Diário de um detento: “O Relógio Na Cadeia Anda Em Câmera Lenta”

“Ratatatá, mais um metrô vai passar.
Com gente de bem, apressada, católica.
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita.
Com raiva por dentro, a caminho do Centro.”

Diário de um detento

Racionais Mc’s

 

A música “Diário de um Detento” está presente no disco “Sobrevivendo no inferno” que teve mais de 500 mil cópias vendidas sendo assim o disco mais popular do grupo. Antes de falar exatamente sobre o ponto principal do texto, é importante deixar claro o porquê da escolha dessa música, no meio de tantas outras. No começo foi até difícil escolher qual música em específico para escrever, pois como afirmou meu colega de curso Damilson Santos as letras apresentam uma “metralhadora de crítica social”, no entanto o que me chamou mais atenção não foi de início a letra, mas sim a melodia que tem um ritmo compassado que cria um clima ímpar para a canção. Logo depois o susto com a melodia, vem a letra, ainda mais impactante.

Essa música é feita inspirada nos escritos do ex-presidiário, Jocenir e fala sobre o massacre do Carandiru em 1992.

“Na referida rebelião, um protesto de presos ou uma briga entre eles culminou com a invasão do local pela tropa de choque e com 111 óbitos declarados de presos, resultado que chamou a atenção produzindo debates acalorados sobre os culpados e até sobre o merecimento dos presos. O motim dos presos chamou tamanha atenção que se constitui um fato gerador de um filme que atraiu mais de três milhões de brasileiros para os cinemas gerando grande repercussão internacional.” (DA COSTA, 2011:192)

Então podemos perceber diversos elementos que podem ser pautados a partir dessa música, elementos que vão desde a violência, processo de criminalização do pobre até o um debate mais profundo sobre qual a real função dos presídios no Brasil, contudo essa fonte sonora também nos permite abordar as diversas relações psicológicas que os sujeitos tem com a passagem do tempo.  

 

Um dos pontos de maior transformação quando imergimos nos estudos históricos é a tomada de consciência sobre a inexistência de naturalidade na constituição de conceitos, ou seja, ao longo do tempo a atuação dos sujeitos na História é responsável pela fomentação de novos hábitos e práticas socioculturais. Dessa forma a ideia de “tempo” está dentro desse limiar, o que em outras palavras, significa dizer que a medida em que os sujeitos históricos mudam seus hábitos a percepção do tempo cambia junto.

Nos últimos 4 anos atuando como docente na rede básica de ensino percebi que um dos grandes desafios de cognição da História por parte dos meus educandos passava pela capacidade de abstrair e se transportar para outra temporalidade e com isso compreender o passado como uma realidade original e não como uma cópia do presente só que com roupas e uma paisagem distinta.

Um dos melhores artifícios que me deparei para driblar esse problema foi a utilização da música “Diário de um detento”, essa canção tem a capacidade de demonstrar através do casamento de sua letra e melodia como o tempo pode ser percebido de maneira distinta. A narrativa contada pela letra – e acompanhada por uma melodia que simula o “tic tac” do relógio – mostra como o tempo “muda” dentro e fora da cadeia como podemos perceber no trecho:

Ratatatá, mais um metrô vai passar.

Com gente de bem, apressada, católica.

Lendo jornal, satisfeita, hipócrita.

Com raiva por dentro, a caminho do Centro.”

Na passagem acima percebemos que fora da cadeia o tempo é frenético característica do modelo de vida moderno, já dentro da cadeia o tempo é percebido da seguinte maneira:

Rátátátá… preciso evitar

que um safado faça minha mãe chorar.

Minha palavra de honra me protege

pra viver no país das calças bege.

Tic, tac, ainda é 9h40.

O relógio da cadeia anda em câmera lenta.

O que podemos perceber nos trechos acima que não é a constituição do tempo que muda, nos dois casos cada hora continua contendo 60 minutos, assim como cada minuto contém 60 segundos e assim sucessivamente, o que sofre alteração na verdade são as condições de cotidiano em que o sujeito é imerso e essa inserção é capaz de gerir sentimentos sobre a passagem do tempo que são originais dependendo da realidade onde o mesmo se encontra.  

Se nos lembrarmos de casos cotidianos como: esperar em uma fila de banco, aguardar a chegada do ônibus e compararmos com momentos felizes podemos ter uma noção da tortura psicológica que o tempo causa em momentos de desconforto. Agora pensemos nessa realidade dentro de uma cadeia em condições precárias, onde as atividades para ocupar o cotidiano dos presidiários são inexistentes. A estrofe abaixo toca em tal problemática:

Hoje, tá difícil, não saiu o sol.

Hoje não tem visita, não tem futebol.

Alguns companheiros têm a mente mais fraca.

Não suportam o tédio, arruma quiaca.

Graças a Deus e à Virgem Maria.

Faltam só um ano, três meses e uns dias.

Tem uma cela lá em cima fechada.

Desde terça-feira ninguém abre pra nada.

Só o cheiro de morte e Pinho Sol.

Um preso se enforcou com o lençol.

Qual que foi? Quem sabe? Não conta.

Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (…)

Nada deixa um homem mais doente

Que o abandono dos parentes.

O trecho acima escancara problemas ligados ao sistema carcerário, em nossos presídios faltam atividades de reabilitação dos detentos e sobra tempo para que os mesmos fiquem pensando na reprovação e abandono social e nas várias portas que se fecharão em seu futuro. O que choca  nas linhas acima não é o suicídio em si, mas as condições que levaram a tal ato pelo detento, pois além de enfrentar fisicamente o peso da deslocação temporal – de fora para dentro da cadeia – o preso passa também pela desaprovação da sociedade e da família.

Segundo Michel Foucalt em “A Microfísica do Poder”:

“Habitualmente se acredita que a prisão era uma espécie de depósito de criminosos, deposito cujos inconvenientes se teriam constatado por seu funcionamento, de tal forma que se teria dito ser necessário reformar as prisões, fazer delas um instrumento de transformação dos indivíduos. (…) Desde 1820 se constata que a prisão, longe de transformar os criminosos em gente honesta, serve apenas para fabricar novos criminosos ou para afundá-los ainda mais na criminalidade. Foi então que houve, como sempre nos mecanismos de poder, uma utilização daquilo que era um inconveniente. A prisão fabrica delinquentes, mas os delinquentes são uteis tanto no domínio econômico como no político.” (FOUCAULT 1979: 132)

Dessa forma as prisões servem ao estado e aqueles que o controlam como um espaço de criação de espantalhos sociais, onde são abrigados os sujeitos sociais indesejáveis e descartáveis que servem como exemplo para a manutenção do sistema social e da desigualdade. Uma das maneiras de constatar essa utilização do carcere é a massificação daqueles que estão presos, a passagem abaixo demonstra esse aspecto:

“Aí moleque, me diz: então, cê qué o quê?

A vaga tá lá esperando você.

Pega todos seus artigos importados.

Seu currículo no crime e limpa o rabo.

A vida bandida é sem futuro.

Sua cara fica branca desse lado do muro.

Já ouviu falar de Lucífer?

Que veio do Inferno com moral.

Um dia… no Carandiru, não… ele é só mais um.

 

Comendo rango azedo com pneumonia…”

Ou nesse outro trecho onde ele faz uma referência direta ao estado:

“Ladrão sangue bom tem moral na quebrada.

Mas pro Estado é só um número, mais nada.

Nove pavilhões, sete mil homens.

Que custam trezentos reais por mês, cada.”

Percebe-se que a estrutura da prisão é degenerativa e responsável por transformar “um preto tipo A em um neguinho”. No entanto a crítica não se situa apenas em relação ao estado, mas está direcionada a sociedade em geral como a epígrafe está apontando. O que torna esse diálogo  pertinente é a capacidade de refletirmos sobre qual tipo de sociedade estamos construindo? O que vejo nos discursos políticos e no pensamento comum são saídas extremas para a resolução da violência, me pergunto até quando a hipocrisia nossa de cada dia nos impedirá de fazer um debate sério acerca de temas tão conjecturais e importantes.

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