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“As sementes da ‘little war’ (‘guerra dos pequenos’) foram plantadas em um verão agitado durante meados dos anos 1960, com protestos e manifestações estudantis nas quais a juventude havia testado a sua força. No início da década de 1970, mais de 75% das pessoas que viviam na Terra eram menores de 21 anos de idade. A população continuou a subir e, com isso, a percentagem de jovens.

Na década de 1980 o valor era de 79,7%.

Na década de 1990, 82,4%.

No ano 2000 – massa crítica. “

Extraído de “Logan’s Run”

William F. Nolan

William F. Nolan

Muito antes da Matrix escravizar a humanidade (extraindo a energia bio-elétrica gerada a partir dos processos químicos em nossos corpos), aprisionando-nos em uma simulação do século XX ou a Skynet concluir sermos a forma de vida mais perigosa do planeta e decretar nosso extermínio como a unica solução viável para garantir sua preservação, William F. Nolan (Mar/1928) e George Clayton Johnson (Jul/1929) criaram uma distopia futurista na qual os remanescentes da raça humana vivem num mundo onde máquinas realizam toda sorte de trabalhos, além de controlar até os mínimos aspectos da sociedade no distante 2116.

Em “Logan’s Run” (“Fuga no Século XXIII”, 1967; A marcação do século no título em português corresponde ao filme, cujo enredo é ambientado no ano 2274 – séc.XXIII – mais de cem anos no futuro em relação à trama original), acompanhamos Logan 3 numa sociedade onde há uma política inflexível quanto a idade de seus habitantes (como sequela do conflito responsável por modificar o planeta no início do século XXI): quando atingem vinte e um anos, os cidadãos chegam a seu “Lastday” (“Último Dia”), são conduzidos aos Sleepshops (“Casas do Sono”) para morrerem através dos efeitos de um gás extremamente tóxico mas que, no entanto, causa uma sensação de prazer incrível à vítima.

George Clayton Johnson

George Clayton Johnson

O controle é feito através de dispositivos implantados nas palmas de suas mãos direitas logo após o nascimento (a “palm flower”“flor palmar”), cujo brilho indica a qual faixa etária pertence o indivíduo. As cores se alteram a cada período de sete anos, e são: amarelo (de 0 a 6 anos), azul (de 7 a 13 anos), vermelho (de 14 a 20 anos), piscam em vermelho e preto no “Último Dia”, e finalmente preto aos 21.

Nolan e Johnson criam uma ambientação na qual os cidadãos desse mundo estão perfeitamente integrados e tratam o “Lastday” como um fato corriqueiro. Não há, também, laços sociais como “pais” e “mães”. As novas gerações são “cultivadas” através de reprodução in vitro (o que lembra “Brave New World” – “Admirável Mundo Novo”, 1932, de Aldous Huxley; Jul/1894 – Nov/1963) e há apenas designativos numéricos para definir qual a “versão” daquele indivíduo.

Seu comportamento em relação ao meio também recorda outra sociedade: os Elois, presentes na obra “The Time Machine” (“A Máquina do Tempo”, 1895), de H.G. Wells (Set/1866 – Ago/1846). Assim como estes últimos, a humanidade em “Logan´s Run” não questiona, não evolui e/ou pondera acerca de como são mantidos, seus desejos satisfeitos e/ou novos elementos chegam para suprir o espaço deixado pelos que alcançam o “Último Dia”. Não há conflitos ou cismas. Não há fome, miséria ou ganância. Não existe religião ou o conceito de posse e ciúme. “Tudo é de todos e todos são de todos”.

Capa da reimpressão de "Logan's Run", ed. Bantam Books, 1977

Capa da reimpressão de “Logan’s Run”, ed. Bantam Books, 1976

Capa da 1ª ed. de "Logan's Run" (Dial Press, 1967)

Capa da 1ª ed. de “Logan’s Run” (Dial Press, 1967)

Essa utopia, no entanto, não está livre da dissidência. Identificados como “Runners” (“Fugitivos”), há os que recusam-se a seguir para os Sleepshops quando chegam ao “Lastday”, agarrados à esperança de que há um lugar chamado “Santuário”, onde poderão viver além da idade pré-estabelecida pelos computadores no comando dessa civilização.

Para coibir as atividades dos rebeldes, existem os “Sandmen” (“Homens-areia”, alusão a um mito popular na cultura norte-americana, também conhecido como “João Pestana”, responsável por aspergir o “pó do sono” sobre os que estão prestes a dormir), com autoridade para caçar e executar os fugitivos. Para alcançar seus objetivos, estão equipados com um aparato conhecido por “The Gun” (“A Arma”), capaz de disparar um grande número de projéteis. A mais temida pelos “Runners” é chamada “Homer” (“Caseiro”) cuja munição penetra a carne, explodindo no interior do corpo de seu alvo, despedaçando-o.

Logan 3 é um “Sandman” (cujo nome oficial é “Deep Sleep Operator”) e praticante da arte marcial híbrida Omnite, o que o torna um assassino eficiente a serviço do governo. O desprezo dos cidadãos pelos “Fugitivos” é retratado de forma aberta pelos autores; durante a execução de um deles, Logan 3 e um parceiro fazem uma piada de mau gosto acerca dos motivos responsáveis por levar as pessoas a agir de um modo tão selvagem.

Desde a época na qual havia se tornado um “Sandman”Logan 3 estava satisfeito com sua condição e jamais contrariou os ditames dos computadores governando seu mundo. Sempre que tais pensamentos assaltavam sua mente, ele buscava distrair-se e, desse modo, evitar a dúvida crescente em seu íntimo.

Esquema da arma dos Sandmen

Esquema da arma dos Sandmen

Capa de “Logan’s World” (Dial Press, 1967)

Capa de “Logan’s World” (Bantam Books, 1977)

Quanto mais próximo de seu “Último Dia”, mais os questionamentos e as palavras dos “Fugitivos” acerca do mítico “Santuário” o assombram. Até que, quando a “palm flower” em sua mão direita muda para o negro, Logan 3 decide não se entregar ao Sleepshop, tornando-se um “Runner”.

Um ponto interessante na trama é o comportamento e posição ideológica de Logan se modificarem à medida que o fim se aproxima.  O desprezo cede lugar à empatia pelos “Fugitivos”, pois ele passa a entender as motivações de homens e mulheres por estender suas existências num espaço livre do controle das máquinas. Em sua fuga, Logan acaba sendo contatado por Jessica 6, seguindo com ela para um lugar onde supostamente estaria a entrada do “Santuário”.

Capa de “Logan’s Search” (Bantam Books, 1980)

Capa de “Logan’s Search” (Bantam Books, 1980)

As aventuras de Logan 3 foram continuadas em mais dois volumes: “Logan’s World” (“O Mundo de Logan”, 1977) e “Logan´s Search” (“A Busca de Logan”, 1980). Há, também, um e-book intitulado “Logan´s Return” (“O Retorno de Logan”, 2001) e dois romances jamais publicados “Logan’s Journey” (“A Jornada de Logan”), escrita por Paul McComas e “Logan Falls” (“A Queda de Logan”), de Jason V. Brock (Mar/1970). Há rumores de que George Clayton Johnson’s esteja trabalhando numa sequência para Logan’s Run intitulada “Jessica’s Run: A New Sequel for the Logan’s Run Universe” (“A Fuga de Jessica: Uma Nova Sequência para o Universo da Fuga de Logan”). A obra, segundo o autor, “ainda está em desenvolvimento”.

Houve uma adaptação cinematográfica para as aventuras de Logan 3“Logan’s Run”, dirigida por  Michael Anderson (Jan/1920) e estrelada por  Michael York (Mar/1942) no papel de Logan 5 (não 3, como na obra original), Jenny Agutter (Dec/1952), como Jessica 6, e Richard Jordan (Jul/1937 – Ago/1993) representando Francis 7. Também participa, num papel menor (a assistente do cirurgião, Holly 13), a atriz em ascensão na época, Farrah Fawcett (Fev/1947 – Jun/2009).

Cartaz de "Logan's Run", 1976

Cartaz de “Logan’s Run”, 1976

As diferenças entre a trama da película e o enredo original não são apenas no referente ao nome do protagonista: no filme de 1976, as cidades estão cobertas por redomas, onde qualquer tentativa de acessar o exterior é totalmente proibida, bem como a idade-limite para os cidadãos é trinta anos. Ao invés de serem conduzidos às Sleepshops (transformadas em locais com outra finalidade na versão cinematográfica), há um evento chamado “Carrossel”, no qual são vaporizados em meio a aplausos e ovações. Existe uma “promessa” de renovação, pois os habitantes da metrópole creem renascer em corpos mais jovens após a cerimônia para, assim, seguir em um novo ciclo de três décadas.

Jessica 6 (Jenny Agutter)

Jessica 6 (Jenny Agutter)

Os “Fugitivos” e a estrutura social são semelhantes às da obra de Nolan e Johnson. No entanto, Logan se torna um pária por imposição da inteligência central ao invés de ter decidido fugir ao completar vinte e um anos. Na adaptação, o personagem de Michel York tem vinte e seis anos e seu ciclo de vida é “acelerado” por meio de uma modificação arbitrária na gema em sua mão direita.

A partir daí, ele se infiltra no grupo de dissidentes do qual Jessica 6 faz parte e segue em busca do “Santuário”. Há diversas referências ao livro, como o androide BOX, responsável pela manutenção de um setor dedicado à registros criogênicos históricos ou a descoberta do quanto seu mundo não é tão perfeito como os computadores o fizeram crer por décadas. Após escapar da metrópole sob o comando das máquinas, ele encontra algo com que jamais havia sonhado e/ou conhecido antes: um idoso (interpretado por Peter Ustinov; Abr/1921 – Mar/2004).

Logan 5 e Jessica 6

Logan 5 e Jessica 6

Logan 5 (Michael York)

Logan 5 (Michael York)

Uma adaptação para a TV foi produzida a partir do filme, com Gregory Harrison (May/1950) interpretando Logan 5 e Heather Menzies (Dec/1949) como Jessica 6. A série teve uma temporada de 14 episódios (Set/1977 – Jan/1978), na emissora norte-americana CBS. Uma curiosidade interessante é que D.C. Fontana (Mar/1939) atuou como editora de enredo/roteiro e convidou vários outros roteiristas de “Star Trek” (“Jornada nas Estrelas, A Série Clássica”, 1966), bem como os autores do romance original para escrever os episódios do seriado.

“Logan’s Run” (“Fuga no Século XXIII”) inspirou dezenas de outras histórias, como “The Island” (“A Ilha”, 2005), dirigido por Michael Bay (Fev/1965), estrelado por Ewan McGregor (Mar/1971), no papel de Lincoln Six-Echo e Scarlett Johansson (Nov/1984), como Jordan Two-Delta. Os próprios Matrix (já citado), a série de livros e filmes “The Hunger Games” (“Jogos Vorazes”, 2008), “Maze Runner” (“Maze Runner – Correr ou Morrer”, 2009) ou a produção “In Time” (“O Preço do Amanhã”, 2011). Essas produções tem muito dos componentes da trama original de “Logan’s Run” em seu genoma.

The Renewal (O Carrossel)

The Renewal (O Carrossel)

Capa de "Logan's Run" nº 1 (Marvel Comics, 1977)

Capa de “Logan’s Run” nº 1 (Marvel Comics, 1977)

A obra de William F. Nolan e George Clayton Johnson também ganhou versões em quadrinhos, dentre as quais se destacam: a publicada pela editora Marvel Comics (“Logan’s Run”, 1977), com duração de sete edições. Artistas como George Pérez (Jun/1954), Mike Zeck (Set/1949), e Klaus Janson (Jan/1952) dentre vários, assinaram as ilustrações da série. Os roteiros foram escritos por diversos autores, destacando-se Gerry Conway (Set/1952) e John Warner (Dec/1952); e a adaptação em duas mini-séries de seis edições cada, entre Jun/1990 e Mar/1992, pela também norte-americana editora Malibu Comics de “Logan’s Run”“Logan’s World”, com arte de Barry Blair (1954 – Jan/2010).

Outra curiosidade é o termo “Little War” (“Guerra dos Pequenos”), denominação dada pelos autores ao conflito travado pela juventude da Terra nos primeiros anos do século XX, faz alusão ao conjunto de regras para uso em wargames (“jogos de guerra”) escritas por H.G. Wells em 1913, comum entre crianças e adultos do período.

Capa de “Logan’s Run” nº 1 (Malibu Comics, 1990)

Capa de “Logan’s Run” nº 1 (Malibu Comics, 1990)

Nesses combates, os jogadores comandavam exércitos representados por miniaturas de soldados, canhões e fortalezas, com o objetivo de derrotar o adversário (o análogo aos jogos online de estratégia dos dias atuais). Nolan e Johnson comparam as peças e seus jogadores aos comandantes das nações. Em “Logan’s Run”, os autores não deixam claro de qual modo e como seriam as armas utilizadas no conflito. A introdução é toda a informação que nos é passada sobre o evento.

“A Fuga de Logan” é um clássico da FC no qual seus criadores questionam os rumos de nossa sociedade e se a utopia, ao custo da liberdade de pensamento e escolhas é realmente válida, bem como nos confronta ao incômodo de vivenciarmos uma situação (Logan 3 e seu “Lastday”) vista ocorrendo apenas aos outros; de sentirmos na pele um evento sobre o qual temos um determinado conceito até conhecê-lo, de fato. Obra recomendada aos fãs de FC.

Trailer – “Logan’s Run” (“Fuga no Século XXIII”, 1976):

Trailer – “Logan’s Run – The Tv Series” (“Fuga no Século XXIII – A Série de Tv”, 1977-78):

Créditos:

Trilha sonora: “Opening Titles” (parte integrante do fime “Logan’s Run”, 1976, por Jerry Goldsmith).

Vídeos: Trailers de “Logan’s Run”, 1976  (propriedade da Time Warner Entertainment Company) e “Logan’s Run – The Tv Series”, 1977-78  (propriedade da CBS e Time Warner Entertainment Company).

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