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Jim Starlin

Jim Starlin

O sonho de alcançar as estrelas e encontrar raças alienígenas é cultivado pelo homem desde o momento no qual sua mente começou a teorizar acerca do que haveria no manto recobrindo seu mundo quando o sol mergulhava no horizonte.

Textos (religiosos ou não), onde tais encontros ocorriam, foram produzidos por dezenas de civilizações oriundas dos mais variados lugares do planeta: a “Epopeia de Gilgamesh”, trata do encontro desse herói sumério e deuses que possuíam “carruagens de fogo aladas”, o antropozoomorfismo egípcio e o alinhamento das pirâmides de Gizé com os astros do cinturão de Órion ou os “deuses-astronautas” dos povos pré-colombianos são um exemplo inegável da obsessão humana com o que estaria além da Terra.

A ficção científica foi o gênero literário/cinematográfico no qual essas teorias ancestrais encontraram um terreno fértil. Desde as aventuras de um piloto e seus companheiros num mundo alienígena, à luta de uma certa Aliança Rebelde para libertar uma galáxia muito, muito distante das garras do terrível Império Galáctico, historias povoadas por naves avançadas, armas de raios, teletransportadores e misteriosas civilizações alienígenas ocupam um lugar especial no imaginário de leitores e plateias ávidas por desbravar os segredos do universo.

A Odisseia da Metamorfose (ed. Devir, 2011)

A Odisseia da Metamorfose (ed. Devir, 2011)

Dentro dessa premissa Vanth Dreadstar, surgido nas páginas da edição nº 3 de “Epic Illustrated” (Epic Comics foi um selo para publicação independente da editora norte-americana Marvel Comics, em 1980), nos leva a uma guerra entre os zygoteanos (raça expansionista, cujo objetivo é predar os recursos naturais das esferas às quais domina) e representantes de planetas ainda livres do poderosíssimo adversário.

Natural de Byfrexia, um mundo gélido nos confins da Via-Láctea, Vanth é um indivíduo dotado de poderes incomuns (força, resistência e perícia em combate sobre-humanas), recebidos após um trágico acidente: quando adolescente, perde os pais durante o ataque furioso de ursos selvagens. Isolando-se nas montanhas ele reaparece, anos depois, brandindo a espada mística que é a fonte de seus poderes.

Nesse ponto, vemos semelhanças entre Dreadstar e, pelo menos, dois ícones da literatura/cultura pop: Arthur Pendragon (o famoso Rei Arthur, o portador de Excalibur) e Batman (o herói que se tornou órfão dos pais num assalto ocorrido em sua infância). Buscando completar a formação de um grupo capaz de opor-se aos zygoteanos, o mago Aknaton chega à Byfrexia para recrutar Vanth (aproximando-o ainda mais de Arthur, auxiliado por um mago em muitas das versões de sua lenda).

Epic Illustrated nº 3 (Marvel Comics, 1980)

Epic Illustrated nº 3 (Marvel Comics, 1980)

A exemplo de várias narrativas de aventura, Vanth Dreadstar é um “herói relutante”. Ele se opõe, num primeiro momento, à cruzada do mago para libertar a galáxia. O homem de Byfrexia alega não ser o guerreiro do qual ele precisa e que está satisfeito em defender seu planeta das ondas invasoras das tropas mercenárias zygoteanas.

Cada um dos membros da equipe reunida pelo feiticeiro é o resultado de “sementes” plantadas por ele milhares de anos antes, quando sua raça se preparava para enfrentar a investida final do exército zygoteano. Aqui, encontramos referências que todo leitor do gênero fantasia reconhecerá de imediato: os companheiros de Vanth são: Za, um homem-fera de intelecto ampliado por Aknaton, nativo de Tyjor, uma esfera árida e primitiva; Juliet (ou “Julie”), a última sobrevivente da Terra e Whis’par, filha do governante de um planeta conhecido como “O Mundo das Florestas” (sua beleza e as asas nas costas assemelham-na a uma fada).

Podemos notar, também, influência clara de Star Wars (“Guerra nas Estrelas”; George Lucas, 1977), Star Trek (“Jornada nas Estrelas”; Gene Roddenberry, 1966) e clássicos da FC como Buck Rogers (Philip Francis Nowlan, 1928) e Flash Gordon (Alex Raymond, 1934). Starlin confere aos seres, equipamentos e naves desfilando nas páginas da saga o visual retrô-futurista pelo qual é conhecido em seus trabalhos com Capitão Marvel (o guerreiro Kree Mar-Vell) e Adam Warlock (o homem artificial, criado pelos cientistas do Enclave) pela editora norte-americana Marvel Comics nos anos 70.

Arte de “The Metamorphosis Odyssey”, por Jim Starlin

Arte de “The Metamorphosis Odyssey”, por Jim Starlin

Página de "A Odisseia da Metamorfose", apresentando Whis'par

Página de “A Odisseia da Metamorfose”, apresentando Whis’par

Uma vez unido, o grupo segue Aknaton través da Via-Láctea em busca dos artefatos capazes de auxiliá-los a por fim na guerra dos famigerados “zygs” contra as demais espécies do universo. A trama nos guia através de combates sangrentos contra as forças do adversário, bem como a lugares exóticos da galáxia. Starlin leva seus personagens a discutir filosofia e ética, fazendo com que o leitor questione as ações de Aknaton e seus companheiros enquanto lutam para derrotar o inimigo.

Página de “A Odisseia da Metamorfose”, apresentando a origem dos zygoteanos

Página de “A Odisseia da Metamorfose”, apresentando a origem dos zygoteanos

O objetivo final dos “heróis” é localizar a mítica “Trombeta do Infinito”, instrumento com o qual poderiam encerrar, de uma vez por todas, a fome dos “zygs” pela essência dos mundos à mercê de sua poderosa armada. Outro ponto abordado na narrativa é a dominação ideológica de raças inteiras através de cultos religiosos. O “Zygoteísmo” era, segundo o autor, um câncer a ser extirpado da galáxia. Seus dogmas pregavam a exploração irrefreada e total de tudo que estivesse a seu alcance, o arrebanhar dos mais vis e covardes dentre os conquistados. O exército zygoteano havia se tornado a encarnação de tudo o que era pérfido na Via-Láctea.

A revelação da natureza dos algozes da galáxia é um aviso/previsão de Starlin acerca do que nos reserva o futuro, caso seja mantido o ritmo de exploração dos recursos naturais de nosso mundo, bem como o que ocorre quando os homens permitem a um pequeno grupo tomar as decisões pela maioria. Zygotéa é, em muitos aspectos, o porvir de um reflexo sombrio da Terra; um horror que pode, realmente, se concretizar caso o comportamento humano não seja alterado de forma radical e ampla.

Arte de “The Metamorphosis Odyssey”, apresentndo os orsirosianos, por Jim Starlin

Arte de “The Metamorphosis Odyssey”, apresentando os orsirosianos, por Jim Starlin

Epic Illustrated nº 1 (Marvel Comics, 1980)

Epic Illustrated nº 1 (Marvel Comics, 1980)

Um fato interessante é o de jamais vermos os líderes da frota invasora. Conhecemos, apenas, os mercenários recrutados entre as raças dos mundos alcançados por sua máquina expansionista. Eles são mostrados somente no princípio da narrativa acerca de suas origens como uma raça humanoide semelhante aos nativos da Terra, orsirosianos e byfrexianos. Outro detalhe é Vanth tratar-se de um coadjuvante (a saga tem início em Epic Illustrated nº 1 e o byfrexiano é apresentado, somente, em Epic Illustrated nº 3) nessa aventura. O mago orsirosiano é, de fato, o líder e mentor do grupo. O objetivo disso é explicado ao leitor (e ao próprio Dreadstar) num momento oportuno da narrativa.

Epic Illustrated nº 9 (Marvel Comics, 1981)

Epic Illustrated nº 9 (Marvel Comics, 1981)

Próximo ao fim da aventura, Aknaton revela aos companheiros o verdadeiro objetivo de sua cruzada e as implicações a cada membro do grupo. Mesmo reticentes, eles abraçam o plano do feiticeiro e partem rumo ao planeta conhecido pelo nome de “Sonho Findo”, onde acredita-se estar o centro místico da Via-Láctea.

Nesse momento, o mago explica, a cada um, sua verdadeira função no ardil cósmico posto em andamento milhares de anos antes por sua raça, quando ameaçados a primeira vez pelos terríveis zygoteanos. Za, Julie e Whis´par assumem os papéis destinados a eles muito antes de haverem nascido. Juliette confronta o orsirosiano: a jovem indaga por qual motivo foi escolhida e se seus atos realmente seriam o melhor para a galáxia. Segue-se um combate acirrado entre Vanth, seu aliado (e mestre) Aknaton e as forças desesperadas dos zygoteanos.

Inserindo, em vários momentos, teorias acerca de planos existenciais paralelos ao nosso, seres evoluídos a um estágio além da compreensão (considerados deuses pelas raças habitando a galáxia) e magia primitiva, Jim Starlin (Out/1949) confere um caráter místico à obra que narra a origem do guerreiro de Byfrexia. O desfecho da narrativa é chocante e faz jus ao título do encadernado, que reúne as edições de 1 a 9 da extinta revista “Epic Illustrated” (1980-81).

Dreadstar nº 1 (Marvel/Epic Comics, 1982)

Dreadstar nº 1 (Marvel/Epic Comics, 1982)

Ainda publicado pela editora Marvel Comics, Dreadstar viveria inúmeras aventuras depois em um título próprio no selo Epic (1982-86; 26 edições) e na edição nº 3 da série Marvel Graphic Novel (“Dreadstar”, 1982); nessa nova fase (sequência direta dos eventos apresentados em “Epic Illustrated”, edições 1-9), na qual o personagem se vê em meio a outra guerra, vem a confrontar seu maior e mais terrível inimigo: o líder da Igreja da Instrumentalidade, o famigerado Lorde Papal.

A saga do guerreiro de Byfrexia segue em publicações das editoras First Comics (1986-91; 38 edições, com numeração de capa iniciada em 27). A partir da edição 33 da série publicada pela First Comics, a arte fica ao encargo de Luke Mcdonnell (lápis) e Val Mayerick (arte-final); Na edição nº 41, Jim Starlin deixa o roteiro de seu personagem aos cuidados de Peter David (Set/1956). Malibu (1994-95; com 7 edições), nessa fase, David assume os roteiros, com arte de Ernie Cólon (Jul/1931); e, finalmente, SLG Publishing (com quatro edições publicadas entre 2000 e 2015: “The Methamorphosis Odyssey”, “The Price”, “Plan M” e “The Secret of Z”). Atualmente, o personagem de Jim Starlin encontra-se na casa editorial norte-americana Dynamite Entertainment.

Marvel Graphic Novel nº 3 (Marvel Comics, 1982)

Marvel Graphic Novel nº 3 (Marvel Comics, 1982)

Dreadstar também aparece na última página de “‘Breed III” (Image Comics, 2011; 7 edições) nº 5 e na edição nº 6 dessa revista ao lado de outras criações de Starlin, como Wyrd e Kid Kosmos formando o grupo chamado “Elsewhere Alliance”. Essa história também explica o desaparecimento de um personagem importante na cronologia do guerreiro das estrelas durante os eventos de sua última minissérie.

No Brasil, sua jornada foi publicada pelas editoras Abril (“Epic Marvel”, 1985-86; 6 edições), Globo (“Dreadstar, o guerreiro das estrelas”, 1990-91; 10 edições, Graphic Globo nº 1 – “Dreadstar, uma saga cósmica”, 1988 e Graphic Globo nº 10 –“Dreadstar Especial – O Preço”, 1992) e Devir (responsável pelo álbum “A Odisséia da Metamorfose”, 2011, com tradução de Leandro Luigi Del Manto).

Epic Marvel nº 1 (ed. Abril, 1985)

Epic Marvel nº 1 (ed. Abril, 1985)

Travei contato com o personagem por volta de 1986, graças à citada “Epic Marvel”. O mix da publicação trazia, também, as aventuras da “Legião Alien”. Na época, ao lado de “Esquadrão Atari” (DC Comics), eu o considerei a melhor revista em quadrinhos de FC na qual havia posto os olhos. Passadas algumas décadas, percebi que o artista/escritor havia criado um misto do universo Sword & Sorcery de Robert E. Howard (Jan/1906 – Jun/1936) e Space Operas como Flash Gordon e Star Wars.

Segundo o autor, a saga de Vanth Dreadstar ainda não encontrou o término. E, conhecendo Jim Starlin, é provável que o último guerreiro de Byfrexia retorne algum dia para, talvez, encontrar o descanso final numa derradeira e grandiosa aventura .

 

Créditos:

Trilha sonora: “Armory” (parte integrante do fime “Tron: Legacy”, 2010, por Daft Punk).

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