A “Liquidez” do mundo contemporâneo e as novas práticas ludo-eletrônicas

O filósofo Ateniense Platão que viveu entre 428 à 348 a.c dedicou grande parte de seu ideário a compreender o processo de metamorfose intelectual do ser humano. Para Platão todos os homens – espécie – nascem no que ele denominou de “mundo das sombras”, as sombras no pensamento platônico significam as bases do conhecimento fomentado com base no senso comum. O desprendimento do sujeito das sombras causadas por conhecimentos ilusórios faz com que o mesmo migre para o “mundo das ideias”.

Em linhas gerais Platão explicita que para o ser humano atingir a plenitude filosófica precisa necessariamente compreender os grilhões intelectuais que o prende dentro de “sua caverna” afim de que dessa forma possa sair das sombras e compreender o mundo em sua plenitude. Apesar de tal ideário ter sido constituído em um temco8nqgnusaerew0po histórico totalmente distinto ao tempo presente, o arcabouçou desenvolvido por Platão é importante na medida em que nos elucida a importância de conhecermos o mundo, não apenas por aquilo que estamos acostumados, mas também por outras visões e perspectivas. Se Platão fosse vivo nos dias atuais, talvez chegasse a conclusão de que não é a falta de informação que nos prende as sombras e sim o excesso dela que nos expõe a formação do conhecimento esfacelado.

Percebemos nos parágrafos a cima através do diálogo com Platão um dos mais angustiantes paradoxos da vida contemporânea, que se materializa na grande gama de informações o advento da Internet nos possibilitou ter acesso que contrasta com o sedentarismo intelectual que nos impede de transformá-las em ideias.

Segundo o historiador francês François Hartog o mundo contemporâneo apresenta uma maneira peculiar de compreender a passagem do tempo, que ele denominou como um regime de historicidade: o presentismo. Os presentistas são sujeitos que não conseguem pensar o passado, pois como tudo está sempre cambiando rapidamente dificilmente sobram arquipélagos para fincar a bandeira da memória. Por outro lado não são capazes também de pensar o futuro, tal fato se deve ao fato de viverem em uma realidade onde inovações tecnológicas são inauguradas a cada dia.

Uma característica básica da contemporaneidade que contribui para a formação da percepção presentista da Histórica é o acumulo de tarefas executadas por aparelhos eletrônicos, entre os tais se encontram os notebooks e principalmente os smartphones.

Como tais aparelhos acumulam funções passamos então a ficar cada vez mais próximo deles durante o nosso cotidiano, contribuindo para a formação de Humanos com partes mecânicas – Ciborgues -, ou seja, usamos tanto o nosso celular e para tantas tarefas distintas que o mesmo acabou se tornando uma extensão do nosso corpo. É muito comum atualmente uma pessoa ao chegar no trabalho e perceber que esqueceu o celular voltar para casa e buscar o aparelho, mesmo que não volte para resgatá-lo fica com o sentimento de que algo não está completo. Os consoles de certa forma acompanharam essa lógica cultural tecnológica, podemos constatar essa perspectiva na apresentação do XBOX ONE pela Microsoft, onde foi frisado por diversas vezes as funcionalidades do videogame que não estão ligados necessariamente a prática lúdica.

A imagem acima causou furdúncio na internet entre os jogadores de Pokemon Go e os que criticavam os dois. Interessante como qualquer debate em redes sociais acaba por se tornar em algo meramente maniqueísta.
A imagem acima causou furdúncio na internet entre os jogadores de Pokemon Go e os que criticavam os dois. Interessante como qualquer debate em redes sociais acaba por se tornar em algo meramente maniqueísta.

Como já dito os smartphones acumulam cada vez mais funções no nosso cotidiano, para tornar isso possível foi preciso sofisticar seus sistemas operacionais algo que permitiu que uma das funções executadas pelos aparelhos de telefone é a de jogar video-game, prática que várias desde games como o Candy Crush até alguns FPS de gráficos ótimos. É de grande valia ressaltar que á prática de jogar jogos eletrônicos sem precisar necessariamente de um console não foi inaugurada com os smartphones, contudo não podemos negar que os celulares vão tornar essa prática mais efetiva.

Um dos aplicativos ludo-eletrônicos que causou estardalhaço nesse ano de 2016 foi o lançamento do game Pokemon go, desenvolvido pela empresa Niantic. A ideia do jogo segue uma tendência proposta há muito tempo pela franquia de colocar o player em movimento, partindo da perspectiva da realidade aumentada onde os “monstrinhos” do game se materializam partindo das câmeras do gadgets em terreno do mundo físico.

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Tal prática é um passo importante na mudança da percepção espacial. Antes o universo da informática ficava da tela do computador para além, o que já representou uma mudança brusca, talvez para nós que nascemos dos anos 90 em diante isso seja algo “natural” agora sendo empático com pessoas que tiveram sua adolescência antes do advento da internet isso é uma mudança que atravessou a maneira com que o mesmo entendiam as relações cotidianas, em outras palavras, compreender a infinidade de informações e possibilidade que existem “dentro de um computador ou um celular” é uma novidade contundente. Dessa forma o pokemon go traz esse universo que antes se encontrava por de trás da tela para o campo da realidade atual. É consideravel ressaltar que a iniciativa da Niantic não é a primeira a seguir esse horizonte, contudo é inegável a popularidade alcançada pela empresa com o jogo.

Pokemon go representa em minha análise a materialização do presentismo no mundo contemporâneo, característica que já anunciada anteriormente pela obra “Fausto” obra importante para a dramaturgia alemã, como para a cultura ocidental como um todo escrita por Von Goethe.

Em tal narrativa Goethe narra a vida de Fausto, um sujeito que tinha aparentemente tudo que um homem de seu tempo poderia querer: bebia bons vinhos, dormia com belas mulheres, era abastado financeiramente e era conhecido por seu intelecto aguçado. Resumindo a obra Fausto começou a ser atentado pelo Demônio que começou a o persuadir a pedir algo que ele muito deseja, como já dito Fausto tinha tudo que sua época o permitia de ter e sempre respondia ao Demônio com negativas, contudo não era nada aceitável para o Diabo existir um ser humano que não quisesse algo mais o que fez com que o mesmo – Demônio – continuasse a atentar Fausto dia após dia. Em determinado momento Fausto caiu na tentação e fez um pedido inusitado, ele solicitou sentir todos os prazeres que já possuía ao mesmo tempo. O Demônio se animou com o pedido de Fausto, pois para ele tal pedido abria uma caixa de pandora para o desandar da Humanidade.

Fausto sendo atormentado pelo Demônio, imagem retirada do filme de F. W. Munrau apresentado em uma edição do projeto Cinema livre. Fonte: http://dimensaoexperimental.blogspot.com.br/2015_07_01_archive.html
Fausto sendo atormentado pelo Demônio, imagem retirada do filme de F. W. Munrau apresentado em uma edição do projeto Cinema livre.

A parábola de Fausto citada acima apresenta claramente o mundo contemporâneo – ou para alguns mais exaltados a pós-modernidade -, afirmo então que vivemos no mundo do Demônio de Fausto, em uma época high tech onde um turbilhão de informações e propagandas nos abatem cotidianamente pelos nossos celulares e computadores, realidade onde monstrinho de uma franquia de jogos virtuais ganham vida e contrastam com os móveis de nossa casa, em outras palavras, a contemporaneidade coloca lado a lado o virtual e o físico em um mesmo plano.

No manifesto comunista certa vez Karl Marx e Friderich Engels deferiram a seguinte frase: “tudo que é sólido desmancha no ar”. O contexto de tal passagem é bem distinto ao nosso mundo atual, mas serviu para compreender um processo de transformação sócio-cultural muito brusco na Inglaterra: a Revolução Industrial. Contudo tal passagem pode muito bem ser reutilizada em nosso mundo atual. Se partirmos do pressuposto de que vivemos na geração da informação a solidez do mundo atual se esvai na quantidade de informações temos que lidar cotidianamente.

Segundo Zigmunt Bauman em seu livro “Modernidade liquida” a característica comum do munto atual é a sua capacidade de se esvair pelos dedos, dessa forma todos os segmentos de nossa vida perpassam pela liquidez, desde nossos desejos supérfluos até nossas relações mais íntimas. Hoje por conta do assédio das propagandas que está por todos os lados, aprendemos a ser feliz ao consumir, contudo nem todos tem capacidade financeira de consumir tudo que as propagandas dizem que devemos ter para ser feliz e tal realidade acaba por frustra aqueles que não conseguem participar de determinados ciclos sociais, por não possuírem itens que identificam tais grupos.

Apesar do caráter aparentemente pessimista das linhas que se seguiram acima, o texto que acabaram de ler não teve o intuito de postular contra as inovações tecnológicas e muito menos contra as iterações lúdicas que surgem através dela. Mas é um texto que contém inquietações pessoais minhas ao tentar entender a realidade que me rodeia, se me questionarem se tenho uma solução para os problemas causados pelo mau uso de aparelhos eletrônicos, responderei que não tenho uma saída mágica para tal questão, mas uma dica que deixo para aqueles que assim como eu querem compreender a matrix é sempre se ater a crítica, para que dessa forma possamos criar um firewall que nos permita manter o nosso próprio sistema de crenças além de sermos analíticos com as informações que nos rodeia.

Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC), professor da rede básica de ensino tanto da rede particular como da pública, integrante da União Cearense de Gamers (UCEG), administrador da Taverna Lúdica e agora colunista do Cyberaeon.