QUEM MATOU JOÃO NINGUÉM

HQquemmatou-CAPA-72 Salve galera, vamos falar de quadrinho alternativo, alternativo E alternativo… porque três vezes alternativo? Primeiro, é brasileiro. Segundo, é cearense. Terceiro, foi feito com apoio de um edital do governo! Que rota estranha, não? Estou falando do quadrinho de super-heroi “Quem matou João Ninguém”, de autoria do excelente Zé Wellington (que também escreve Steampunk Ladies) e Wagner Nogueira com diversos bons artistas (destaco Wagner de Souza, o que mais me agradou). “Super-heroi brasileiro não dá certo”, é o pensamento mais comum. Vejamos como o Sujeito-Homem, o heroi da história, superou esse pensamento nesta ótima HQ!  HQquemmatou4

Acho que o que faz a história funcionar é justamente o fato de ela ser sim de heroi, mas subvertendo o que se espera de uma. A começar pelo cenário: a favela do Morro de Santa Edvirges, idealizada pelos autores, não poderia passar mais longe dos grandes centros urbanos normalmente vistos nos comics. Neste lugar, acontece um crime: o assassinato de Roberto, que trabalhava numa ONG em busca de melhorias para o lugar. Seu amigo de infância, João, fica sabendo de sua morte e vai até a casa, que estava cercada de curiosos, polícia e repórteres. Nesse momento ele reencontra uma antiga amiga, com quem ele e Roberto costumavam brincar nos tempos de criança: Nina. E ao mesmo tempo, cruzam caminho com Sandro, outro amigo de infância que se afastou, atualmente um dos mandantes do lugar. Ao voltar pra casa, João também é assassinado! E aí, a história começa de verdade.

Quem_Matou_Joao_Ninguem_021 Cada um dos quatro protagonistas conta uma parte da história, mostrando como e porque todos se conheciam e se separaram, ao mesmo tempo que nos revelam as duras realidades da favela, onde nem tudo é o que parece; e as decisões que cada um teve que tomar em via das circunstâncias, sem saber onde isso os levaria. Nas páginas desta história, nem sempre o vilão será tão mal: ele pode ser na verdade alguém que apanhou muito da vida… e quando você achar que o conhece, nessa hora ele mostrará que gosta do que faz. Zé Wellington e Wagner Nogueira encheram a HQ de toques geniais, tramas e sub-tramas que vão se resolvendo a medida que as paginas avançam, e um heroi carismático… que, embora seja capaz de realizar feitos que os outros apenas imaginam, também está suscetível a problemas, inclusive alguns que só ele vive, pois é seu o papel do heroi, e o heroi sempre sofre pra resolver tudo.

Cinco artistas dividem a arte da edição, emprestando estilos únicos a cada parte. Ora desenhando o presente, ora desenhando o passado, Wagner de Souza, Cloves Rodrigues, Ed Silva, Alex Lei e Rob Lean revelam uma favela como eu nunca vi, que não só é um lugar problemático, mas também rico em ambientes e personagens diferentes do que estamos acostumados a ver nos quadrinhos e mangás de sempre. Eu comparo a alguns trabalhos europeus, que eu não vejo muito por aqui, e sempre tem algo de estranho e diferente, mas nem sempre agradável, como no caso de uma favela. E embora o cenário possa ser estranho a princípio, a medida que você reconhece os traços característicos de uma comunidade pobre, há uma certa familiaridade que dificilmente um quadrinhos estrangeiro vai te dar. Por todas as referências usadas no texto e nas imagens, pela forma diferente que as coisas ocorrem, pela maneira como são usados os estereótipos de personagens, por ser uma história que não é cansativa, muito pelo contrário, que te convida a continuar com ela até o fim. Eu recomendo muito a aquisição e leitura de “Quem Matou João Ninguém”. Quem curte quadrinhos, herois, e uma história policial, vai gostar!

HQquemmatou3