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Automatic Kalashnikov 47

sergio 11 de agosto de 2015
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automatic-kalashnikov-47-luciano-tassoPara quem observa hoje o benéfico crescimento do mercado autoral de quadrinhos no Brasil, sendo cada vez mais valorizado em eventos pelo país inteiro – embora ainda possa melhorar muito, é bem verdade -, pode erroneamente achar que esse fenômeno é recente, e ajudado apenas pela popularização da nona arte entre o grande público, por meio da relação dele com outras mídias, como cinema e televisão. Sim, esse é um forte motivo para essa ascensão dos quadrinhos à passos largos entre o gosto do leitor brasileiro, jovem especialmente. No entanto, analisando o quadro geral, com todas as suas beneficies, é possível se concluir facilmente que seria impossível observar esta valorização não fosse o trabalho insistente, e de muita qualidade, de toda uma gama de ótimos artistas que trilharam (e ainda trilham) o árduo caminho da produção independente em um mercado pequeno e enxuto como o nosso. Assim, embora hoje vejamos o destaque de alguns nomes do quadrinho nacional, sendo popularizados e, inclusive, publicados fora o país, por muito tempo estes batalharam em escala menor, visando o aumento do público leitor, e da divulgação nesse ramo. Digo isso, pois esse é bem o caso de Luciano Tasso, especialmente, em seu quadrinho Automatic Kalashnikov 47, publicado ainda em 2011 pela (e) editorial.

Em suma, Automatic Kalashnikov 47 é uma comédia urbana surreal. Na grande e sufocante cidade, histórias paralelas se cruzam criando uma trama onde não existe um personagem central: o roubo de uma arma secreta, a mobilização popular provocada por fanáticos e o bar como lugar de encontro dos mais diversos tipos, refletindo a insanidade da vida. Uma leitura atenta revela detalhes, referências e citações que estão na vivência de cada leitor. Portanto, ao se aventurar nas páginas deste quadrinho não procure lógica, ou fortes embasamentos em sua concepção, ela está distante daqui. Podemos direcionar um protagonismo capenga ao detetive “freelancer” Cramer, que é envolvido no roubo de uma bomba, por ter sido contratado pela corporação Gemko, porém, outros personagens com igual força dividem as atenções ao longo do enredo, e tornam a trama um enlace combativo e ideológico que envolve desde a primeira página, como o “Castor” Ideo, líder de uma fanática seita religiosa, bastante verossímil às vistas nas madrugadas da programação televisiva no mundo real. Seguindo um clima de romance policial, a narração prende a leitura pelo mistério, e pelas inusitadas inserções do surreal, principalmente, relativa à determinados arquétipos surgidos ao virar das páginas.

O estilo preto e branco ajuda no clima nonsense do quadrinho.

O estilo preto e branco ajuda no clima nonsense do quadrinho.

Sobre isso, analisou bem Marcelo Campos, no prefácio da revista, afirmar que “Para mim, a forma como as metáforas apresentam questionamentos sobre a vida, críticas políticas, religiosas, estruturas sociais e comportamentais  tem poder de síntese de conceitos e apresenta possibilidades de mergulhos bem mais profundos nos temas que o autor pretende trabalhar, do que em histórias  e personagens mais realistas e bem embasados. Felizmente, estão retornando essas linguagens mais criativas , tanto no cinema e na literatura, quanto no quadrinho; esse álbum é um exemplo disso”. E mais, Luciano Tasso surpreende a cada novo personagem “nonsense” que apresenta; a cada ação inesperada; a cada fato ilógico, que tem toda a lógica do mundo. Gosto disso em um autor; quando ele cria personagens sem ter vergonha deles; sem esperar que os leitores “comprem a ideia”, se vão “engolir sua criatividade ou entender  do que ele está falando. Gosto de autores que não tem medo do que criam; não importa se é o que vemos, ou não, na realidade ela é real ali, naquele universo com suas próprias leis. Gosto do uso da realidade apenas como base, onde ela não se torna limitadora do criativo, da expressão livre de ideias, e onde a critica pode ser feita de maneira até mais ácida e profunda do que se espelhasse apenas o que vemos no dia-a-dia. E o melhor, o autor não utiliza esse nonsense como muleta porque na verdade não sabe contar uma história, ao contrário, ele é ferramenta estética do trabalho, da estrutura do universo; é por que ele que o autor quer trafegar.

Tumulto e violência são aparições especiais no enredo.

Tumulto e violência são aparições especiais no enredo.

Coerente às afirmações acima, sem dúvidas o surpreendente à matéria prima essencial nesta criação de Luciano de Tasso. E ela surge das maneiras mais inesperadas e chocantes possíveis, e mais, exaltadas pela normalidade previsível apresentada no cenário ali descrito. Por exemplo, em um típico bar de periferia, onde as pessoas se encontram em determinada hora do dia para descansar a mente e o corpo da insossa rotina diária, um hipopótamo pode ser visto bem acomodado sobre um dos bancos que adornam o balcão, ouvindo os lamentos de um velho e carrancudo português intolerante. E isso é um dos mais leves casos, acredite. Verdade que o autor segue uma trilha batida – o já citado romance policial -, usando este lugar comum para desconstruir conceitos, mesmo apegado em diversos momentos à uma verossimilhança arraigada, crível, capaz de relaxar quem lê para, logo em seguida, chocar, prender os olhos nos quadros. Tudo isso, adornado pela boa narrativa desenvolvida, em uma trama fluida, leve, embora tratando de temas pesados, como enumerado acima no texto.

Por fim, a leitura deste Automatic Kalashnikov 47 proporciona um alívio ao leitor, principalmente, à quem busca alternativas aos enredos engessados dos grande selos de super-heróis. O título apresenta em cerne a proposta do quadrinho autoral, ou praticado em pequenas e médias editoras, ou seja, cultivar um estilo mais livre de amarras e exigências de gênero ou estilo.

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