LOADING

Type to search

Share

void

Nos séculos que separam a submersão da Atlântida da fundação de Jericó, uma terceira civilização surgiu em outra região do mundo – formada por nove cidadelas forjadas de rochas do deserto e areia.Cada uma constituía um reino independente, em guerra com todos os outros… Até a chegada dos Lordes Negros.

Eles eram feiticeiros – chamados Koth, Hemuth, Eeyod e Zefarr – e se consideravam sobreviventes do continente perdido, donos de seus segredos esotéricos. Eles se uniram e conquistaram nove poderosos exércitos, vencendo toda a resistência com o fogo de suas mãosEles unificaram as cidadelas através da escravidão. E, das torres sombrias de sua fortaleza chamada Kur, os Lordes Negros governaram por mil anos. Agora, entretanto, seu império está em declínio.

(extraído da página inicial de “Void Indigo”)

Steve Gerber

Steve Gerber

O pós vida sempre figurou como uma das maiores preocupações do animal humano desde que seu cérebro desenvolveu os processos cognitivos hoje nomeados consciência. Desde as primeiras manifestações, até os funerais modernos, o homem dedicou espaço importante à especulação do porvir, do que haveria para nós quando nossa existência física encontrasse seu crepúsculo.

Tal conceito é apresentado nos mitos das mais diversas civilizações, separadas pela geografia e/ou tempo. Os egípcios expressavam sua ideia de post mortem dedicando-se à construção de túmulos onde pertences e mesmo escravos eram sepultados junto de seu proprietário, para que sua vida no mundo subterrâneo, governado por Osíris, fosse tão abastada quanto no mundo dos vivos; os gregos, dos quais relatos acerca do Rio Estige e do barqueiro Caronte sobreviveram milhares de anos; os escandinavos (ou nórdicos), cuja crença no Valhalla e em Hell permeava o imaginário dos nativos daquela cultura com histórias acerca das recompensas destinadas aos afortunados que tombavam em combate (Valhalla) e os horrores (Hell) aguardando aqueles cuja morte era considerada indigna (velhice ou doença).

Allan Kardec

Allan Kardec

Doutrinas não tão antigas, como o kardecismo afirmam haver algo; afirmam que a morte é apenas um estágio transitório nas inúmeras passagens do espírito humano por esse mundo, em busca de aprendizado e/ou purgar o mal feito em vidas anteriores.

Os anos entre o final do século XIX e princípio do seguinte assistiram a uma explosão de indivíduos alegando poder comunicarem-se com os mortos; pessoas reunindo-se para contatar os espíritos de entes falecidos em reuniões fechadas (as chamadas mesas), além de relatos sobre encarnações e/ou experiências passadas. O post mortem sempre fascinou nossa espécie e, em breve, a fronteira final provavelmente será o campo onde necronautas se aventurarão, em busca de respostas acerca de nosso destino após a morte física.

Capa de "Void Indigo", 1984

Capa de “Void Indigo”, 1984

Dentro dessa temática, o roteirista Steve Gerber (Set/1947 – Fev/2008), auxiliado pelo traço do artista Val Mayerick (Mar/1950), nos apresenta a história “Void Indigo” (1983), cuja publicação original foi na edição nº 11 da série Marvel Graphic Novel da editora norte-americana Marvel Comics.

A história começa num cenário típico aos fãs de Robert E. Howard (Jan/1906 – Jun/1936) e do gênero Sword & Sorcery (“Espada e Feitiçaria”): nove reinos, formados cada um por cidades-estado rivais entre si surgiram numa era mítica, datada pelo autor no período entre a submersão da Atlântida e a fundação da cidade de Jericó, foram dobrados e unidos pelo poder de três magos (sobreviventes do antigo continente do qual a lendária cidade perdida fizera parte num passado remoto).

Acompanhamos o fim do império criado pelos feiticeiros malignos Koth, Hemuth Eeyod e Zefarr pelas mãos do guerreiro Athagaar e seu exército de bárbaros do norte que, empurrados por uma era glacial, desceram até os desertos onde erguem-se as nove cidades. Podemos comparar esse evento às invasões de Vândalos, Ostrogodos e Visigodos no território romano, forçados pelos Hunos a avançar cada vez mais à oeste (e dentro dos domínios de uma Roma já decadente).

Arte de Void Indigo, por Val Mayerik

Arte de Void Indigo, por Val Mayerik

O quarteto mantém seu poder e juventude através dos séculos, absorvendo a essência vital de jovens sacrificados num ritual extremamente doloroso. Todavia, acabam por descobrir(motivo de total desespero), que após milênios sob seu controle, os habitantes do reino tornaram-se indivíduos apáticos e sem força de vontade.

Os Lordes Negros, por seu turno, decidem sequestrar o próprio Athagaar, imaginando sua força vital ser bastante para conceder-lhes o poder necessário a fim de rechaçar o ataque dos bárbaros e, a seguir, aprisionar o máximo possível de indivíduos cuja vontade poderia garantir uma nova era de supremacia sobre o mundo. Nesse ponto, “Void Indigo” assemelha-se bastante aos textos de REH e L. Sprague de Camp (Nov/1907 – Nov/2000), pois os quatro invadem os aposentos do líder bárbaro, na fortaleza escolhida pelo inimigo como sede de seu reino e, utilizando-se das artes negras, conseguem subjugar tanto Athagaar quanto sua companheira.

Os magos, então, dão início ao rito. Ren é a primeira a sofrer os mais degradantes suplícios nas mãos dos governantes das cinco cidadelas ainda sob o jugo do mal. Para o regozijo de seus algozes, a jovem não cede às torturas, lutando para manter-se viva até o amanhecer. Athagaar é o próximo e, como esperado por seus captores, apresenta resistência incomum a todo sofrimento que lhe é imposto.

O suplício de Athagaar

O suplício de Athagaar

A destruição de Kur, por Val Mayerik

A destruição de Kur

Próximo ao fim do martírio, o guerreiro amaldiçoa os carrascos, jurando caçá-los por toda a eternidade até, finalmente, vingar-se do mal praticado contra ele e Ren. Quando os magos creem ter concluído o ritual e extraído toda a essência de vida dos jovens Athagaar, num derradeiro esforço, ergue-se do altar onde fora sacrificado, para lançar-se sobre a fonte de poder dos Lordes Negros, danificando-a. O estrago é irreparável; sem aviso, a energia contida no interior do receptáculo escapa e, sem os magos para controlá-la, acaba por destruir toda a civilização de Athagaar antes do amanhecer.

Numa colcha cerzida com teorias acerca do além túmulo, canibalizadas de várias mitologias, o autor narra o que é feito dos espíritos de Ren, Athagaar, dos feiticeiros malignos e de todos os infelizes habitantes das nove cidadelas tragadas ao esquecimento, quando o bárbaro destruiu o vaso no qual todo o poder de seus inimigos estava contido. As vozes de todas essas almas clamam por justiça, exigindo que Koth e seus asseclas sejam punidos pelos delitos.

Gerber explica que, com o passar das eras, os espíritos dos envolvidos na catástrofe são espalhados através do globo e mais além. Nos onze milênio seguintes, suas vidas transcorrem sem recordarem-se de seus papéis num passado remoto; ignorando sua origem, apenas vagam pelo oceano da existência, sem jamais reunirem-se novamente.

A Esfera das Almas

A Esfera das Almas

Página da série Void Indigo, 1984

Página da minissérie Void Indigo, 1984/85

Esse ciclo infindo de vida/morte/renascimento é alterado quando um ex-atleta hospitalizado envia sua forma astral ao espaço, em busca da essência de Athagaar (nessa encarnação, habitando o corpo do alienígena Jhagur). Seu objetivo é atrair o guerreiro à Terra, para que possa cumprir sua vingança e libertá-los do karma eterno.

“Void Indigo” mescla elementos (já citados) de Sword & Sorcery, da doutrina criada por Allan Kardec (Out/1804 – Mar/1869) e ficção científica. Steve Gerber é conhecido por seus trabalhos na Marvel Comics durante os anos 70 e pela polêmica quanto à criação de “Howard, The Duck”.

Capa do nº 1 da minissérie "Void Indigo", 1984

Capa do nº 1 da minissérie “Void Indigo”, 1984

A obra ganhou, após a Graphic Novel, uma minissérie prevista para seis edições (com roteiro de Gerber e arte de Mayerik). No entanto, a má recepção da crítica e distribuidores (consideraram a violência do álbum excessiva aos padrões da época) ao número 1 de “Void Indigo” (Marvel Comics, 1984) culminaram em vendas extremamente baixas e a ameaça de cancelamento.

Após a publicação do segundo número e mais reações adversas (Bob Ingersoll chegou a citar a revista, em sua coluna, como “um crime contra a humanidade”), os editores do selo Epic (encabeçados por Archie Goodwin; Set/1937 – Mar/1998) cederam à pressão e decidiram pelo encerramento prematuro da série. As edições 3 a 6 jamais foram concluídas, deixando-nos sem saber se Athagaar conseguiria (ou não) levar sua vingança a cabo.

Capa do nº 2 da minissérie "Void Indigo", 1985

Capa do nº 2 da minissérie “Void Indigo”, 1985

Um fato interessante sobre “Void Indigo” é que seu criador a escreveu, de forma inicial, para o personagem alienígena da editora norte-americana DC Comics Hawkman (“Gavião Negro”). Outra curiosidade foi, numa releitura de suas antigas colunas, o próprio Bob Ingersoll (Out/1952) admitir ter tirado conclusões “bastante inadequadas” sobre o trabalho de Gerber, embora ainda considerasse que a série deveria ser “deixada para outro momento”.

No Brasil, o álbum foi publicado pela editora Abril, com o título “Void Indigo: Prelúdio de uma Vingança”, como décimo número da extinta “Série Graphic Novel”.

Capa de "Void Indigo", ed. Abril, 1989

Capa de “Void Indigo”, ed. Abril, 1989

Polêmicas à parte, li essa obra pela primeira vez no distante 1989. O garoto de 14 anos daquela época viajou através das eras aguardando, ansioso, para ver o guerreiro Athagaar/Jhagur cumprir sua vingança contra os Lordes Negros. Como foi emprestada de um amigo, só a reencontrei outra vez num sebo, durante uma visita a São Paulo, na época do lançamento da segunda edição de meu primeiro livro (“Criaturas”, 2011) na cidade. Saudosismo, nostalgia, o que seja: aos 36 anos, me vi transformado naquele menino que deixei em 1989, torcendo para o bárbaro de Steve Gerber  cumprir a promessa feita onze milênios atrás e destruir os Lordes Negros do mesmo modo como eles o fizeram a Ren e seu mundo. E ainda estou esperando…

Créditos:

Trilha sonora: “Enthrall” (parte integrante do álbum “Hexerei Im Zwielicht Der Finsternis”, 2008, por Aghast).

Tags:
Previous Article