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Leite, política, horror e história medieval – A receita de Horace Walpole para cozir O Castelo de Otranto

20 de julho de 2018
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Finalmente, tão suave quanto possível, ela tateou em busca da porta e, ao encontrá-la, entrou trêmula na câmara de onde ouvira o suspiro e os passos. Sentiu uma espécie de alegria momentânea ao perceber um raio imperfeito de brilho nublado de luar no telhado da abóbada, que parecia cair, e de onde pendia um fragmento de terra ou contrução, ela não conseguia distinguir, que parecia ter sido feito de fora para dentro. Ela avançou avidamente para esse abismo, quando discerniu uma forma humana em pé contra a parede.
Ela gritou, acreditando ser o fantasma de seu prometido, Conrad. A figura, avançando, disse, em uma voz resignada −
“Não se assuste, senhora; Eu não irei feri-la.

Castelo de Otranto, Capitulo  1, Horace Walpole

Horace Walpole, por Sir Joshua Reynolds, entre 1756-1757

Narrativas como “Ilíada”, “Gilgamesh”, “Beowulf”, “A Visita de Thor a Jotunheim” ou mesmo “O Livro das Revelações” (“O Apocalipse”, no Brasil), denotam o gosto da humanidade por narrativas fantásticas, onde nos defrontamos com situações além da rotina; onde não há preocupações com impostos, o trabalho ou política; onde as personagens lidam com temas capazes de entreter e prender a imaginação de quem decide embarcar em tais contos.

Assim, Horace Walpole (Setembro/1717-Março/1797), trouxe ao mundo a obra que seria considerada por muitos pesquisadores, com o passar dos séculos, o marco do romance gótico que despontavam no século 18, e ainda mais espantoso: considerado por muitos como o primeiro livro do gênero horror. O mais jovem dos filhos de Sir Robert Walpole (1º Conde de Orford; Agosto/1676-Março/1745), publicou em 1765 “The Castle of Otranto” (“O Castelo de Otranto”), uma história que mescla “o antigo e o novo”, ao misturar o estilo medieval com horror.

A estética tanto do estilo de escrita, quanto de narrativa deu o estilo a partir da qual clássicos como “The Old English Baron” (1777, Clara Reeve), “The Mysteries of Udolpho” (1794, Ann Radcliffe), “Vathek” (1786, William Thomas Beckford), “The Monk” (1796, Matthew Lewis), “The Vampyre: A Tale” (1819, John Polidori), “Frankenstein; or the modern Prometheus” (1818, Mary Shelley), “Dracula” (1897, Bram Stoker), “The Masque of the Red Death” (1842, Edgar Allan Poe), “The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” (1886, Robert Louis Stevenson) e “Trilbi” (1894, George du Maurier), dentre outros foram redigidos.

Page Title da 1ª Edição de “The Castle of Otranto”

Walpole era fascinado por história medieval (chegou a construir, para si, uma residência nos moldes desse período chamada “Strawberry Hill”) bem como fã confesso de William Shakespeare (Abril/1564-Abril/1616), como evidenciado no prefácio para a segunda edição de “The Castle of Otranto”, onde o autor exalta Shakespeare como um gênio incomparável, um exemplo de liberdade de imaginação.

Como podemos observar na figuração de um fantasma em Otranto, que remete diretamente ao espectro em “Hamlet” (“Hamlet”, publicado entre 1599-1602). Todavia, como o próprio Walpole frisou no mesmo prefácio, “o encontro de Hamlet com o fantasma serviu-lhe como um modelo de terror”.

Um fato curioso quanto à obra é Walpole, em sua primeira edição, haver noticiado que a mesma tratava-se da tradução realizada por William Marshall, de um antigo manuscrito italiano, de autoria creditada a Onuphrio Muralto. Dado o sucesso do volume, ele admite ser o autor do livro e tanto Marshall quanto Muralto contituirem, apenas, seu pseudônimo e uma personagem ficcional criada pelo mesmo para conferir verossimilhança ao fato de “The Castle of Otranto” ser uma narrativa medieval.

Strawberry Hill House

Capa de “The Castle of Otranto”, por Longman Publishing (2012)

O texto acompanha a terrível história de Manfred, o senhor de Otranto e sua família. Os fatos desenrolam-se a partir do dia marcado para o casamento de seu filho Conrad (descrito como um jovem adoentado e frágil), com Isabella filha do nobre Frederic. Todavia, pouco antes do início da cerimônia, o rapaz é esmagado por um gigantesco elmo, que havia despencado aparentemente vindo de lugar algum.

O fenômeno está particularmente ligado à uma antiga profecia, na qual “o castelo e o título de senhor de Otranto deixariam de pertencer à atual família se o proprietário real se tornasse grande demais para habitá-lo”. Assombrado pelo édito, assim como temendo pelo fim de sua linhagem, Manfred decide evitar tal sina rompendo o laço com sua atual esposa, Hipolita (sob a desculpa de que a mesma não fora capaz de prover-lhe um herdeiro adequado e estaria velha demais para gerar um substituto ao falecido Conrad), para desposar a jovem Isabella. O castelo localiza-se no extremo sul da Itália, numa região de mesmo nome, conhecida por suas terras férteis e uma vez famosa pela criação de cavalos.

Vista do Castelo de Otranto no Reino de Nápoles

Theodore protege Isabella da fúria de Manfred

Devemos recordar que, no período onde a história é ambientada, a linhagem familiar era relacionada ao primogênito do sexo masculino. Ele herdaria as posses e títulos de seu genitor. As filhas, pelas normas do casamento vigentes, perderiam seu sobrenome e seriam integradas à família do marido. A partir desse momento, uma série de eventos sobrenaturais ocorrem durante as tentativas de Manfred em dar cabo de seu objetivo. Na narrativa, há a presença constante de um espectro (nos moldes do já citado “Hamlet”), bem como outras situações, nas quais o horror se evidencia. Todavia, o medo não é o elemento mais importante na trama desenvolvida por Walpole. Sua análise/descrição da psique de cada personagem constitui-se num universo à parte.

O autor, ao invés de nos apresentar homens e mulheres idealizados, como nos romances de cavalaria dos quais é fã confesso, nos traz personagens dotados de medos, defeitos, manias. Suas motivações, por mais ficcionais que sejam, rivalizam com atos do mundo real (um exemplo disso é a obsessão de Manfred por Isabella).

Frederic descobre o Esqueleto, por Bertie Greatheed

Jerome, por sua vez, é o representante de como a igreja/religião seria definida para o gênero gótico por Walpole. Segundo alguns estudiosos, as personagens de “The Castle of Otranto” parecem, numa leitura a priori, inconsistentes. Todavia, ao se observar o contexto de época e a influência da luta estado vs. religião, pode-se compreender melhor seus comportamentos e características.

Tendo uma carreira política ativa, o autor confere sua visão ao texto na alegoria do embate liberdade X opressão ao retratar o modo como o senhor de Otranto decide contrariar a profecia envolvendo sua família e os meios utilizados por ele para levar seus planos a cabo.

A Entrada de Frederic em Otranto

Ao olharmos para a atmosfera política na Inglaterra enquanto Walpole escrevia Otranto, podemos ver que o horror no romance foi alimentado pelo medo de Walpole de uma esfera política em mudança. Walpole estava lutando para enfrentar o fato de que o tempo da supremacia Whig estava chegando ao fim. Ele temia que os cidadãos ingleses perdessem suas liberdades sob as garras uma monarquia dominadora. Embora os medos de Walpole possam estar desatualizados para um público moderno, eles ajudaram a criar um gênero que tem sido usado para criticar valores sociais e políticos por gerações. O romance gótico permite aos escritores transmitir aos leitores que esses chamados monstros estão presentes nos próprios trabalhos de nossa sociedade e não são absolutamente sobrenaturais.

Anthony Ashley-Cooper, 3º Conde de Shaftesbury, fundador do Whig Party

Para entender um pouco da ambientação política da época do autor, vale ressaltar que o Whig Party (Partido Whig; fundado em 1678), representava as tendências liberais no Reino Unido, contrapondo-se diretamente ao Tory Party (Partido Tory, conservador). Whig é uma palavra de origem escocesa (enquanto tory é uma palavra de origem irlandesa), derivada de whigg, que em escocês, designa um tipo de leite amargo ou soro do leite. Nos tempos de penúria do século XVII fazia parte da alimentação dos pobres e indigentes.

A expressão foi inicialmente usada como um termo pejorativo pelos detratores dos covenanters (calvinistas escoceses que queriam separar a Escócia da Inglaterra no período do rei Carlos I), frequentemente associados com as classes mais baixas da sociedade escocesa. Com o tempo, passou a designar os liberais no cenário político britânico. Após sua dissolução, em 1859, foi sucedido pelo Partido Liberal que, por seu turno, cedeu espaço ao Partido Trabalhista (Labour Party) na oposição ao partido conservador.

Theodore fere severamente um cavaleiro. Por William Bond, 1797. Museu Britânico.

Na sequência dos eventos, quando Manfred tenta possuir a jovem, esta foge para uma igreja com a ajuda de um camponês chamado Theodore. Enfurecido, Manfred ordena a morte de Theodore enquanto conversa com o frade Jerome, que deu abrigo à Isabella. No momento de sua execução, Theodore despe-se, e Jerome reconhece uma marca em seu ombro, identificando-o como seu próprio filho. Ele implora pela vida do rapaz, contudo Manfred é irredutível: só o poupará se Jerome entregar a garota (uma característica observada na obra é o uso de reviravoltas e identidades trocadas/ocultas). De súbito, são interrompidos pelo soar de uma trombeta, indicando a chegada de cavaleiros de outro reino, cujo objetivo era buscar Isabella. A aristocrata foge novamente, levando o grupo a persegui-la.

Em uma narrativa ambientada num trato literário sob o signo de um tempo diferente ao nosso, de costumes hoje ultrapassados como a da visão de mulheres/moças em que na trama são o retrato das donzelas medievais em sua acepção: indivíduos do sexo feminino que precisam ser salvos por um representante do gênero masculino da espécie (Jerome e Theodore protegendo Isabella, por exemplo), assim como a motivação que orienta as ações de Manfred (o vilão): desposar a vítima de seu interesse doentio; Longe de personalzações feminas fortes como Lois Lane, Helen Ripley, Valentina Tereshkova ou Amelia Earhart.

Capa da 7ª Edição de “O Castelo de Otranto”, por Nova Alexandria Editora (2015)

Tal clichê ainda seria visto nos séculos adiante, em obras como “Uma Princesa de Marte” ou “Flash Gordon”, nas quais o tirano/vilão decide forçar o matrimônio com a mocinha, para desespero do herói da história e seus leitores.

Uma curiosidade interessante é a publicação da obra, em 1841, no formato “toy theatre” (ou “juvenile drama”; o que seria, hoje, literatura “infanto-juvenil”) por J. K. Green. A produção de “The Castle of Otranto”, intitulada “Harlequin and the Giant Helmet”, nessa versão, consistia em oito placas de personagens, dez cenas, quatro asas (o equivalente a orelhas) e duas folhas de truques. (mais algumas peças cênicas genéricas que foram planejadas para complementar qualquer número de scripts).

No Brasil, a obra foi publicada pelas editoras Clube do Livro (1964) e Nova Alexandria em 1994 (sua 7ª edição foi publicada em 2015), com tradução de Alberto Alexandre Martins.

Ficha de apresentação de “Harlequin and The Giant Helmet”, por J.K Green (1841)

Capa de Adventures Into the Unknown #1, 1948

“The Castle of Otranto” ganhou, também, duas adaptações em quadrinhos: a primeira, uma história de sete páginas, em Adventures Into the Unknown #1, 1948. Com roteiro de Frank Belknap Long, (conhecido por sua contribuição para a revista Weird Tales e sua amizade com ninguém menos que H.P. Lovecraft), e arte de Al Ulmer.

A segunda, foi na edição #174 de “Illustrerade Klassiker” (“Clássicos Ilustrados”, Suécia/1956), republicada em formato digital no número #18 da coleção “Classics Illustrated JES: The Castle of Otranto” (2010).

No cinema, a obra ganhou um curta/animação/documentário em 1977 intitulado “Otrantský zámek”. Produzido na Rep. Tcheca por Jan Svankmajer  (Setembro/1934), e com duração de quinze minutos, apresenta um arqueólogo amador (Dr. Vozáb) em sua tentativa de provar que a narrativa ambientada na Itália transcorre, de fato, no Castelo de Otranto localizado próximo a Nachod, na Tchecoslováquia. Os acontecimentos da história onde os personagens saem das páginas do livro é mostrado em animação, intercalados com a entrevista entre Vozáb, apaixonado por suas descobertas, debatendo sua teoria com um repórter de TV totalmente cético à argumentação do pesquisador.

Capa do album “Closer”, da banda Joy Division, 1980 (por Factory Records)

O gênero inaugurado por Walpole também influenciou a música mais de dois séculos após a publicação de Otranto: o gótico (conhecido como rock gótico, do inglês gothic rock) é um gênero musical que emergiu do pós-punk no final da década de 1970, evidenciando a atmosfera sombria, melancólica e teatral do rock’n roll. Seus primórdios datam do fim da década de 70 e meados dos anos 80, distinguindo-se de outras vertentes (como o heavy metal), por expressar-se no culto do rock melancólico e sombrio, encontrando inspirações no niilismo e literatura gótica. Suas letras tratam do romantismo literário (conhecido, no Brasil, como a “geração do mal do século”), o existencialismo, o simbolismo religioso, a idealização romântica da morte e do imaginário sobrenatural.

O (rock) gótico deu origem a uma ampla subcultura que incluiu clubes, moda e publicações na década de 1980. Esse gênero musical resiste até hoje, onde grupos como Inkubus Sukkubus e Nosferatu, dentre outros, também incluem versos sobre paganismo e vampirismo em suas letras. Bandas pós-punk britânicas como Joy Division, Bauhaus, Siouxsie & the Banshees, The Cure, The Damned e The Sisters of Mercy são exemplos do princípio desse movimento.

The Cult: “She sells sanctuary”

Capa de “Classics Illustrated JES #18: The Castle of Otranto”, 2010

Travei contato com o gótico em minha (agora distante) juventude. Primeiro, através da música (mesmo que, quando comecei a ouvi-las, a maioria das bandas desse movimento já haviam se separado), para, em seguida, conhecer “The Castle of Otranto”. Confesso que a obra suscitou mais a reflexão que ao medo propriamente dito. Assim como Walpole, também sou fã da época medieval (em breve, falarei sobre “Ivanhoé”, de Sir Walter Scott) e sua narrativa capturou minha imaginação exatamente por ambientar-se nesse período.

Os questionamentos levantados durante a leitura são a marca registrada do gênero gótico, pois seus autores, ao longo dos séculos, não se furtaram em criticar ou desnudar a sociedade/cultura na qual seus escritos transcorrem. Ainda que, segundo alguns, Walpole possa ter feito observações implícitas sobre o contexto de seu tempo e o horror esteja mais para o surreal que para o amedrontador, é uma obra cujas páginas são um raro tesouro.

Introduzindo Strawberry Hill (documentário sobre a residência de Horace Walpole, em inglês):

Créditos:

Capa do álbum “Love”, The Cult (1980)

Vídeos: “She sells sanctuary” (faixa integrante do álbum “Love”, The Cult, 1985. Composição: Ian Astbury e Billy

Duffy) e Introducing Strawberry Hill (produzido por Strawberry Hill House, 2011).

Trilha sonora: “Love will tell us apart” (faixa integrante do single “Love will tell us apart”, Joy Division, 1980. Composição: Ian Curtis, Peter Hook, Stephen Morris, Bernard Sumner).

Trecho inicial do artigo (Horace Walpole, “The Castle of Otranto”, 1764), extraído do e-book “The Castle of Otranto”, 2016 (pág. 18), da coleção Gothic Digital Series – British Gothic Novels (1764 – 1820), publicado pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), traduzido por Rochett Tavares.

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