Existe uma Literatura Fantástica com Viés Nacional?

2012-JUN-Fantasy-Book-Werm-by-Kristin-Kest-300x300Antes de qualquer coisa, devo confessar minha total desatenção relacionada ao questionamento feito no título desse texto. Mesmo acompanhando com certa frequência o mercado editorial, de fantasia em especial, nunca havia me atentado sobre a existência, ou não, de um apelo do gênero à elementos nacionais, tais como fizeram tantas vezes movimentos literários de teor mais universal. Ora, no Brasil desde seus primeiros anos existe um apelo ao nacional, mesmo antes do país existir de fato como nação hegemônica; bom exemplo disso é Caramuru (1781), de Santa Rita Durão, obra que nada mais é que uma tentativa lírica de emular o estilo épico cultivado desde Homero, e em voga no período ainda em muito graças aos Lusíadas, de Camões. A partir dai, sempre houve em nossa literatura, tentativas de se construir um cânone adequado à riqueza sócial e cultural de tão extensa terra. Porém, nem sempre isso se deu de maneira satisfatória. No aspecto universal de nossas letras, o romantismo constituiu uma tentativa louvável, mesmo ainda muito apegada aos moldes europeus de cultivo lírico. José de Alencar, em suas obras indianistas retratou mais um molde heróico dos romances de cavalaria, que um índio na melhor concepção cultural da palavra, e seus romances urbanos – Senhora, Lucíola e Diva -, nada mais eram que a repetição estilística do romance francês, base literária de grande força em seu tempo. Pecado também praticado por nosso mais famoso escritor, Machado de Assis, e justamente por isso ele não galgou fama em terras estrangeiras; seus livros, em muito semelhantes ao praticado na Europa, apenas ganharam destaque no Brasil.

Uma série de referências nacionais, sem dúvida, aproximam uma obra de seu país.

Uma série de referências nacionais, sem dúvida, aproximam uma obra de seu país.

Óbvio, posteriormente, com uma riqueza cultural mais apurada, surgiram romances – e movimentos-, tipicamente nacionais, sendo capazes de demonstrar em essência a raiz sócio-cultural brasileira, vide Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Raquel de Queirós, dentre vários outros. No entanto, pensando em literatura de viés fantástico, desde nossas mais distantes obras, existe um embasamento estrangeiro intrínseco que, mesmo tendo ambientações reconhecidamente nacionais, a transpiração literária é entranhada de sentimentos não relacionados à nossa terra. Pense em Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo, embora uma de nossas primeiras obras fantásticas em plenitude, segue fielmente o estilo byroniano inglês, expressando um movimento mal do século universal ligado ao romantismo. Da mesma forma, os contos fantásticos de Machado de Assis, e de vários outros romanticos, seguiam a trilha onírica tão cultivada no gênero em França. Sobre isso, é importante ressaltar que não é intensão aqui apontar algum demérito a estas obras por sua influêcia estrangeira, pelo contrário. O único objetivo aqui é especular sobre a existência, ou não, de aspectos nacionais em nossa produção fantástica, sem uma maior análise de qualidade literária, certo? Esclarecido isso, vamos em frente.

Relevante salientar que esta nacionalidade voltada ao gênero não consiste apenas na ambientação nacional, mas também na expressão de sentimentos humanos despertados por aspectos presentes em nosso cotidiano. Se a simples inclusão do cenário conferisse identidade brasileira ao texto, José de Alencar teria sido bem sucedido em suas obras O Sertanejo (1875) e O Gaúcho (1870), que, embora pareçam de caráter regionalista, não passam de representações pouco fiéis desses arquétipo, justamente, por sua postura européia frente ao ambiente. Assim, para que um livro fantástico tenha em sua substãncia algo de nacional, ele não necessariamente precisa ser localizado no Brasil, mas sim, deve incidir ao longo do texto sentimentos tipicamente humanos, mas coerentes ao cenário em questão. Nesse quesito, digo sem dúvidas que ainda temos muito o que avançar, mas, respondendo à pergunta título desse texto, digo que sim, temos uma literatura fantástica com viés nacional, levando em consideração os apontamentos acima, claro. A simples ambientação nacional está presente há muito tempo no gênero, porém, faz pouco tempo que esta presença vem refletindo uma empatia mais precisa dos personagens com o meio, interagindo com suas peculiaridades e sentimentos. Bom exemplo disso está no livro Lição de Anatomia do Temível Doutor Louison (Fantasy, 2014). Mesmo expressando um Steampunk bem estrangeiro, a ambientação em Porto Alegre, e a inclusão de comportamentos típicos do país na época, conferem uma identificação e empatia imediatas ao leitor, em relação a obra; sendo o racismo, um dos mais incisivos deles. O conjunto de referências à obras do romantismo/realismo brasileiro, confere ainda mais aproximação do enredo com o sentimento nacional, por meio da expressão de temas, elementos e ideias próximas as vislumbradas em nossa terra.

Porto Alegre dos Amantes, a capital do Rio Grande do Sul, sob uma nova perspectiva.

Porto Alegre dos Amantes, a capital do Rio Grande do Sul, sob uma nova perspectiva.

Ora, livros como O Ateneu (1888), Contos Amazônicos (1893), e Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), já são obras bem próximas do sentimento nacional, e adotados como base líricas do citado livro, o credenciam ainda mais como um marco para a nacionalização de nossa fantasia, embora dentro de um contexto tipicamente europeu online project work. Outro caso relevante é o o livro A Arma Escarlate (Novo Século, 2011), de Renata Ventura. No enredo, Hugo, o protagonista, é morador do Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, e de repente vê-se envolvido em um mundo mágico (sim, é uma espécie de ‘prequel’ de Harry Potter), todavia, mais que sua ambientação, são as críticas sociais, e a exposição de aspectos da realidade brasileira que credenciam a obra como dentro desse nicho, ainda tão pequeno, de livros fantásticos voltados ao viés nacional. Nesse contexto temos também Emílio e os Lúmens (Premius, 2011), de Jackson Braga, livro bem parecido ao anterior, em termos de composição, mas que tenta embasar seu cenário e sentimentos dentro de um contexto brasileiro.

A Arma Escarlate, de Renata Ventura, ambienta local e sentimentalmente o enredo no Brasil.

A Arma Escarlate (Novo Conceito, 2011), de Renata Ventura, ambienta local e sentimentalmente o enredo no Brasil.

Importante ser entendido que esta tendência ao viés nacional, aqui, não é tão enraizado como em obras regionalistas, distante disso, sua expressão ainda é muito tênue, e embasada quase totalmente em conceitos estabelecidos lá fora. Reforço que isso não constitiu demérito, pelo menos nesse aspecto retórico. Mas, pensando e temos estéticos, não deixo de avaliar esse ganho de identidade como um avanço relevante para nossa literatura, não por um nacionalismo barato e enaltecerdor, mas sim, pelo ganho em identidade e relevância de temas e sentimentos tão nossos, e que seriam conteúdos próprios e enriquecedores de nossas obras. Prova disso, é o reconhecimento mundial de autores brasileiros, como os já citados Jorge Amado e Graciliano Ramos que, mesmo em gêneros diferentes ao aqui tratado, demonstraram bem o fato de a conquista de um estilo próprio, e seu, ser muito importante para o reconhecimento pessoal, e amadurecimento do cânone nacional como um todo.