A Saga de Salomão Kane – Robert E. Howard e o horror sobrenatural na Era Elizabetana

 title="Salomão Kane, por Gary Gianni"

THE MOONLIGHT shimmered hazily, making silvery mists of illusion among the shadowy trees. A faint breeze whispered down the valley, bearing a shadow that was not of the moon-mist. A faint scent of smoke was apparent.

The man whose long, swinging strides, unhurried yet unswerving, had carried him for many a mile since sunrise, stopped suddenly. A movement in the trees had caught his attention, and he moved silently toward the shadows, a hand resting lightly on the hilt of his long, slim rapier. Warily he advanced, his eyes striving to pierce the darkness that brooded under the trees. This was a wild and menacing country; death might be lurking under those trees. Then his hand fell away from the hilt and he leaned forward. Death indeed was there, but not in such shape as might cause him fear.

“The fires of Hades!” he murmured. “A girl! What has harmed you, child? Be not afraid of me.”

The girl looked up at him, her face like a dim white rose in the dark.

O LUAR brilhava pálido, criando névoas prateadas de ilusão entre as árvores sombrias. Uma brisa suave murmurava através do vale, produzindo uma sombra que não era da neblina à luz da lua. Um leve cheiro de fumaça erguia-se no ar.

O homem cujo passos longos e oscilantes porém inabaláveis, o haviam levado por uma milha desde o nascer do sol, parou de súbito. Um movimento nas árvores chamou sua atenção, e ele virou-se silenciosamente em direção às sombras, com uma das mãos pousando levemente sobre o cabo do florete preso à cintura. 

Cautelosamente ele avançou, seus olhos se esforçando para perscrutar a escuridão que pairava sob as árvores. Este foi um país selvagem e ameaçador; a morte poderia estar escondida sob as árvores. Em seguida, sua mão foi para longe do cabo e ele se inclinou para a frente. A morte, de fato estava lá, mas não em tal forma capaz de atemorizá-lo.

“Chamas da perdição!” ele murmurou. “Uma garota! O que feriu você, criança? Não tenha medo de mim.”

A jovem olhou para ele, seu rosto pálido surgiu da escuridão.

Robert E. Howard
Robert E. Howard

E, assim, Robert Ervin Howard (Jan/1906-Jun/1936) apresentava ao mundo uma de suas primeiras criações: o taciturno e obstinado Salomão Kane (Solomon Kane, no original). O paladino das ilhas do mar do norte tem suas aventuras ambientadas nos séculos XVI/XVII, período no qual corsários (a exemplo do pirata sancionado pela coroa britânica Francis Drake) infestavam os oceanos, pilhando o ouro e especiarias das Índias e América (recém-descoberta), e as nações europeias estendiam seus tentáculos sobre os territórios proclamados de sua “proteção” através do globo.

Dotado de um código moral inflexível, o puritano (uma das designações pelas quais os calvinistas radicais ingleses eram chamados) viveu narrativas registradas desde a Europa até a misteriosa África, onde encontrou um de seus maiores aliados: o xamã N’Longa. Dotado de poderes especiais o africano viajou pela Terra em épocas remotas, estudando secretamente os ensinamentos de vários feiticeiros e homens-santos dos Orientes Médio e Próximo.

Capa da edição de agosto/1928 da revista Weird Tales
Capa da edição de agosto/1928 da revista Weird Tales

Em sua primeira aparição (“Red Shadows”, “Sombras Vermelhas”, 1928), Salomão Kane persegue um criminoso conhecido por “Le Loup” (“O Lobo”) desde a costa francesa até o continente negro. Durante a jornada, é submetido a uma série de provações, à medida que se aproxima de seu objetivo final. Nessa mesma história, N’Longa também faz sua participação inicial nos contos do puritano.

Um dos pontos interessantes no personagem é o de que, contrapondo-se diretamente ao cimério de bronze, Kane é um homem solitário, contido, incapaz de se dar ao luxo de abandonar-se numa noite de farra em alguma taverna ou mergulhar nas carícias fugazes de uma prostituta. Com um semblante sombrio, o Salomão Kane é descrito por REH como um homem alto, delgado e de tez pálida; racional e comedido, em eterna luta contra as paixões inatas ao espírito humano. Em suas viagens, o herói britânico esforça-se para, a todo instante, vencer “as tentações da carne” e manter-se devoto a combater o mal sob quaisquer formas nas quais se manifeste, sem distrações.

Salomão Kane por Gary Gianni
Salomão Kane por Gary Gianni

REH conseguiu captar a essência de um (quase fanático) religioso ao definir a personalidade de Kane, pois em não raras ocasiões, o inglês opta por seguir o caminho da fé em detrimento à escolha que seria feita por um “homem comum”, não importando o custo de tais decisões. Para Salomão, a vontade de seu deus é soberana e inquestionável, seus desígnios, parte de um propósito que lhe é desconhecido. Nativo de Devonshire, Inglaterra, o puritano decidiu-se pelo ofício do mar, pois sentia algo, um chamado em seu espírito para viver aventuras em lugares distantes (um exemplo disso é que, após retornar para sua terra natal, já idoso, não resiste ao “apelo do mar” e embarca para novas viagens).

A sede por livrar o mundo do “toque do demônio” leva-o a situações como a narrada pelo autor em “Skulls in The Stars” (“As Caveiras nas Estrelas”, 1929), onde Salomão, em sua terra natal, vê-se ante duas trilhas conduzindo a um lugarejo chamado Torkertown; ao ser informado de que uma delas é supostamente assombrada e todos os viajantes que por ela transitam são encontrados mortos, decide seguir por essa via, afim de solver o mistério acerca de quem (ou o que) seria o responsável por essa “arte do diabo”.

Salomão Kane por Mike Grell
Salomão Kane por Mike Grell

Outro exemplo da obsessão do puritano é mostrado em “Hills of The Dead” (“As Colinas dos Mortos”, 1930), em que Salomão Kane, novamente na África, se embrenha na selva e encontra uma cidadela habitada por vampiros. Nessa aventura, o britânico recebe, do amigo e aliado N’Longa, uma artefato místico de grande poder: o Cajado de Salomão.

O objeto é descrito como pontiagudo numa extremidade e, na outra, tem entalhada uma cabeça de gato; dizem que tal item foi confeccionado a partir de um tipo de madeira não mais existente em nosso planeta. O cajado é coberto com hieróglifos antigos que, juntamente com a cabeça do gato, foram adicionados muito tempo após o mesmo ter sido criado.

Usando o poderosíssimo instrumento mágico, Kane pode se comunicar através de longas distâncias com N’Longa, além de, também, ser capaz de destruir vampiros e espíritos malignos. Supostamente, o fato de ser portador do objeto e caçado essas entidades por um longo período, dotou Kane com a capacidade de “sentir” a presença de seres de outro mundo. Quando Kane é feito prisioneiro por traficantes de escravos, um dos membros de seu grupo “Yussef, o Hadji”, reconhece o item, bem como sua finalidade. Ele informa ser o cajado algo mais antigo do que o próprio mundo e detentor de magia poderosa. A cabeça de gato em uma de suas extremidades é uma representação de Bast, e os sacerdotes dessa divindade provavelmente o utilizaram no Egito antigo.

Salomão Kane e o Cajado de Salomão, por Mike Perry
Salomão Kane e o Cajado de Salomão, por Mike Perry

A cabeça de felino que agora decora a parte superior do cajado foi esculpido sobre uma decoração pré-existente, embora, hoje, seja impossível dizer que tipo de símbolo(s) (ou criatura) era(m) originalmente a(s) efígie(s) sobre ele.

Especula-se que seja o mesmo artefato utilizado por Moisés para realizar prodígios ante o Faraó, e o qual levou consigo quando ele e seu povo fugiram do Egito. Durante séculos foi o Cetro de Israel (mencionado em Números 24:17), e Salomão o usou para combater feiticeiros e capturar djinns. Pode, também, pode estar relacionado com a vara de Arão ou o bastão de Asclepius.

Alguns afirmam que, muito antes disso, quando o mundo era jovem, Atlante, pré-Adamita, sacerdotes nas cidades silenciosas abaixo dos mares teriam usado o cajado para combater o mal, milhares de anos antes da humanidade ter nascido.

Um fato digno de nota é o de que um item semelhante a esse (“The Staff of Ra”; “O Cajado de Rá”) foi utilizado em “Indiana Jones e os Caçadores da arca Perdida” (“Indiana Jones and the Raiders of the Lost Ark”), filme produzido por Steven Spielberg (Dez/1946) em 1981, para definir a localização da Arca da Aliança numa escavação realizada pelos nazistas, cujo objetivo era usar o poder da Arca para assegurar a vitória sobre os Aliados durante a Segunda Guerra.

Rapier ("espada ropera") ou florete
Rapier (“espada ropera”) ou florete

Além desse objeto mágico, o puritano também utiliza um florete (no original, em espanhol “espada ropera”; em inglês, “rapier”), espada produzida na Espanha, por volta do século XVI, caracterizada por ter um cabo de estrutura bastante complexa (com o objetivo de proteger a mão do espadachim durante o combate), ser leve e de fácil manuseio. Versões modificadas dessa arma foram desenvolvidas por Inglaterra, França, Itália e Alemanha ao longo dos anos, de acordo com especificações particulares a cada região. Outra peça comum em seu arsenal particular era uma adaga longa (ou punhal)

Além das lâminas, Kane, leva consigo um par de pistolas pederneiras (no original “flintlock”), designação advinda ao mecanismo de disparo utilizado, cuja introdução ocorreu no início do séc. XVII. Tornou-se padrão em poucos anos, superando as armas com mecanismos mais antigos como doglock, matchlock, e wheellock, permanecendo até o séc. XIX (substituído, apenas, pelas armas de repetição à cartucho).

1024px-Flintlock_ignition_animationDesenvolvido na França, o “flintlock” (sua invenção é creditada a Marin le Bourgeoys), consiste num mecanismo onde um pedaço de “pedra de acender” (“flint”), é mantida no lugar entre um conjunto de maxilas no fim de um pequeno “martelo”. Este martelo (às vezes chamado de pau) é puxado de volta para a posição “armada”. Quando liberado pelo gatilho, o “martelo” com mola se move para frente, fazendo com que a pedra bata num pedaço de aço/metal (a “caçoleta”). Ao mesmo tempo, o movimento do “martelo” empurra a caçoleta para trás, abrindo a tampa para o recipiente que contém a pólvora. Atingindo a caçoleta, a “pedra de acender” cria uma centelha que cai na “panela” e inflama o pó. A chama queima através de um pequeno orifício no cano da arma e inflama a pólvora principal, fazendo com que a mesma dispare sua carga.

Pistola "de pederneira" (flintlock), comum na América Colonial
Pistola “de pederneira” (flintlock), comum na América Colonial

O britânico também utiliza, em algumas de suas aventuras, um mosquete (“musket”). Esse último, também chamado “canhão manual”, foi desenvolvido na China, por volta do século XIII. Ao longo dos séculos, o artefato ganhou mais “refinamento” e complexidade em sua manufatura. Desde a origem, os soldados encarregados da operação dessa arma eram conhecidos por “mosqueteiros”. Um fato interessante é o de que, Alexandre Dumas, pai (Jul/1802-Dez/1870), em seu livro “Les Trois Mousquetaires” (“Os Três mosqueteiros”, 1844), narra as aventuras de Athos, Porthos e Aramis (D’Artagnan junta-se a eles no desenrolar da trama), membros dessa companhia especializada do exército francês.

Capa de "The Savage Sword of Conan" #34 (1978), por Ernie Chan
Capa de “The Savage Sword of Conan” #34 (1978), por Ernie Chan

Um dos contos mais instigantes de REH protagonizado por Kane é “The Moon of Skulls” (“A Lua das Caveiras”, 1930); publicado em duas partes, nos leva com o puritano novamente à África, seguindo a trilha de uma jovem inglesa chamada Marylin Taferal, sequestrada e vendida a piratas pelo próprio primo. Até determinado ponto, imaginamos tratar-se de uma aventura “capa e espada” sem a presença marcante do sobrenatural (como em “Blades of the Brotherhood”; “Lâminas da Irmandade”; publicado postumamente em 1968). No entanto, Kane acaba por encontrar a “cidade perdida de Negari” e sua rainha, Nakari, também chamada “A Rainha-Vampiro de Negari”.

Esse texto foi adaptado, décadas mais tarde, por Don Glut (Fev/1944), encarregado do roteiro e com arte de David Wenzel (Nov/1950), na extinta “The Savage Sword of Conan”, compreendendo quatro partes, publicadas nas edições #34 (parte 1), #37 (parte 2) e #39 (3ª e 4ª partes), entre outubro de 1978/abril de 1979.

Capa da "A Espada Selvagem de Conan" #133 (1995), Colin Macneil
Capa da “A Espada Selvagem de Conan” #133 (1995), Colin Macneil

No Brasil, “Lua de Caveiras” saiu nas edições #131-132 da (também extinta) “A Espada Selvagem de Conan”, em 1995. Uma nova visita de Kane à Negari (“The Savage Sword of Conan” #219, 1994), intitulada “Death’s Dark Riders” (“Os Cavaleiros da Morte”) e sua continuação “Death’s Dark Tower” (“A Torre da Morte”“The Savage Sword of Conan” #220, 1994) é narrada por Roy Thomas (Nov/1940); roteiro e Colin Macneil, arte. Nela, vemos o puritano inglês cruzar espadas com o cimério de bronze, numa aventura onde ambos enfrentam os horrores ainda presentes na cidadela dos vampiros.

Um detalhe interessante é o de Thomas haver situado Conan na época em que ele era conhecido como “Amra, o leão” e Kane beirando as sete décadas, anos após ter lutado contra a rainha-vampiro em sua primeira excursão à cidadela (o que corresponde ao nascimento de Kane ter ocorrido em 1530). Em território nacional, “Os Cavaleiros da Morte”, e sua sequência “A Torre da Morte” foram publicadas nas edições #133-134 da “A Espada Selvagem de Conan” (1995).

O mundo na época de Salomão Kane - mapa alemão do séc. XVI
O mundo na época de Salomão Kane – mapa alemão do séc. XVI
Salomão Kane, por Al Gordon e Thomas Yeates
Salomão Kane, por Al Gordon e Thomas Yeates

Segue, uma “linha do tempo” baseada nas informações deixadas por REH em suas histórias acerca do puritano caçador do mal, num texto de Matthew Baugh (adaptado de um artigo escrito por Richard Toogood) (as datas são estimadas e não afirmações definitivas):

Alguns situam o nascimento de Kane por volta de 1530-35. No artigo publicado por Baugh, o puritano teria nascido em 1549

Salomão Kane nasce numa próspera família puritana em Devonshire, Inglaterra.

Por volta de 1566 – Kane entra para a marinha mercante. Durante os próximos anos, ele viaja para locais distantes, como Industão e Katar, ascendendo ao posto de Capitão.

Por volta de 1572 – Kane viaja à Hispanola, onde se torna um bucaneiro, dedicando-se à pilhagem de navios espanhóis.

1573 – Kane retorna à Europa e luta pelos Hugenotes nas guerras religiosas francesas.

1575 – Kane deixa a França e tem três aventuras registradas na Floresta Negra: “Death’s Black Riders” (póstuma; “The Howard Collector” #10, 1968), “The Rattle of Bones” (Weird Tales, 1928) e “The Castle of the Devil” (póstuma; “Red Shadows”, Grant, 1967)

Salomão Kane, por Tim Truman
Salomão Kane, por Tim Truman

1576 – Salomão Kane viaja ao Mediterrâneo, onde ele e John Silent (o primeiro encontro de ambos se deu em “The Castle of the Devil”) tornam-se corsários. O puritano é eventualmente capturado por muçulmanos e vendido como escravo de galé.

1577 – Kane escapa dos muçulmanos e retorna à Inglaterra, onde embarca na expedição de Sir Francis Drake para circunavegar o globo.

1578 – “The One Black Stain” (poema)

1579-80 – “Red Shadows” (Weird Tales, 1928)

1585-86 – Kane auxilia Sir Richard Grenville em diversas incursões à colônias do Novo Mundo.

1587 – “Skulls in the Stars” (Weird Tales, 1929)

1588 – Kane testemunha a vitória da Inglaterra sobre a “Invencível Armada” espanhola, despachada contra seu país pelo rei Felipe II.

1588-90 – “Blades of the Brotherhood” (póstuma; “Red Shadows”, Grant, 1967)

Salomão Kane por Draldede on DeviantArt
Salomão Kane por Draldede on DeviantArt

1591 – Kane está servindo à bordo do “Revenge” quando o navio é tomado e Sir Richard Grenville morre lutando contra os espanhóis. Ele é feito prisioneiro e sofre nas mãos da Inquisição antes de conseguir escapar.

1592-1605 – Salomão Kane volta à África e passa alguns anos desbravando os mistérios do continente. Suas aventurs nesse período incluem “The Moon of Skulls” (1ª e 2ª parte; Weird Tales, 1930), “The Hills of the Dead” (Weird Tales, 1930), “Hawk of Basti” (póstumo; “The Hills of the Dead”, Bantam Books, 1979), “The Return of Sir Richard Grenville” (poem), “Wings in the Night” (Weird Tales, 1932) “The Footfalls Within” (Weird Tales, 1931), e “The Children of Asshur” (póstumo; “The Hills of the Dead”, Bantam Books, 1979).

1605 – Kane retorna à Inglaterra – “The Right Hand of Doom” (póstuma; “Red Shadows”, Grant, 1967)

1610 – “Solomon Kane’s Homecoming” (poema).

O poema se encerra com um já idoso puritano desistindo da ideia de uma aposentadoria pacata e retornando mais uma vez à antiga vida de aventuras e viagens (o que, mais uma vez, corrobora com o nascimento de Kane haver ocorrido em 1530-35). Não há nenhum registro dos anos tardios ou da morte de Salomão Kane.

Cartaz do filme "Solomon Kane" ("Salomão Kane - O Caçador de Demônios", (2009)
Cartaz do filme “Solomon Kane” (“Salomão Kane – O Caçador de Demônios”, (2009)

Uma adaptação de suas aventuras foi levada ao cinema em 2009, por Michael J. Bassett. Em “Solomon Kane” (“Salomão Kane – O Caçador de Demônios”), vemos James Purefoy (Jun/1964) dar vida ao herói. Na história, Kane é o capitão de um grupo que, após invadir uma fortaleza situada em território dominado pelos Otomanos, vê seus homens serem brutalmente mortos por criaturas horrendas.

Abandonando os companheiros à própria sorte (nesse momento do enredo, o diretor nos apresenta um Kane sem escrúpulos ou moral), ele chega ao salão principal do edifício, onde existe um tesouro inimaginável. Após enfrentar um terrível demônio, ele ouve da aparição que sua alma estaria condenada ao fogo do inferno por toda a eternidade.

Cartaz do filme "Van Helsing" ("Van Helsing: O Caçador de Monstros", 2004)
Cartaz do filme “Van Helsing” (“Van Helsing: O Caçador de Monstros”, 2004)

Fugindo, Salomão Kane busca abrigo num monastério, além de tatuar símbolos de proteção em seu corpo. Um trauma colateral fê-lo renunciar a toda forma de violência, mesmo que isso represente o fim de sua vida. Após ser quase morto por um grupo de bandoleiros, Kane é alvo da bondade de uma família de puritanos, seguindo em caravana para uma viagem ao novo Mundo.

O inglês se afeiçoa a seus novos amigos. No entanto, um destino terrível está reservado às pobres e gentis almas, levando-o à um dilema: renunciar à não-violência e arriscar ser condenado à danação para defender aqueles que lhe estenderam a mão ou manter-se alheio ao sofrimento deles, condenando-se ao inferno em vida?

O filme não foi sucesso de público e/ou crítica, tornando, provavelmente, ainda mais difícil vermos uma adaptação de outros personagens (excetuando-se Conan, o cimério) criados por REH no cinema.

Capa de "Zagor" #421 (2000), por Gallieno Ferri
Capa de “Zagor” #421 (2000), por Gallieno Ferri

É provável que Salomão Kane figure entre uma das influências do herói cinematográfico, protagonista do filme de mesmo nome “Val Helsing” (o personagem original, Abraham Van Helsing, aparece em “Drácula”, de Bram Stocker e possui métodos de ação diferentes). O caçador do mal vitoriano exibia um arsenal steampunk, ocupando-se em investigar (e destruir) quaisquer entes sobrenaturais que ameaçassem a humanidade. A película, produzida e dirigida por Stephen Sommers (Mar/1962), teve Hugh Jackman (Out/1968) no papel-título, acompanhado por Kate Beckinsale (Jul/1973), como Anna Valerious e David Wenham (Set/1965), interpretando o monge Carl.

Um personagem visivelmente inspirado em Salomão Kane é Andrew Cain, um caçador de monstros cuja primeira aparição ocorreu na edição nº 386 da revista “Zagor”, publicada pela editora italiana Sergio Bonelli Editore na aventura “Il Terrore dal Mare” (“O Terror do Mar”). Cain combate os demônios de uma dimensão conhecida como “Overworld” e os necromantes da nação africana de Kush. Ele é casado com a princesa Marada, da tribo Tuareg. O personagem participa das edições 386-388, 420-422 e de 552 a 556.

Nos quadrinhos, Salomão Kane fez as seguintes aparições:

Marvel Comics:

Capa de Dracula Lives #3 (1973), por Neal Adams
Capa de Dracula Lives #3 (1973), por Neal Adams

“Monsters Unleashed” #1 (1973), uma adaptação do conto “Skulls in the Stars” de Robert E. Howard, por Roy Thomas, com arte de Ralph Reese (Mai/1949).

“Dracula Lives” #3 (1973), Kane encontra o famigerado Conde Dracula, por Roy Thomas, com arte de Alan Weiss (Mar/1948).

“The Conan Saga” #50 (1991), “Satan’s Sanctuary” por Alan Rowlands, com arte de Steve Carr e Al Williamson (esse título é uma republicação e, desse modo, a história de Kane nessa edição não saiu na publicação original).

“Kull and the Barbarians” #2-3 (1975), uma adaptação de “The Hills of the Dead” por Roy Thomas, e arte de Alan Weiss, Neal Adams (Jun/1941) e Pablo Marcos (Mar/1937).

“Marvel Premiere” #33-34 (1976/77),  uma adaptação de “Red Shadows”, por Roy Thomas, com arte de Howard Chaykin (Out/1950).

Capa de "The Savage Sword of Conan" #13 (1976), por Richard Hescox
Capa de “The Savage Sword of Conan” #13 (1976), por Richard Hescox

“Marvel Preview” #19 (1979), adaptando “The Footfalls Within”, por Don Glut, com arte aos cuidados de Will Meugniot e Steve Gan (Mai/1945).

“The Savage Sword of Conan” #13-14, 18-20, 22, 25, 26, 33, 34, 37, 39, 41, 53, 54, 62, 83, 162, 171, 219 e 220 (1976/94), por Roy Thomas, Don Glut, Doug Moench (Fev/1948), Mary Jo Duffy (Fev/1954) e John Arcudi, com arte por Steve Gan, Howard Chaykin, Alan Weiss, e várias outras, incluindo a sequência para a história “Kane versus Drácula”, duas adaptações do poema de Robert E. Howard “Solomon Kane’s Homecoming”, e, nas duas últimas edições, um encontro entre Salomão Kane e Conan, no qual  Thomas (roteiro), e o artista Colin MacNeil, utilizaram um fragmento escrito por Howard, “Death’s Black Riders” como base.

Capa de "The Sword of Solomon Kane", por Mike Mignola
Capa de “The Sword of Solomon Kane” #4, por Mike Mignola

A minissérie “The Sword of Solomon Kane” #1-6 (1985/86). Das seis revistas, quatro foram adaptadas a partir das histórias originais de REH (todas publicadas anteriormente pela Marvel), e duas (edições #2 e #4), contendo roteiros originais de Ralph Macchio, com diversos artistas cuidando das ilustrações. A última edição contém, ainda, uma nova versão do poema “Solomon Kane’s Homecoming,” illustrada por Sandy Plunkett (Out/1955) e Al Williamson (Mar/1931-Jun/2010).

Dark Horse Comics:

Em 2008, uma minissérie de cinco edições, contemplando uma versão de um fragmento escritos por REH: “The Castle of the Devil”, foi publicada com roteiro de Scott Allie e artes de Mario Guevara (desenhos), Dave Stewart (cores) e John Cassaday (capas). A primeira edição apresenta o puritano viajando através da Floresta Negra, logo após o fim de sua carreira militar.

Capa de "Solomon Kane - Red Shadows", por Gregory Manchess e Guy Davis
Capa de “Red Shadows”, por Gregory Manchess e Guy Davis

Uma segunda minissérie, baseada em “Death’s Black Riders”, teve quatro edições publicadas em 2010. A terceira, “Red Shadows” (baseada numa história de Howard anteriormente adaptada pela Marvel Comics, na revista “Marvel Premiere” #33-34, 1976) teve seu lançamento em 2011.

A trama segue os passos de Salomão Kane em sua perseguição ao criminoso “Le Loup”, através do Mediterrâneo, até seu destino final na costa oeste da continente africano( como citado anteriormente ).

No Brasil, as publicações de Salomão Kane com maior relevância foram pelas editoras:

Bloch:

“Sexta-Feira 13 (Capitão Mistério Apresenta)” n° 4 (1977), “Histórias Fantásticas (Capitão Mistério Apresenta)” n° 4 (1977), “Histórias Fantásticas (Capitão Mistério Apresenta)” n° 7 (1977).

Abril:

“Histórias Fantásticas (Capitão Mistério Apresenta)” n° 7 (1977)
“Histórias Fantásticas (Capitão Mistério Apresenta)” n° 7 (1977)

“A Espada Selvagem de Conan” nºs 4, 9, 10, 15, 19, 22, 24, 27, 30, 32, 36, 43, 72, 87, 131-135 (entre 1984/96); “Conan Especial” nº 5 (1990); “A Espada Selvagem de Conan – Reedição” nºs 4, 9, 10, 15, 19, 22, 24, 27, 30 32, 36, 43 (entre 1990/93); “Conan Saga” nº 13 (1996).

Em inglês, as aventuras do puritano foram publicadas nas obras “Red Shadows”, por Donald M. Grant, em 1968 (todos os contos com participação de Salomão Kane, com exceção de “Death’s Black Riders”). Nessa complicação, realizada pelo agente literário póstumo  de Robert Howard, Glenn Lord (Nov/1931-Dez/2011), as narrativas estão organizadas a partir dos quesitos que ele considerava como ordem cronológica do personagem.

Um conjunto de três volumes, editados pela Centaur Press, com todas as narrativas de REH para Salomão Kane, excetuando-se “Death’s Black Riders”: “The Moon of Skulls”, 1969; “The Hand of Kane”, 1970 e “Solomon Kane”, 1971. Dois volumes, também sem a história “Death’s Black Riders”, com prefácio de Ramsey Campbell (Jan/1946), foram completados com três fragmentos para essa coleção.

Salomão Kane, por Ernie Chan
Salomão Kane, por Ernie Chan
Capa de “Moon of Skulls: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Two”
Capa de “Moon of Skulls: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Two”

Pela editora Bantam Books, foram lançados os tomos “Solomon Kane: Skulls in the Stars” (1978) e “Solomon Kane: The Hills of the Dead” (1979).

“Solomon Kane”, publicado pela editora Baen Books, em 1995 (essa edição contém os mesmos textos e introdução de Ramsey Campbell lançados anteriormente pela editora Bantam).

“The Savage Tales of Solomon Kane”, Wandering Star, November 1998 (Edição britânica).

“The Savage Tales of Solomon Kane”, com ilustrações do artista Gary Gianni, pela editora Ballantine Books em 2004.

“The Right Hand of Doom & Other Tales of Solomon Kane”, pela editora Wordsworth Editions, em 2007.

Capa de "As Fabulosas Aventuras de Salomão Kane" (2006)
Capa de “As Fabulosas Aventuras de Salomão Kane” (2006)

Dez volumes foram organizados pela Wildside Press, a editora responsável pela publicação de “Weird Tales”, contendo todo o material de REH para a revista. Lançados entre 2004-2011, são eles: “Shadow Kingdoms: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume One”, “Moon of Skulls: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Two”, “People of the Dark: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Three”, “Wings in the Night: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Four”, “Valley of the Worm: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Five”, “The Garden of Fear: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Six”, “Beyond the Black River: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Seven”, “Hours of the Dragon: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Eight”, “Black Hounds of Death: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Nine”, “A Thunder of Trumpets: The Weird Works of Robert E. Howard, Volume Ten”.

No espanhol, “Las Aventuras de Solomón Kane”, foi publicado na coleção/selo Ultima Thule, da editora Anaya, Espanha, em 1994 (uma coleção completa de histórias, poemas e fragmentos protagonizados por Salomão Kane).

Capa de “Solomon Kane – A Saga Completa” (2015)
Capa de “Solomon Kane – A Saga Completa” (2015)

Em língua portuguesa, além dos quadrinhos publicados pelas editoras Abril e Mythos, Salomão Kane foi publicado pela editora Saída de Emergência no volume “As Fabulosas Aventuras de Salomão Kane” (2006), com 192 páginas, reunindo os contos “As Caveiras nas Estrelas”, “A Mão Direita do Destino”, “O Chocalhar de Ossos”, “A Lua de Caveiras”, “As Colinas dos Mortos”, “Asas na Noite”, “Os Passos no Interior” e “O Regresso a Casa de Salomão Kane”. A obra conta com traduções de Luís Rodrigues, Jorge Candeias, Rogério Ribeiro, Luís Miguel Rocha e Safaa Dib.

No ano de 2015, pelo selo Generale da editora Évora, foi lançado “Solomon Kane – A Saga Completa”, com 256 páginas, traduzido e organizado por Alexandre Callari. Os contos presentes nesse volume são: “Sombras Vermelhas”, “As Caveiras nas Estrelas”, “O chacoalhar de ossos”, “A Lua das Caveiras”, “As Colinas dos Mortos”, “Passos interiores”, “Asas da noite”, “A mão Direita do Destino” e “A Chama Azul da Vingança”.

Página 69 da "A Espada Selvagem de Conan" #15 (1985)
Página 69 da “A Espada Selvagem de Conan” #15 (1985)

Meu primeiro contato com as aventuras do puritano inglês foi na “A Espada Selvagem de Conan” #15 (1985), onde foi publicada a história “Desejo Maldito” (“The Cold Hands of Death”; “The Savage Sword of Conan” #25, 1977), narrada por Don Glut, com arte de Steve Gan e Dino Castrilo.

As aventuras de Kane faziam parte do mix da revista (a exemplo do que também ocorria em “The Savage Sword of Conan”) e nessa, em particular, o vemos enfrentar um súcubo, liberto inadvertidamente por ele. No encalço do lendário Conde Drácula, através da Transilvânia, ele se depara com a estátua de uma bela e voluptuosa mulher. Buscando resistir à tentação causada pela perturbadora imagem, Kane a destrói, para que deixe de ser objeto de cobiça a qualquer outro indivíduo que lhe pusesse os olhos. Nesse momento, problemas realmente começam.

Página 70 da "A Espada Selvagem de Conan" #15 (1985)
Página 70 da “A Espada Selvagem de Conan” #15 (1985)

Atormentado pela entidade, o herói é levado ao limite de sua fé, pois o horror com os traços tão delicados quanto o mármore profano onde esteve aprisionado por centenas de anos inflama paixões que, até então, Kane julgava sob controle (ou, ainda, adormecidas) em seu íntimo.

 Assim como Kull, o rei tigre da Valúsia, Conan, o cimério, Bram Mak Morn, Sonja de Rogatino, dentre outros, o puritano Salomão Kane é um personagem cujas histórias jamais perderão o brilho, seja em mais de oito décadas ou mesmo através dos séculos.

Robert Howard conseguiu, com seus textos, fixar-se nos corações e mentes de leitores (e autores) ao redor do planeta. Convido você a juntar-se ao paladino britânico em sua cruzada contra o mal, desde o mundo civilizado às misteriosas selvas da África (ou onde quer que ele se manifeste). Leitura extremamente recomendada aos fãs do gênero.

Trailer de “Solomon Kane” (“Salomão Kane – O Caçador de Demônios”, 2009):

Capa de “The Savage Sword of Conan” #25 (1977), por Brian Moore
Capa de “The Savage Sword of Conan” #25 (1977), por Brian Moore

Créditos:

Vídeo: Trailer do filme “Solomon Kane”, distribuído pela Columbia Pictures, 2009.

Trilha sonora: “Father’s Story” (faixa integrante da trilha sonora do filme “Solomon Kane”, 2009, por Klaus Badelt).

A linha do tempo apresentada foi retirada do artigo “The Solomon Kane Cronology”, por Matthew Baugh (adaptado do texto original de Richard Toogood) e pode ser acessada no endereço: 

http://www.pjfarmer.com/woldnewton/Solomon.htm 

Tradução do trecho inicial do conto “Red Shadows” (Robert E. Howard, Weird Tales, 1928) e do artigo de Matthew Baugh: Rochett Tavares.

  • Samuel DE Castro Santana Carde

    Excelente artigo, super completo e detalhado. Conhecia muito pouco sobre o personagem e deu vontade de me aventurar em suas histórias.