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“Skrotinhos”? Você já viu um? Quem são? O que comem? Onde vivem?

Angeli

Angeli

Um dos sentimentos que mais afligiu o animal humano, desde o desenvolvimento das chamadas “faculdades mentais”, foi uma crescente e terrível insatisfação com o meio a rodeá-lo. Em pouco tempo, nossos ancestrais primitivos chegaram à conclusão de que tudo não passava de uma bela porcaria e só muito saco pra aguentar a droga do mundo.

Em resposta a essas (e outras nem tão brilhantes divagações), Arnaldo Angeli (isso lá é nome de macho?) Filho – mais conhecido por Angeli (Ago/1956), deu luz à dupla mais odiosa e politicamente incorreta que já desfilou no “reino encantado” dos quadrinhos nacionais.

Surgidos em 1987 nas páginas da extinta publicação “Chiclete Com Banana” (Circo Editorial, 1985), os inconvenientes, chatos e escatologicamente ácidos gêmeos destilaram seu sarcasmo contra qualquer um infeliz o bastante para cruzar seu caminho.

Antologia Chiclete com Banana vol. 3 (Sampa/Devir, 2007)

Antologia Chiclete com Banana vol. 3 (Sampa/Devir, 2007)

O Brasil estava, havia três anos, vivendo uma “lua de mel” com a democracia. A ditadura militar havia caído fora, tomamos uma bela cacetada com o “Plano Bresser” (lançado pelo magnânimo José Sarney e seus ministros amestrados), nesse mesmo ano, deu-se a tragédia em Goiás com centenas de pessoas contaminadas (e mortas) por resíduos do material radioativo Césio-137. Ocorreu, também, o terrível acidente na BR-040, altura da cidade de Nova Lima, com o saldo de setenta mortos.

Se serve de consolo, a Assembleia Nacional Constituinte é formada, Nelson Piquet sagrou-se tri-campeão na Fórmula 1, Brasília (vejam só), foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO e (essa tive o prazer de assistir e lembro até hoje), nossa seleção masculina de basquete derrota, num jogo histórico, os norte-americanos em seu próprio esporte e levam para casa um ouro no pan-americano.

Antologia Chiclete com Banana, nº 3, pág. 06

Antologia Chiclete com Banana, nº 3, pág. 06

No meio disso tudo, Angeli joga em cima da gente duas pessoinhas completamente desnecessárias, daquelas que evitamos em festas, baladas e mudamos de calçada quando avistamos na rua. Aqueles amigos “malas”, cujo prazer é nos deixar desconfortáveis, que entregam segredos vexatórios e falam demais.

Bares, restaurantes, praias, ruas… Não havia lugar e/ou situação capaz de refrear a sanha crítica da versão hardcore dos “Sobrinhos do Capitão” (conta a lenda que “Os Skrotinhos” foi criada para homenagear o quadrinho norte-americano “Katzenjammer Kids”, conhecidos no Brasil como “Os Sobrinhos do Capitão”, criado por Rudolph Dirks em 1897) em sua tara por constranger os semelhantes.

Ao lado de personagens tão ou mais caricatos quanto Rê Bordosa (a “porraloca”), Osgarmo (o sujeito “rapidinho”), Mara Tara (a sexóloga ninfomaníaca), Bibelô (o último dos machões) ou Bob Cuspe (o punk que habitava os esgotos da capital paulista, os Skrotinhos sempre estavam envolvidos em tirinhas nas quais o autor descia, sem dó ou piedade, o malho artístico sobre os miasmas da (hipócrita) existência em sociedade.

Katzenjammer Kids, por Rudolph Dirks (1905)

Katzenjammer Kids, por Rudolph Dirks (1905)

Chiclete com Banana - Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág.12 (1992)

Chiclete com Banana – Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág.12 (1992)

Drogas, moda, relacionamentos e preconceito eram temas nos quais Angeli alfinetava (com um facão) os “ideais” de um país onde “não existe racismo” e, ainda assim, “skinheads” de meia-tigela caçam nordestinos, gays e mendigos nas madrugadas ou “todos são iguais”, mas que é só o indivíduo ter um pouco mais de grana no bolso e já se sente no direito de humilhar qualquer um considerado “pobre”.

Cutucando as mazelas de um mundo erigido sobre aparências, o artista traz à superfície aquilo que a maioria das pessoas costuma esconder sob camadas de polidez e cortesia. Uma das tirinhas mais interessantes da dupla é a “Corretos”, onde as figuras se referem a personagens étnicos e portadores de deficiência da forma socialmente indicada. No entanto, tudo vai por água abaixo quando uma garota bonita tem o azar de passar na frente deles.

Chiclete com Banana - Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág.15 (1992)

Chiclete com Banana – Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág.15 (1992)

Outro momento é a série intitulada “O mundo encantado da drogolândia”, na qual os “Sobrinhos do Capitão” se veem nas mais variadas situações relacionadas ao uso de substâncias consideradas ilegais. Desde o (pre)conceito sobre os usuários, aos viciados em drogas lícitas, atingem em cheio o “folclore” em torno do tema. O que não deixa de ser ainda uma temática brasileira relevante como referência ao que seria mais a frente conhecida como cracolândias vistas por um filtro midiático manipulador.

Um ponto que, também, não escapou ileso aos personagens de Angeli, foi a política. Numa de suas tiras, eles não se furtam em desferir uma bofetada certeira num deputado ou lembrar que um determinado senador esqueceu de lavar as mãos ao sair do banheiro, “como todo mundo”.

Extraído de Antologia Chiclete com Banana vol. 3, pág. 47

Extraído de Antologia Chiclete com Banana vol. 3, pág. 47

Antologia Chiclete com Banana vol. 7 (Sampa/Devir, 2008)

Antologia Chiclete com Banana vol. 7 (Sampa/Devir, 2008)

Com o tempo (e o sucesso), os cretinos ganharam mais duas duplas de “companheiros”: os “The Little Black Scrots” e as famigeradas “Skrotinhas”. Essas últimas, ainda mais pérfidas que seus “irmãos” mais velhos. Ninfomaníacas e taradas, as garotas não perdoavam ninguém. Lendo (e relendo) as aventuras dessas degeneradas, pode-se observar uma crítica aos exageros arraigados em nossa sociedade, pois o comportamento de ambas em relação ao sexo masculino lembra, em muito, o que de pior é produzido pelo gênero oposto em relação a elas.

Antologia Chiclete com Banana, nº 7, pág. 20

Antologia Chiclete com Banana, nº 7, pág. 20

Desbocadas, safadas e sem noção de ridículo, as moças avançam sem controle sobre qualquer incauto. Entre o atendimento num “disque-sexo” (montado por elas apenas pra “curtir” com a cara dos clientes) a um passeio num bar, as meninas conseguem se mostrar ainda piores que suas versões “barbadas”.

“Chiclete com Banana” foi uma publicação pioneira (e incômoda) no cenário do quadrinho nacional. De uma tiragem modesta, em 1985, chegou a circular 110.000 exemplares em seu auge. Segundo as contas de alguns estudiosos sobre o assunto (quem disse que hq não é coisa séria?), chegou a marca impressionante de 4 milhões de exemplares (levando-se em conta reimpressões e encadernados) entre 1985/95.

Antologia Chiclete com Banana, nº 7, pág. 28

Antologia Chiclete com Banana, nº 7, pág. 28

Além do Circo Editorial, os personagens de Angeli foram publicados pela Sampa Editorial e Devir Editora. Como dito no prefácio da coleção “Antologia Chiclete com Banana – Edição Definitiva para Colecionadores” (Sampa Editora e Devir Livraria; 16 fascículos, 2007), a revista testemunhou, em sua trajetória, quatro moedas (Cruzado, Cruzado Novo, URV e Real), o New Wave, a AIDS jogar um balde de água fria nos ânimos dos mais assanhadinhos e o mundo se tornar um lugar bem mais careta do que de costume.

Os Skrotinhos também participaram da série de curtas de animação “Angelitos”, veiculada em 2009 no programa “Metrópolis” da TV Cultura. No ponto máximo de sua carreira artística, tornaram-se garotos-propaganda da cerveja “Summer Draft” (com direto a comercial bacana e tudo mais). Foi um feito e tanto pois, mesmo sendo de conteúdo adulto,  a legislação brasileira identifica quadrinhos com material infantil e, desse modo, não poderiam participar da promoção comercial de bebidas alcoólicas ou cigarros (falso moralismo, pois não tem nada que mais se identifique com crianças, nesse país, do que jogadores de futebol e eles estão aí, aos montes, estrelando comerciais de cerveja).

Chiclete com Banana – Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág. 4 (1992)

Chiclete com Banana – Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág. 4 (1992)

Travei contato com o universo de Angeli por volta de 1993. Ao encontrar na casa de minha avó materna (num daqueles almoços de domingo que, por si só, são um saco), no fundo de um baú, uma pilha de revistas emboloradas, ouvi um tio meu dizer: “Cara, não sabia que ainda tinha essas porcarias guardadas! Só leia isso aí se gostar de sacanagem e não tiver frescura com críticas sociais!”.

A curiosidade falou mais alto e, de súbito, descobri que o quadrinho nacional era algo além dos “famigerados” (o pavor das mães e professores e dos quais gosto até hoje) gibis de horror (“Spectro”, “Calafrio”, “Tumba de Drácula”, dentre outras), das bem comportadas aventuras da “Turma da Mônica” (Maurício de Souza, 1963) ou as levemente críticas histórias da “Turma do Pererê” (Ziraldo, 1959).

Curta de animação “Angelitos – Skrotinhos: Na praia”

Curta de animação “Angelitos – Skrotinhos: Na piscina”

Curta de animação “Angelitos – Skrotinhos: No bar”

Propaganda (“peça publicitária” é coisa de fresco!) “Kaiser Summer Draft: Os Reis do Rock”

O humor/crítica presente nas tirinhas dos Skrotinhos pertence a um outro tempo. Uma época na qual podia-se falar abertamente de todos os incômodos presentes na vida em “comum-unidade” sem ser taxado por algum “elogio” sempre à boca (e mãos, pois estamos na era dos justiceiros de redes sociais), dos “guerrilheiros do politicamentezinho corretinho”.

Chiclete com Banana – Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág.14 (1992)

Chiclete com Banana – Série Tipinhos Inúteis nº 7, pág.14 (1992)

Créditos:

Trilha sonora: “Censura Idiota” (parte integrante do álbum “Canções para Ninar”, 1993, por Garotos Podres).

Vídeos: Curtas de animação “Angelitos”, 2009  (propriedade de Arnaldo Angeli Filho) e “Kaiser Summer Draft: Os Reis do Rock”  (propriedade de Arnaldo Angeli Filho CBS e Cervejaria Kaiser do Brasil).

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