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iniciativa_3dt_definitivo_grande1Analisando o cenário plural visto hoje em termos de RPG no Brasil, é difícil pensar na existência de uma época onde a imensa maioria das mesas era dividida entre fantasia medieval (Dungeons & Dragons) e horror (Vampiro: a Máscara), tendo poucos representantes de outros sistemas e cenários – geralmente o Daemon, ou algum outro menor ainda. Além de caros, o que afastava muitos iniciantes do jogo, os livros básicos destes sistemas concediam poucas possibilidades em termos de regras e narração aos mestres. Isso pois, dedicados à expansão de suas ambientações, eles continham um dever com a coerência resguardada pelo próprio título e estilo de suas propostas. Destaco esse cenário, pois foi nele que surgiu uma alternativa diferente, barata e agregadora, responsável por mais uma mudança no paradigmas do RPG no país. Falo do famigerado 3D&T, ou Defensores de Tóquio 3ª Edição.

Criado em 1994 de forma despretensiosa por Marcelo Cassaro, editor na época da Revista Dragão Brasil – especializada em RPG -, o sistema era muito simples e fazia sátira aos heróis japoneses, com seu jeito espalhafatoso e colorido de ser. A sigla D&T (Defensores de Tóquio) remetia justamente á isso. Simples e fácil de ser aprendido por jogadores iniciantes, o sistema ganhou espaço muito rápido e, com apenas um ano, ganhou uma nova versão em revista, o AD&T, ou Advanced Defensores de Tóquio (fazendo referência direta ao clássico D&D de Dungeons & Dragons). Um pouco mais elaborado o sistema ainda era uma sátira direta aos desenhos e tokusatsus japoneses. Publicado no auge do sucesso de Cavaleiros do Zodíaco, o jogo começou (aos poucos) a ganhar ares de sistema genérico suscetível a qualquer adaptação.

Cor e pluralidade são marcar recorrentes dos cenários do sistema 3D&T.

Cor e pluralidade são marcar recorrentes dos cenários do sistema 3D&T.

E foi nas páginas da já citada Dragão Brasil que ele se estabeleceu como um dos mais jogados do país. Estabelecido como um sistema de regras que poderia ser usado em várias temáticas, começaram a ser lançadas diversas adaptações de filmes, games e desenhos japoneses. Nesse meio tempo a editora do jogo na época licenciou alguns games que saíram em livretos, e conquistaram um número enorme de jogadores. Street Fighter, Mortal Kombat, Darkstalker e Megaman ganharam suas versões para o sistema, e foram responsáveis por apresentar o RPG à milhares de jogadores Brasil afora. Graças à isso, a sábia aliança entre RPG e outras midias (Tv, Games, Cinema, etc) acabou se aproveitando da enorme divulgação destas  produções para promover o jogo de interpretação, e criando uma verdadeira geração de jogadores, além de desmistificar a fama ruim do jogo concedida por reportagens tendenciosas, publicadas algum tempo antes.

Nesse ponto eu sempre faço questão de enaltecer muito esse fato porque, assim como esses inúmeros jogadores, eu comecei á jogar com um dos livretos de Street Fighter para 3D&T e, posteriormente, narrar para outras pessoas. Outro fato que ajudou e muito o sistema, e facilitou demais sua enorme aceitação entre o público, foi o preço dos produtos lançados. O que você acha que era mais fácil para um jovem estudante de classe média baixa, como eu, comprar: uma revista de 3D&T do Megaman por cerca de 10 reais (se muito), ou um Vampiro: a Máscara por 50? Não é muito difícil de imaginar, não é?! Além desses atrativos, ajudou demais o jogo no Brasil o fato dos desenhos desenhos japoneses estarem em pleno sucesso no país. A enorme audiência destes produtos criou uma grama gigantesca de possíveis jogadores, criou eventos recorrentes no segmento, e certamente o RPG se aproveitou disso, o 3D&T principalmente.

Um dos cenários para o sistema, embora sua grande força sejam adaptações de animes e games!

Um dos cenários para o sistema, embora sua grande força sejam adaptações de animes e games!

A cada nova adaptação para 3D&T, uma legião de novos jogadores eram introduzidos ao hobby (embora sempre existisse quem criticasse o sucesso do sistema, claro). Isso é bem exemplificado quando se sabe das vendas da Dragão Brasil da época, em que, segundo Rogério Saladino (um dos editores da revista no período), os números que mais vendiam eram os que tinham alguma adaptação, para 3D&T, de desenhos japoneses – sendo a de Dragon Ball Z o ápice! Algum tempo após o lançamento das adaptações licenciadas, e de várias matérias expandindo o sistema nas páginas da Dragão Brasil, 3D&T ganhou seu primeiro módulo básico, que vinha como brinde junto à uma edição da revista. A partir daí o jogo só ganhou mais e mais admiradores (e alguns haters), mas seguiu sempre crescendo. Mais tarde o módulo ganhou mais duas versões: ampliada e turbinada, além de sempre evoluir em regra nas páginas da Dragão Brasil.

No entanto, houve um problema e o jogo foi deixado de lado por muito tempo. Acontece que o criador do sistema, Marcelo Cassaro, e os principais colaboradores, saíram da antiga editora, que acabou ficando com os direitos do jogo. E nesse momento que a verdadeira força do sistema, tão simples e sem maiores aspirações no começo, se mostrou com toda a sua força e determinação. Afinal, o que é de um jogo sem seus jogadores?! Durante o tempo em que esteve hibernando oficialmente, não pararam de surgir novos fãs e materiais extraoficiais de grande qualidade que, inclusive, atualizavam as regras e criavam novas adaptações. Com muita, ou pouca representação, a verdade é que mesmo sem o lançamento de materiais oficiais por muitos anos, o sistema continuou vivo, e presente em seu propósito maior: introduzir novos jogadores no RPG.

Ficha de personagem do sistema, tão curta que cabem duas numa única folha!

Ficha de personagem do sistema, tão curta que cabem duas numa única folha!

E constatando esse potencial a Jambô Editora, onde vinha trabalhando Marcelo Cassaro como editor da revista Dragon Slayer, se interessou em publicar uma nova versão do sistema. Feita uma revisão rápida, veio à tona no final dos anos 2000 o novo e remodelado 3D&T Alpha! Somente com algumas modificações bastante pontuais, o jogo teria agora um novo desafio: ganhar espaço em um cenário com bem mais jogos, e com concorrentes não tão caros e de grande qualidade. Entenda, na época em que saiu, o jogo tinha como concorrentes poucos e caros jogos, que tornava fácil a escolha dos jogadores com menos poder aquisitivo, e sem maior interesse em perder dias lendo tomos de mais de 200 páginas. Vendo os resultados até agora, diria que o desafio vem sendo vencido, e com êxito. Veja, disponibilizado de forma gratuita no site oficial da editora, o livro saiu em formato físico e, rapidamente, se esgotou! Pois é, o que propiciou em pouquíssimo tempo uma nova edição revisada. Além disso, novos suplementos oficiais vêm sendo lançados á cada semestre pela Jambô, todos com relativo sucesso de vendas: Manual do Aventureiro, Mega City Belonave Supernova e Brigada Ligeira Estelar são bons exemplos disso.

E mais um cenário para 3D&T, desta vez no espaço!

E mais um cenário para 3D&T, desta vez no espaço!

Falando nas regras do jogo, 3D&T usa um sistema bem simples e rápido de ser aprendido. A construção de personagem é muito fácil; são disponibilizados uma quantidade de pontos (geralmente 12) que são usados para distribuir entre os 5 atributos (Força, Habilidade, Resistência, Armadura e Poder de Fogo), que no inicio variam entre 1 e 5, e comprar Vantagens e Desvantagens, pronto. Existem outras pequenas coisas, mas basicamente é isso. O teste básico do sistema consiste em jogar um dado de seis lados (1d6) e tentar tirar um número MENOR ou IGUAL para ter sucesso. Por exemplo, para fazer um teste de Força o mestre define uma dificuldade (4 nesse caso), o jogador rola 1d6; se tirar 4 OU MENOS, ele teve sucesso no teste. Pronto! No combate, é tudo muito simples também, a rolagem consiste basicamente em Força de Ataque = Força (ou Poder de Fogo)+Habilidade+1d6 contraForça de Defesa = Defesa+Habilidade+1d6 do alvo.

Fato é que após todos estes anos, e muita discriminação sofrida no próprio meio rpgísta, 3D&T segue firme em seu propósito de formar novos jogadores graças, em muito, a fácil acessibilidade, grande potencial de adaptação à qualquer coisa, e custo baixo (ou gratuito) da maioria de seus materiais. Na nova fase, tendo a Jambô Editora como base de operações, o sistema cresceu, ganhou novos cenários, autores, e finalmente se consolidou. Claro, vivemos um meio plural em nosso cenário – como destaquei no começo do texto -, e hoje é bem mais fácil achar-se sistemas gratuitos, simples e eficientes para a inclusão de novatos no jogo, porém, goste ou não 3D&T tem o seu lugar em nossa história, e sua importância não pode – nem poderá, ser apagada da cronologia rpgísta de milhares de jogadores país afora!

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