingida por uma tempestade incomum. Após breve discussão com Brent Norton (seu vizinho) acerca do estrago causado pela queda das árvores das propriedades de ambos, parte com ele e seu filho para o armazém no cento da cidade.

Capa de "The Mist", 1980

Capa de “The Mist”, 1980

Ao chegar, ouvem as pessoas comentando sobre a atividade incomum da polícia e exército na região desde o amanhecer. As coisas transcorrem como de costume, até a chegada de um homem com o nariz sangrando, dizendo que algo no nevoeiro atacou um conhecido. A seguir, os presentes veem uma névoa espessa cobrir toda a área do estacionamento e arredores. Pouco depois, o mercado é sacudido por violentos tremores e seus ocupantes podem ouvir gritos de pavor vindos do interior da névoa.

Capa da 1ª edição de "Skeleton Crew", 1985

Capa da 1ª edição de “Skeleton Crew”, 1985

A partir desse ponto, o autor começa a explorar as reações de cada indivíduo no local ao confinamento, o fenômeno (aparentemente) inexplicável a que foram submetidos e o desespero por não ter notícias dos amigos e entes queridos nas suas residências ou nas ruas da cidade quando Bridgton foi engolfada pelo nevoeiro. Uma mulher pede ajuda para encontrar os filhos e, ao receber uma negativa silenciosa dos companheiros de infortúnio, parte ao desconhecido no exterior da loja.

Os grupos passam a se dividir, de acordo com as ideias de seus “lideres”. Há os céticos, como Norton, que creem tratar-se apenas de um evento da natureza. Outros, como a fanática Sra. Carmody (no conto, sua idade é 78 anos. No filme, tem apenas 39), que acreditam piamente quanto ao evento tratar-se do apocalipse, o castigo divino sobre os homens cujos corações esqueceram-se dele. E alguns, a exemplo de Drayton, interessados apenas em sobreviver àquela bizarra tribulação.

Mrs. Carmody ("The Mist", 2007)

Mrs. Carmody (“The Mist”, 2007)

Brent e seus “seguidores” decidem aventurar-se no nevoeiro, convencidos de que retornarão em segurança a seus lares e os demais “farão papel de tolos” ao permanecer. Drayton falha em dissuadí-lo e o grupo de Norton abandona o mercado. Mal dão os primeiros passos e são atacados por uma criatura no meio da névoa (quem permaneceu na loja não pode vê-la por conta da espessa bruma recobrindo a área). Os gritos de pavor e desespero são terríveis e servem para avisar a todos quanto aos perigos no desconhecido.

Após diversos incidentes onde os ocupantes do mercado são obrigados a enfrentar as criaturas do nevoeiro (seres no estilo lovecraftiano), como os “Tentáculos do Planeta X” (criaturas dotadas de tentáculos com garras e dentes), os “Pterourubus” (uma mistura da ave pré-histórica chamada “pterodáctilo” e o urubu moderno.) as “Moscas-Escorpião” (escorpiões alados) ou os terríveis “Viúvos Cinza” (criaturas semelhantes a aranhas, com o tamanho de cães, que secretam teias ácidas). As “Moscas Verdes” e as “Pipas Assassinas” (seres parecidos com pipas, vistos planando os céus cobertos pela névoa) são exclusividade do texto. Já as Aranhas Gigantes (criaturas que aparecem próximo ao final da adaptação cinematográfica), foram especialmente criadas para o filme.

Cena de "The Mist", 2007

Cena de “The Mist”, 2007

Cartaz de "The Mist", 2007

Cartaz de “The Mist”, 2007

A partir desse momento, a histeria religiosa começa a espalhar-se pelos sobreviventes, criando um cisma entre os indivíduos sitiados na loja. De um lado, as pessoas ainda racionais (como Drayton e um pequeno grupo) e, do outro, os seguidores da Sra. Carmody, entregues ao fanatismo professado por sua “líder”. As tensões passam a ser insuportáveis, pois a tênue linha separando razão e insanidade está prestes a ser rompida. Um dos membros do grupo de Drayton relaciona (a partir de boatos sobre experimentos científicos visando contatar realidades/universos paralelos), o nevoeiro e suas criaturas a um projeto militar nas montanhas próximas à comunidade, enquanto traçam um plano de fuga.

Ao finalmente conseguirem escapar do mercado, David e seus companheiros deparam-se com um mundo tocado pela misteriosa névoa e os seres trazidos consigo. Devastação, teias, cadáveres devorados e veículos abandonados. O cenário é o mesmo, quilômetro após quilômetro. Nesse ponto, o filme assume um caminho diferente ao do texto original, não deixando a dever em nada aos trabalhos de Howard Philips Lovecraft.

Trailer de “The Mist” (“O Nevoeiro”, 2007):

Capa de "Tripulação de Esqueletos", 2008

Capa de “Tripulação de Esqueletos”, 2008

A obra foi publicada no Brasil editora Objetiva. A edição citada nesse artigo é a da coletânea intitulada “Tripulação de Esqueletos” (2008), um volume com 624 páginas do selo Suma de Letras.

“The Mist” é uma obra onde a natureza humana é exposta e, percebemos, que os piores monstros não são parte de uma fauna alienígena e, sim, aqueles a quem tratamos como pares. Leitura e filme recomendados a quem é fã do horror e deseja ver uma adaptação moderna dos escritos de Lovecraft. Recomendadíssimo.

Créditos:

Vídeo: Trailer de “The Mist”, 2007  (propriedade da Dimension Films, Darkwoods Productions e The Weinstein Company).

Trilha sonora: “Whon’t Somebody see a Lady Home?” (parte integrante do filme “The Mist”, 2007, por Mark Isham).

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